Edição 1 635 - 9/2/2000

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Na caixa-preta

Cientistas americanos sonegaram dados sobre
efeitos colaterais ruins da terapia genética

Nos últimos dez anos, a terapia genética tem sido encarada como a mais promissora fronteira da medicina. Por meio de técnicas sofisticadas, cientistas tentam eliminar doenças, como alguns tipos de câncer, diretamente no coração das células em que elas se instalam. Para isso alteram as células defeituosas, colocando em seu interior material genético sadio. Na semana passada, esse sonho acabou ficando turvo com a revelação de que pesquisadores ligados a dezenas de centros de pesquisa americanos burlaram as regras e esconderam do público os efeitos colaterais desse tipo de terapia. Há revelações assustadoras em alguns casos.

Durante meses, e até anos, foram mantidos em sigilo nos laboratórios casos em que a aplicação do material genético foi seguida de repentinas febres, crises respiratórias e até mesmo morte. O Instituto Nacional de Saúde, NIH, responsável pelo financiamento e controle de pesquisas médicas nos Estados Unidos, constatou que em apenas um tipo de pesquisa, a que envolve estudos com adenovírus, 94% dos casos de efeitos adversos só chegaram ao conhecimento público depois de uma ofensiva sobre hospitais, universidades e empresas privadas realizada nos últimos três meses. "O pequeno número de efeitos colaterais era um sinal claro da subnotificação de casos", reconheceu Ruth Kirschstein, uma das diretoras do órgão.

Reação violenta – Essa caixa-preta científica não foi aberta por acaso. Em setembro, o estudante Jesse Gelsinger morreu depois de se submeter a uma aplicação de genes no fígado para curar uma doença ligada ao metabolismo, na Universidade da Pensilvânia. A terapia era feita com base em adenovírus, a mais comum nesse tipo de pesquisa (veja quadro). Gelsinger, ao que tudo indica, teve uma violenta reação imunológica. A morte do jovem levou o NIH a apertar o cerco aos centros de pesquisa que usavam o mesmo vírus e exigir maiores detalhes sobre os resultados de seus estudos.

Nem a prestigiosa Escola de Medicina de Harvard escapou do vexame. Os relatórios começaram a chegar ao órgão, até que a impressionante cifra da 652 casos de efeitos colaterais fosse atingida. Antes do aperto, existiam apenas 39, em sete anos de pesquisas. Em boa parte deles, nunca se saberá o que aconteceu de fato. Os médicos dizem que seus pacientes passaram mal ou morreram em decorrência das próprias doenças. Talvez. A única certeza é a de que até agora, em mais de 300 estudos e 5.000 pacientes envolvidos, os casos de sucesso com a terapia genética ainda são insignificantes.