Poucas e boas
Aventura sobre a Guerra do Golfo
não tem balas perdidas
Isabela Boscov
99 WB and Village Roadshow Film Limited
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Clooney (ao centro):
humor negro na história de soldados que caçam
o ouro de Saddam Hussein
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Uma guerra tão insípida quanto a do Golfo
não parece um tema apropriado a algo muito mais nobre
que um telefilme. Mas eis que ela acabou servindo de pretexto
para uma das produções mais originais do ano
passado: Três Reis (Three Kings,
Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira
em circuito nacional. O enredo começa em 1991, no
dia em que americanos e iraquianos assinam seu acordo de
paz. Os pracinhas ianques celebram como se estivessem numa
festa de colegial, com muita cerveja e gritaria. Afinal,
a maioria deles só viu o conflito da mesma maneira
que os espectadores dos telejornais pela televisão,
sem nem saber onde cairiam os mísseis que disparavam.
Nesse clima de fim de feira, quatro soldados fazem uma descoberta
intrigante: um mapa que pode levar a casamatas recheadas
de ouro, roubado por Saddam Hussein aos kuwaitianos. Instigados
por um superior (interpretado por George Clooney), eles
acreditam que a tarefa é simples. Numa manhã,
podem escapar sem ser vistos, recolher o tesouro e voltar
ao acampamento. Nada, é lógico, vai transcorrer
como o planejado.
Três Reis, como se pode perceber, não
é um filme de guerra tradicional, e sim uma mistura
de aventura, drama e humor negro. Não raro, atinge
a estatura de M.A.S.H., o clássico do cinismo
que o diretor Robert Altman ambientou na Guerra da Coréia.
Em Três Reis, a figura do ex-presidente George
Bush, promovido a herói nacional americano por ter
ganho uma guerra sem muitas baixas, é criticada.
A fita mostra como sua política abandonou à
própria sorte os rebeldes iraquianos que apoiaram
os Estados Unidos no conflito. O filme é tão
bom que nem parece obra de um quase novato, que tem apenas
dois outros trabalhos no currículo. Usando uma película
lavada para criar um efeito de cinedocumentário,
o diretor David O. Russell se revela igualmente atento ao
desempenho dos atores e às pirotecnias visuais. Uma
cena em particular causou polêmica antes mesmo da
estréia da fita: aquela em que se vê o caminho
de uma bala no interior do corpo humano, e que, especula-se,
foi feita com um cadáver de verdade. A tomada é
mesmo impactante, mas não deve ser interpretada como
sinal de sensacionalismo. Como afirmou o próprio
O. Russell, que não confirma nem desmente que tenha
usado um morto de verdade na cena, este é um filme
em que há poucos tiros, mas no qual cada um deles
conta.