Edição 1 635 -9/2/2000

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Verão sem fim

Inauguração de megaresort em estilo caribenho
coroa a explosão do turismo no Nordeste

Lucila Soares

 
Oscar Cabral

Jorge Amado e Dorival Caymmi já tinham espalhado a fama da Bahia, mas o litoral norte do Estado ainda era um imenso e desconhecido coqueiral em 1968. Por isso ninguém prestou muita atenção quando o empresário Klaus Peters comprou 5.600 hectares de terra (o equivalente a quatro vezes o tamanho do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo) a 70 quilômetros de Salvador. Não parecia um grande negócio. A ligação com a capital baiana era tão precária que o percurso levava mais de quatro horas. Água encanada e energia elétrica eram artigos de luxo. Esgoto e telefone simplesmente não existiam. Hoje, com a Linha Verde, estrada que vai até Aracaju, a propriedade de Peters abriga o resort Praia do Forte, um dos mais famosos do Brasil. A viagem até Salvador foi encurtada para apenas uma hora. E a região, batizada de Costa dos Coqueiros, foi escolhida para o maior empreendimento turístico do país. O fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, Previ, investiu 200 milhões de reais no megaresort Costa do Sauípe, a apenas 20 quilômetros da Praia do Forte. Quando for inaugurado, em julho, o Brasil entrará, enfim, na era dos megaresorts, ao estilo dos que existem há décadas no Caribe e na Polinésia Francesa.

A aposta é ambiciosa. Com ela, pretende-se mudar a escala do turismo nacional. O complexo tem cinco hotéis e seis pousadas, que somam 1.650 apartamentos – quatro vezes a média dos grandes hotéis e resorts do país. São 6 quilômetros de praia paradisíaca, que até agora permaneciam intocados, a 90 quilômetros do centro de Salvador. A área foi comprada de outro peso pesado: a construtora Norberto Odebrecht, que tem 3% de participação e é responsável pelas obras. Os parceiros no projeto também são gente grande: as operadoras Accor, Marriott e SuperClubs, que estão entre as maiores do mundo.

Risco menor – Por trás da ousadia, há uma pesquisa. Realizada no mercado internacional, ela revelou a carência de instalações compatíveis com grandes eventos na rede hoteleira do Brasil. Roland de Bonadona, diretor-geral de hotelaria da Accor Brasil, explica que esse aumento de escala tem grandes vantagens, entre elas facilitar a negociação com as companhias aéreas para a realização de vôos fretados. "O risco econômico de contratar um charter reduz-se bastante quando existe a possibilidade de fechar um pacote com um complexo hoteleiro do tamanho de Sauípe", resume. Bonadona, um francês que mora no Brasil há mais de dez anos, diz que a localização na Bahia é mais um motivo para apostar no sucesso do projeto. "É o Estado que mais consistentemente investiu em turismo nos últimos anos", afirma.

Para atrair investimentos, o governo baiano jogou pesado. Dividiu o Estado em sete zonas turísticas, estabeleceu prioridades para cada uma delas e gastou mais de 1 bilhão de dólares desde 1991 em obras de infra-estrutura, principalmente saneamento básico e estradas. Valença, no sul da Bahia, e Salvador tiveram seus aeroportos ampliados. A Chapada Diamantina, no interior, ganhou o seu, em Lençóis. As empresas reagiram rápido. "Para cada dólar investido pelo governo, o setor privado responde com o dobro", diz Érico Mendonça, da Secretaria de Turismo da Bahia. Entre obras concluídas e projetos empresariais, são mais de 7 bilhões de dólares injetados no Estado desde 1991. Os novos empreendimentos agregaram 40.000 apartamentos à rede hoteleira.

O resultado é que a Bahia ocupa há sete anos o posto de segundo destino turístico do país, perdendo apenas para o Rio de Janeiro. Responde por quase 10% do faturamento da indústria de turismo no Brasil. "A Bahia é um sucesso", diz Dagoberto Silva, diretor da rede Marriott no Brasil. A Marriott, que possui 1.800 hotéis em todo o mundo, vai inaugurar oito unidades na América Latina neste ano, sendo três no Brasil. Além de duas em Sauípe, terá uma em Copacabana, no Rio.

"Vizinhos ricos" – O potencial baiano é objeto de desejo também de outros grupos fortes. O Multiplan, do empresário carioca José Isaac Peres e do ex-banqueiro Júlio Bozano, vai dividir as atenções entre o turismo e seus nove shopping centers. Escolheu a Bahia para sua estréia no ramo com um investimento de 40 milhões de dólares, em Santa Cruz Cabrália. O Club Med vai abrir sua segunda unidade no Estado na bucólica Trancoso, a 25 quilômetros de Porto Seguro – a primeira, em Itaparica, é o maior resort em funcionamento no Estado. E o grupo italiano Valtur, que já opera um hotel em Búzios, no litoral norte do Rio, comprou uma grande área em Mangue Seco, na divisa da Bahia com Sergipe.

Do alto de sua experiência de pioneiro, Klaus Peters observa toda essa movimentação com cautela. Refere-se ao empreendimento ao lado do seu resort Praia do Forte apenas como "meus vizinhos ricos". E indica três pontos que devem merecer atenção na expansão turística do Estado: cuidado com o meio ambiente, melhoria da infra-estrutura e treinamento da mão-de-obra. Sabe do que está falando. A Estrada do Coco, que liga Salvador ao início da Linha Verde, não dá mais vazão ao tráfego de veículos hoje. Nos fins de semana e feriados a viagem torna-se um exercício de paciência que promete piorar depois da inauguração de Sauípe. A duplicação já está prevista no edital de privatização da estrada, mas as obras nem sequer começaram.

A qualidade da mão-de-obra disponível também é precária. O nível de instrução é muito baixo, o que torna difícil padronizar procedimentos mínimos de higiene – como usar luvas para manipular alimentos – e de arrumação dos quartos. Nos hotéis baianos, pedidos simples podem levar horas para ser atendidos. E conseguir funcionários bilíngües é uma missão quase impossível. Num empreendimento que vai empregar diretamente quase 3.000 pessoas, treinamento é um desafio e tanto. Em Sauípe, parte da mão-de-obra está sendo selecionada e treinada pelo Instituto Hospitalidade, mantido pela Odebrecht. As operadoras internacionais preferiram seguir os próprios programas de formação e correm contra o tempo para a inauguração em julho.

Essas deficiências também preocupam o presidente da Embratur, Caio Luiz de Carvalho. A maior parte dos 680 milhões de reais investidos no Nordeste pelo Programa de Desenvolvimento do Turismo em sua gestão foi para infra-estrutura. Os próximos alvos são a Amazônia e as regiões Sudeste e Sul. E já existem boas escolas para formar profissionais de turismo país afora. Trata-se de um esforço louvável, mas é preciso mais. No ranking da Organização Mundial do Turismo, o Brasil continua aparecendo num ridículo 29º lugar, atrás de países como Argentina, Malásia, Hungria e Irlanda.