Edição 1 635 -9/2/2000

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Caverna do tesouro

Fósseis achados na Toca da Boa Vista revelam
como era o sertão nordestino na Pré-História

 
Adriano Gambarini

Um dos salões subterrâneos: marcas de rios e lagos que existiram na era glacial

A maior caverna do Hemisfério Sul, a Toca da Boa Vista, no norte da Bahia, guarda em suas entranhas inúmeras jóias científicas. É um labirinto absurdamente seco e quente, com galerias de quase 50 metros de profundidade de onde começa a ser desenterrado um passado de 20.000 anos. Foi de lá que o geólogo Augusto Auler arrancou há cerca de um mês um detalhado retrato de como era a paisagem pré-histórica naquele pedaço do Brasil. Ele se valeu de fragmentos de rochas e fósseis retirados da caverna para mostrar que, no inóspito sertão baiano, no auge do último período glacial, existia uma densa floresta tropical, repleta de rios e cascatas. A temperatura era pelo menos 5 graus inferior à atual. Um mundo surpreendente, com animais já extintos como os macacos Protopithecus brasiliensis, preguiças gigantes e tigres-de-dente-de-sabre, que está virando pelo avesso as velhas teorias sobre o clima daquela época. "Achava-se que era muito seco, com vegetação menos exuberante", diz Auler. "Pelo menos no Nordeste, estamos descobrindo que as coisas não eram bem assim."

A Toca da Boa Vista é uma das formações geológicas mais misteriosas do Brasil. Tem 87 quilômetros de corredores e salões cobertos de estalactites e estalagmites numa área de apenas 3 quilômetros quadrados. É um cenário cinematográfico, com vestígios de antigos lagos e rios subterrâneos, que está atraindo a atenção de paleontologistas e geólogos do mundo inteiro e primatologistas famosos, como o americano Walter Hartwig. Ele veio ao Brasil estudar os fósseis do macaco Protopithecus. Junto com o paleontologista brasileiro Cástor Cartelle, da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, coletou ossos de mais de trinta espécies de animais entre lhamas, gatos-do-mato e morcegos que hoje não existem mais na região. Os pesquisadores acreditam que os bichos foram arrastados para as profundezas da caverna por torrentes de água vindas da superfície. Os fósseis, alguns de até 12.000 anos, estavam depositados sobre o solo da caverna. Tudo foi coletado sem que houvesse necessidade de escavação.

Uma das razões para que esse tesouro se tenha mantido intocado é a dificuldade de acesso à caverna, descoberta há doze anos. Sua extensão aumenta a cada expedição espeleológica. A última delas, feita pelo Grupo Bambuí de Pesquisa Espeleológica em janeiro, acrescentou 11 quilômetros de labirintos ao mapeamento anterior. "Acreditamos que sejam mais de 100 quilômetros", conta Auler, que também participou da expedição. Se tiver mesmo esse tamanho, será uma das dez maiores cavernas do mundo, recheada de pistas de um passado ainda por ser desvendado.