Verão sem fim
Inauguração
de megaresort em estilo caribenho
coroa a explosão do turismo no Nordeste
Lucila Soares
Oscar Cabral
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Jorge Amado e Dorival Caymmi já tinham espalhado
a fama da Bahia, mas o litoral norte do Estado ainda era
um imenso e desconhecido coqueiral em 1968. Por isso ninguém
prestou muita atenção quando o empresário
Klaus Peters comprou 5.600 hectares
de terra (o equivalente a quatro vezes o tamanho do Aeroporto
de Guarulhos, em São Paulo) a 70 quilômetros
de Salvador. Não parecia um grande negócio.
A ligação com a capital baiana era tão
precária que o percurso levava mais de quatro horas.
Água encanada e energia elétrica eram artigos
de luxo. Esgoto e telefone simplesmente não existiam.
Hoje, com a Linha Verde, estrada que vai até Aracaju,
a propriedade de Peters abriga o resort Praia do Forte,
um dos mais famosos do Brasil. A viagem até Salvador
foi encurtada para apenas uma hora. E a região, batizada
de Costa dos Coqueiros, foi escolhida para o maior empreendimento
turístico do país. O fundo de pensão
dos funcionários do Banco do Brasil, Previ, investiu
200 milhões de reais no megaresort Costa do
Sauípe, a apenas 20 quilômetros da Praia do
Forte. Quando for inaugurado, em julho, o Brasil entrará,
enfim, na era dos megaresorts, ao estilo dos que
existem há décadas no Caribe e na Polinésia
Francesa.
A
aposta é ambiciosa. Com ela, pretende-se mudar a
escala do turismo nacional. O complexo tem cinco hotéis
e seis pousadas, que somam 1.650
apartamentos quatro vezes a média dos grandes
hotéis e resorts do país. São 6 quilômetros
de praia paradisíaca, que até agora permaneciam
intocados, a 90 quilômetros do centro de Salvador.
A área foi comprada de outro peso pesado: a construtora
Norberto Odebrecht, que tem 3% de participação
e é responsável pelas obras. Os parceiros
no projeto também são gente grande: as operadoras
Accor, Marriott e SuperClubs, que estão entre as
maiores do mundo.
Risco menor Por trás da ousadia,
há uma pesquisa. Realizada no mercado internacional,
ela revelou a carência de instalações
compatíveis com grandes eventos na rede hoteleira
do Brasil. Roland de Bonadona, diretor-geral de hotelaria
da Accor Brasil, explica que esse aumento de escala tem
grandes vantagens, entre elas facilitar a negociação
com as companhias aéreas para a realização
de vôos fretados. "O risco econômico de contratar
um charter reduz-se bastante quando existe a possibilidade
de fechar um pacote com um complexo hoteleiro do tamanho
de Sauípe", resume. Bonadona, um francês que
mora no Brasil há mais de dez anos, diz que a localização
na Bahia é mais um motivo para apostar no sucesso
do projeto. "É o Estado que mais consistentemente
investiu em turismo nos últimos anos", afirma.
Para
atrair investimentos, o governo baiano jogou pesado. Dividiu
o Estado em sete zonas turísticas, estabeleceu prioridades
para cada uma delas e gastou mais de 1 bilhão de
dólares desde 1991 em obras de infra-estrutura, principalmente
saneamento básico e estradas. Valença, no
sul da Bahia, e Salvador tiveram seus aeroportos ampliados.
A Chapada Diamantina, no interior, ganhou o seu, em Lençóis.
As empresas reagiram rápido. "Para cada dólar
investido pelo governo, o setor privado responde com o dobro",
diz Érico Mendonça, da Secretaria de Turismo
da Bahia. Entre obras concluídas e projetos empresariais,
são mais de 7 bilhões de dólares injetados
no Estado desde 1991. Os novos empreendimentos agregaram
40.000 apartamentos à
rede hoteleira.
O resultado é que a Bahia ocupa há sete
anos o posto de segundo destino turístico do país,
perdendo apenas para o Rio de Janeiro. Responde por quase
10% do faturamento da indústria de turismo no Brasil.
"A Bahia é um sucesso", diz Dagoberto Silva, diretor
da rede Marriott no Brasil. A Marriott, que possui 1.800
hotéis em todo o mundo, vai inaugurar oito unidades
na América Latina neste ano, sendo três no
Brasil. Além de duas em Sauípe, terá
uma em Copacabana, no Rio.
"Vizinhos
ricos" O potencial baiano é objeto de
desejo também de outros grupos fortes. O Multiplan,
do empresário carioca José Isaac Peres e do
ex-banqueiro Júlio Bozano, vai dividir as atenções
entre o turismo e seus nove shopping centers. Escolheu a
Bahia para sua estréia no ramo com um investimento
de 40 milhões de dólares, em Santa Cruz Cabrália.
O Club Med vai abrir sua segunda unidade no Estado na bucólica
Trancoso, a 25 quilômetros de Porto Seguro
a primeira, em Itaparica, é o maior resort em funcionamento
no Estado. E o grupo italiano Valtur, que já opera
um hotel em Búzios, no litoral norte do Rio, comprou
uma grande área em Mangue Seco, na divisa da Bahia
com Sergipe.
Do alto de sua experiência de pioneiro, Klaus Peters
observa toda essa movimentação com cautela.
Refere-se ao empreendimento ao lado do seu resort Praia
do Forte apenas como "meus vizinhos ricos". E indica três
pontos que devem merecer atenção na expansão
turística do Estado: cuidado com o meio ambiente,
melhoria da infra-estrutura e treinamento da mão-de-obra.
Sabe do que está falando. A Estrada do Coco, que
liga Salvador ao início da Linha Verde, não
dá mais vazão ao tráfego de veículos
hoje. Nos fins de semana e feriados a viagem torna-se um
exercício de paciência que promete piorar depois
da inauguração de Sauípe. A duplicação
já está prevista no edital de privatização
da estrada, mas as obras nem sequer começaram.
A qualidade da mão-de-obra disponível também
é precária. O nível de instrução
é muito baixo, o que torna difícil padronizar
procedimentos mínimos de higiene como usar luvas
para manipular alimentos e de arrumação
dos quartos. Nos hotéis baianos, pedidos simples
podem levar horas para ser atendidos. E conseguir funcionários
bilíngües é uma missão quase impossível.
Num empreendimento que vai empregar diretamente quase 3.000
pessoas, treinamento é um desafio e tanto. Em Sauípe,
parte da mão-de-obra está sendo selecionada
e treinada pelo Instituto Hospitalidade, mantido pela Odebrecht.
As operadoras internacionais preferiram seguir os próprios
programas de formação e correm contra o tempo
para a inauguração em julho.
Essas deficiências também preocupam o presidente
da Embratur, Caio Luiz de Carvalho. A maior parte dos 680
milhões de reais investidos no Nordeste pelo Programa
de Desenvolvimento do Turismo em sua gestão foi para
infra-estrutura. Os próximos alvos são a Amazônia
e as regiões Sudeste e Sul. E já existem boas
escolas para formar profissionais de turismo país
afora. Trata-se de um esforço louvável, mas
é preciso mais. No ranking da Organização
Mundial do Turismo, o Brasil continua aparecendo num ridículo
29º lugar, atrás de países como Argentina,
Malásia, Hungria e Irlanda.