Edição 1 635 - 9/2/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Os órfãos da Aids
Atendimento com jeito de Primeiro Mundo
O sertão nordestino na Pré-História
Chega ao Brasil o gel que promete dissolver a cárie
Estado terá Megaresort em estilo caribenho
Rivaldo é o melhor do planeta
Macacos brasileiros podem desaparecer
Instituto descobre falhas nas terapias genéticas
Pesquisas mostram relação entre calvície e infarto
Frutas da Amazônia na sobremesa
O fim da assinatura
A disparada do salaário de Rincón

Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Roberto Campos
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

A careca e o infarto

Pesquisa mostra que a falta de cabelo é indício
de risco para males do coração

Sandra Boccia

Más notícias aos carecas. Não bastasse o desespero estético com a cabeleira minguante, a perda de cabelo é uma ameaça ao coração. Ou melhor: um sinal visível de ameaça. A probabilidade de um calvo vir a sofrer infarto é superior à de um cabeludo, revela um estudo da Universidade Harvard publicado na última edição da revista Archives of Internal Medicine, uma das publicações médicas mais respeitadas do mundo. O perigo pode ser maior ou menor, dependendo da região da cabeça em que os fios faltam. Quanto mais a calvície avança em direção ao cocuruto, pior. Um deserto capilar como o do ator Raul Cortez quadruplica os riscos de doenças cardíacas quando comparado a entradas na linha da testa como as do presidenciável Ciro Gomes. A calvície é um indício de predisposição a problemas coronários tal qual o colesterol alto ou a hipertensão, diz o cardiologista Paulo Lotufo, do Hospital das Clínicas de São Paulo, um dos cinco autores da pesquisa.

Ligações perigosas

Os riscos de infarto aumentam 3 vezes se o calvo tem colesterol alto e 2 vezes se ele sofre de hipertensão

Fonte: Archives of Internal Medicine

Desde a década de 50, suspeitava-se da relação entre a escassez de cabelo e os males do coração. O trabalho de Harvard, no entanto, foi o primeiro a determinar os riscos com base nos diferentes tipos de calvície. Nunca se havia estudado por tanto tempo e tão minuciosamente o assunto como agora. Por onze anos, os médicos acompanharam 19 112 homens, entre 40 e 84 anos. Ao término da pesquisa, cerca de 1.500 tinham sido vítimas de algum problema cardíaco — de crises de angina a infarto. Deles, 62% eram carecas. Com os dados em mãos, os especialistas traçaram o perfil dos calvos mais ameaçados pelas doenças coronárias.

Apesar da evidência do vínculo entre não ter cabelo e apresentar propensão a infarto, a ciência ainda não conseguiu determinar claramente os motivos dessa coincidência. A grande vilã, apostam os cardiologistas, é a testosterona, o hormônio masculino por excelência — aquele que faz com que os homens falem mais grosso que as mulheres e produzam espermatozóides, entre outras funções. Como a substância acelera o envelhecimento do couro cabeludo, quanto maior a taxa do hormônio, mais extensa é a devastação capilar. Ou seja, os calvos têm testosterona de sobra. Por um lado é bom. Eles não sofrem tanto de alguns sintomas da velhice, como a inapetência sexual. Em abundância, entretanto, o hormônio aumenta a pressão arterial e diminui a concentração de HDL no sangue, o colesterol bom, aquele que impede a formação e o acúmulo de placas de gordura nas artérias coronárias — duas das principais ameaças ao coração.

Ao contrário das mulheres, que na menopausa param de sintetizar os hormônios tipicamente femininos, os homens sempre produzem testosterona. A partir dos 40 anos há uma queda na fabricação do hormônio, mas nunca a interrupção. Sua produção é determinada por herança genética. Quem está programado para ser careca começa a perder o cabelo por volta dos 20 anos. Aos 35, de cada dez homens, quatro ostentam vazios reluzentes sobre a cabeça. Aliada a esses conhecimentos, a descoberta dos médicos de Harvard é mais uma arma na prevenção do infarto, cujas vítimas no Brasil somam 150.000 todos os anos. É impossível alterar o que veio pronto, estabelecido pelos genes, mas dá para controlar os outros fatores de risco para as doenças cardíacas. Largar o cigarro, fugir de comidas gordurosas, não abusar do álcool, praticar exercícios físicos e evitar a obesidade é a melhor estratégia em busca de um coração saudável. Todos estão carecas de saber — até os cabeludos.

 

 

 
Domingues

A menos danosa

As entradas na linha da testa indicam riscos de ataque do coração. Comparadas às outras carecas, no entanto, são as menos nocivas. Homens com a cabeça do presidenciável Ciro Gomes, de 42 anos,
têm 9% de probabilidade de sofrer problemas cardíacos.

 

Ricardo Fasanello/Strana


A grande ameaça

O ator Raul Cortez, de 68 anos, ostenta a calvície do tipo coroa — o topo da cabeça liso, ladeado por algumas mechas de cabelo. Carecas
como ele devem tomar cuidado: o
aumento do risco de distúrbios cardiovasculares chega a 36%


Perigo à vista

Um vazio no cocuruto, com um tufo de cabelo na fronte, deve servir como sinal de alerta. Os donos da chamada calvície moderada, a exemplo do cineasta americano Woody Allen, de 64 anos, correm 23% mais riscos que os cabeludos

Risco acentuado

A calvície se alastra e as ameaças aumentam. Aos 41 anos, o príncipe Albert, de Mônaco, pertence a um grupo de calvos de alto risco. A "careca de padre" eleva em 32% a possibilidade de doenças nas coronárias