Adeus, cartório
Nova
lei americana reconhece a validade da assinatura
eletrônica de documento na internet
Alexandre Mansur
Montagem: Fábio
Victor
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O Congresso americano
aprovou, na semana passada, uma lei que reconhece a validade
de documentos assinados pela internet. A partir de agora,
a assinatura eletrônica, que o usuário gera
com um clique no mouse, vale tanto quanto sua versão
tradicional, feita com rabiscos de caneta sobre papel. Isso
já estava autorizado em alguns Estados americanos,
a exemplo de países como Alemanha, Itália
e Espanha. Com a nova lei, o governo está incentivando
cada vez mais o uso da internet para procedimentos corriqueiros
como fazer contratos, dar ordens de compra e preencher formulários
de empresas de seguros. A medida vai dar mais segurança
para o comércio eletrônico, que não
pára de crescer e hoje já bate na casa de
125 bilhões de dólares por ano só nos
EUA. No Brasil, existe um projeto de lei equivalente na
Câmara dos Deputados.
Como geralmente acontece
na nova economia digital, a regulamentação
federal chega apenas para dar aval oficial a uma prática
que já foi consagrada pelo uso. Mas, neste caso,
o que parece uma decisão rotineira dos congressistas
americanos simboliza o fim de uma era e início de
outra. Desde que a história passou a ser registrada
em documentos oficiais, várias foram as maneiras
utilizadas para identificar seus autores. A mais elementar
de todas é a velha e inconfundível impressão
digital, ainda usada por cerca de 1 bilhão de pessoas
analfabetas em todo o mundo. Entre os alfabetizados, há
alguns séculos, o que provava a autenticidade de
um documento era o nome escrito da pessoa, traçado
à pena com nanquim e arabescos elaborados. Mas não
havia muitos recursos para evitar que os traços fossem
falsificados. Para reduzir o risco, membros da nobreza derramavam
sobre os documentos cera derretida e estampavam nela o selo
pessoal. Desde então, a pena foi substituída
pela caneta esferográfica, mas a caligrafia ainda
é o meio mundialmente aceito de identificação.
Mas não por muito tempo.
Há outro aspecto
importante na decisão americana. A regulamentação
de documentos e assinaturas reflete o grau de confiança
que o Estado deposita em seus cidadãos, e vice-versa.
Por isso é simbólico que as transformações
do mundo digital estejam sendo assimiladas primeiro na sociedade
americana, cuja economia liberal se caracteriza, entre outras
coisas, pelo incentivo a inovações dessa natureza
e pelo número reduzido de regulamentações
e amarras oficiais. Ali, a declaração de um
cidadão vale mais do que sua assinatura reconhecida
em cartório por um tabelião. No Brasil acontece
o contrário. A falta de confiança mútua
entre as pessoas e as repartições oficiais
criou a indústria de cartórios e, com ela,
uma burocracia supérflua, que complica a vida de
todos e atravanca a economia. Atualmente há 19 000
cartórios no país, nos quais milhões
de brasileiros perdem tempo e dinheiro só para atestar
que uma assinatura é realmente de sua autoria ou
que uma fotocópia é autêntica. A assinatura
eletrônica promete acabar com tudo isso.
Fácil e seguro
Nos últimos meses, a assinatura eletrônica
se consolidou como a maneira mais segura de garantir a autenticidade
de um e-mail ou de um documento enviado pela rede. Sua utilização
é simples. Tudo que a pessoa precisa fazer é
baixar um programa da própria internet. Esse programa
fica armazenado no computador do internauta. Toda vez que
ele for enviar um e-mail e quiser garantir sua autoria,
só precisa clicar em um ícone e o computador
cria um código que vai junto com a mensagem, comprovando
sua autenticidade. O sistema é seguro, pois o código
é pessoal e irreproduzível. Além disso,
ele impede que um fraudador ou um hacker altere o conteúdo
da mensagem ou tente falsificá-la. "Um fraudador
pode forjar a caligrafia de uma pessoa e falsificar sua
assinatura no papel, mas ninguém pode clonar uma
assinatura digital", afirma Alberto Bastos, diretor executivo
da Módulo, empresa brasileira de sistemas de segurança.
Algumas empresas certificadoras
fornecem assinaturas digitais 100% invioláveis, que
são reconhecidas como verdadeiras em qualquer lugar
do mundo. A maior dessas firmas, a americana Verisign, já
garante a autenticidade de 500 000 sites de comércio
eletrônico e atesta a assinatura de 4 milhões
de pessoas. Sua filial brasileira, a Certisign, está
trabalhando para 1.500 empresas, como o banco Itaú
e a loja virtual Submarino. No ano passado, a Secretaria
de Receita Federal passou a reconhecer também o CGC
eletrônico. Até então, na hora de prestar
contas ao Fisco, cada empresa tinha de enviar alguém
até um escritório da Receita, levando na pasta
formulários preenchidos e assinados. Agora, um funcionário
só precisa acessar a página da Receita, digitar
uma senha e transferir pela internet todos os dados. "Estamos
nos livrando de um trabalho arcaico", diz Vicente Silveira,
diretor de tecnologia da Certisign, que implantou o sistema
da Receita.