Na caixa-preta
Cientistas americanos sonegaram dados sobre
efeitos colaterais ruins da terapia genética
Nos últimos dez anos, a terapia genética
tem sido encarada como a mais promissora fronteira da medicina.
Por meio de técnicas sofisticadas, cientistas tentam
eliminar doenças, como alguns tipos de câncer,
diretamente no coração das células
em que elas se instalam. Para isso alteram as células
defeituosas, colocando em seu interior material genético
sadio. Na semana passada, esse sonho acabou ficando turvo
com a revelação de que pesquisadores ligados
a dezenas de centros de pesquisa americanos burlaram as
regras e esconderam do público os efeitos colaterais
desse tipo de terapia. Há revelações
assustadoras em alguns casos.
Durante meses, e até anos, foram mantidos em sigilo
nos laboratórios casos em que a aplicação
do material genético foi seguida de repentinas febres,
crises respiratórias e até mesmo morte. O
Instituto Nacional de Saúde, NIH, responsável
pelo financiamento e controle de pesquisas médicas
nos Estados Unidos, constatou que em apenas um tipo de pesquisa,
a que envolve estudos com adenovírus, 94% dos casos
de efeitos adversos só chegaram ao conhecimento público
depois de uma ofensiva sobre hospitais, universidades e
empresas privadas realizada nos últimos três
meses. "O pequeno número de efeitos colaterais era
um sinal claro da subnotificação de casos",
reconheceu Ruth Kirschstein, uma das diretoras do órgão.
Reação violenta Essa caixa-preta
científica não foi aberta por acaso. Em setembro,
o estudante Jesse Gelsinger morreu depois de se submeter
a uma aplicação de genes no fígado
para curar uma doença ligada ao metabolismo, na Universidade
da Pensilvânia. A terapia era feita com base em adenovírus,
a mais comum nesse tipo de pesquisa (veja
quadro). Gelsinger, ao que tudo indica, teve uma
violenta reação imunológica. A morte
do jovem levou o NIH a apertar o cerco aos centros de pesquisa
que usavam o mesmo vírus e exigir maiores detalhes
sobre os resultados de seus estudos.
Nem a prestigiosa Escola de Medicina de Harvard escapou
do vexame. Os relatórios começaram a chegar
ao órgão, até que a impressionante
cifra da 652 casos de efeitos colaterais fosse atingida.
Antes do aperto, existiam apenas 39, em sete anos de pesquisas.
Em boa parte deles, nunca se saberá o que aconteceu
de fato. Os médicos dizem que seus pacientes passaram
mal ou morreram em decorrência das próprias
doenças. Talvez. A única certeza é
a de que até agora, em mais de 300 estudos e 5.000
pacientes envolvidos, os casos de sucesso com a terapia
genética ainda são insignificantes.