Edição 1 635 - 9/2/2000

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Poucas e boas

Aventura sobre a Guerra do Golfo
não tem balas perdidas

Isabela Boscov

 
99 WB and Village Roadshow Film Limited

Clooney (ao centro): humor negro na história de soldados que caçam o ouro de Saddam Hussein

Uma guerra tão insípida quanto a do Golfo não parece um tema apropriado a algo muito mais nobre que um telefilme. Mas eis que ela acabou servindo de pretexto para uma das produções mais originais do ano passado: Três Reis (Three Kings, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. O enredo começa em 1991, no dia em que americanos e iraquianos assinam seu acordo de paz. Os pracinhas ianques celebram como se estivessem numa festa de colegial, com muita cerveja e gritaria. Afinal, a maioria deles só viu o conflito da mesma maneira que os espectadores dos telejornais – pela televisão, sem nem saber onde cairiam os mísseis que disparavam. Nesse clima de fim de feira, quatro soldados fazem uma descoberta intrigante: um mapa que pode levar a casamatas recheadas de ouro, roubado por Saddam Hussein aos kuwaitianos. Instigados por um superior (interpretado por George Clooney), eles acreditam que a tarefa é simples. Numa manhã, podem escapar sem ser vistos, recolher o tesouro e voltar ao acampamento. Nada, é lógico, vai transcorrer como o planejado.

Três Reis, como se pode perceber, não é um filme de guerra tradicional, e sim uma mistura de aventura, drama e humor negro. Não raro, atinge a estatura de M.A.S.H., o clássico do cinismo que o diretor Robert Altman ambientou na Guerra da Coréia. Em Três Reis, a figura do ex-presidente George Bush, promovido a herói nacional americano por ter ganho uma guerra sem muitas baixas, é criticada. A fita mostra como sua política abandonou à própria sorte os rebeldes iraquianos que apoiaram os Estados Unidos no conflito. O filme é tão bom que nem parece obra de um quase novato, que tem apenas dois outros trabalhos no currículo. Usando uma película lavada para criar um efeito de cinedocumentário, o diretor David O. Russell se revela igualmente atento ao desempenho dos atores e às pirotecnias visuais. Uma cena em particular causou polêmica antes mesmo da estréia da fita: aquela em que se vê o caminho de uma bala no interior do corpo humano, e que, especula-se, foi feita com um cadáver de verdade. A tomada é mesmo impactante, mas não deve ser interpretada como sinal de sensacionalismo. Como afirmou o próprio O. Russell, que não confirma nem desmente que tenha usado um morto de verdade na cena, este é um filme em que há poucos tiros, mas no qual cada um deles conta.