Caverna do tesouro
Fósseis achados na Toca da Boa Vista
revelam
como era o sertão nordestino na Pré-História
Adriano Gambarini
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Um dos salões
subterrâneos:
marcas de rios e
lagos que existiram na
era glacial
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A maior caverna do Hemisfério Sul, a Toca da Boa
Vista, no norte da Bahia, guarda em suas entranhas inúmeras
jóias científicas. É um labirinto absurdamente
seco e quente, com galerias de quase 50 metros de profundidade
de onde começa a ser desenterrado um passado de 20.000
anos. Foi de lá que o geólogo Augusto Auler
arrancou há cerca de um mês um detalhado retrato
de como era a paisagem pré-histórica naquele
pedaço do Brasil. Ele se valeu de fragmentos de rochas
e fósseis retirados da caverna para mostrar que,
no inóspito sertão baiano, no auge do último
período glacial, existia uma densa floresta tropical,
repleta de rios e cascatas. A temperatura era pelo menos
5 graus inferior à atual. Um mundo surpreendente,
com animais já extintos como os macacos Protopithecus
brasiliensis, preguiças gigantes e tigres-de-dente-de-sabre,
que está virando pelo avesso as velhas teorias sobre
o clima daquela época. "Achava-se que era muito seco,
com vegetação menos exuberante", diz Auler.
"Pelo menos no Nordeste, estamos descobrindo que as coisas
não eram bem assim."
A
Toca da Boa Vista é uma das formações
geológicas mais misteriosas do Brasil. Tem 87 quilômetros
de corredores e salões cobertos de estalactites e
estalagmites numa área de apenas 3 quilômetros
quadrados. É um cenário cinematográfico,
com vestígios de antigos lagos e rios subterrâneos,
que está atraindo a atenção de paleontologistas
e geólogos do mundo inteiro e primatologistas famosos,
como o americano Walter Hartwig. Ele veio ao Brasil estudar
os fósseis do macaco Protopithecus. Junto
com o paleontologista brasileiro Cástor Cartelle,
da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, coletou ossos
de mais de trinta espécies de animais entre lhamas,
gatos-do-mato e morcegos que hoje não existem mais
na região. Os pesquisadores acreditam que os bichos
foram arrastados para as profundezas da caverna por torrentes
de água vindas da superfície. Os fósseis,
alguns de até 12.000 anos,
estavam depositados sobre o solo da caverna. Tudo foi coletado
sem que houvesse necessidade de escavação.
Uma das razões para que esse tesouro se tenha mantido
intocado é a dificuldade de acesso à caverna,
descoberta há doze anos. Sua extensão aumenta
a cada expedição espeleológica. A última
delas, feita pelo Grupo Bambuí de Pesquisa Espeleológica
em janeiro, acrescentou 11 quilômetros de labirintos
ao mapeamento anterior. "Acreditamos que sejam mais de 100
quilômetros", conta Auler, que também participou
da expedição. Se tiver mesmo esse tamanho,
será uma das dez maiores cavernas do mundo, recheada
de pistas de um passado ainda por ser desvendado.