Edição 1 635 -9/2/2000

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Brasileiro já tem
serviço nota 10

Nas lojas, nos parques e por toda parte o atendimento aos clientes está ficando com jeito de Primeiro Mundo

João Sorima Neto

Houve um tempo em que fazer compras era um martírio na vida dos brasileiros. As lojas eram calorentas, tinham vendedores mal-humorados e encontrar o produto desejado era um verdadeiro jogo de azar. Não havia a quem reclamar de mercadoria com defeito e conseguir alguma informação pelo telefone era quase impossível. O Brasil de seis anos atrás era como os Estados Unidos na década de 50. Isso sem falar no preço que subia quase todo dia por causa da inflação. Quem bate perna pelas ruas já notou que esse panorama anda mudando bastante rapidamente. O brasileiro disposto a gastar algum dinheiro para encher o tanque do carro, abastecer a despensa ou fazer um exame de sangue nunca foi tão paparicado. "Hoje, quando o freguês é maltratado, não pensa duas vezes: vai fazer suas compras em outro lugar", diz Claudio Felisoni, coordenador do Programa de Administração de Varejo da Universidade de São Paulo, um instituto de pesquisas que vem acompanhando essas mudanças.

 

Lailson Santos

Funcionários do Parque Hopi Hari, em São Paulo: divertindo os visitantes que ficam nas filas

Não passa dia sem aparecer novidade na praça. Recém-inaugurado, o Hopi Hari é um dos mais modernos parques de diversões do país. Fica no município de Vinhedo, 70 quilômetros distante da capital paulista. Tem 1.350 funcionários e capacidade para receber mais de 20.000 visitantes diariamente. Passar um dia nesse parque é coisa de Primeiro Mundo. Não é muito diferente de uma aventura na Disney. Com tanta gente circulando, os imprevistos acontecem a toda hora. Por isso, quem trabalha no Hopi Hari é treinado para resolver reclamações de visitantes, anotar sugestões, entreter as pessoas quando as filas estão grandes e dar atenção especial a idosos e deficientes físicos. "Se não cuidarmos bem das pessoas corremos o risco de elas não voltarem mais", diz Marcelo Cardoso, diretor-superintendente do Grupo Playcenter, que controla o Hopi Hari.

 

Ricardo Benichio

Laboratórios Fleury: investimento de 4 milhões de reais no ano passado para melhorar atendimento

Onde tudo é brincadeira, até que agüentar uma fila não chega a ser um inferno. Há exemplos mais dolorosos. Quem já adoeceu e teve de passar pelo suplício de submeter-se a um exame de sangue, ou coisa do gênero, naqueles laboratórios abarrotados de gente, com enfermeiros emburrados, pode espantar-se com o caso a seguir. O Fleury é uma rede de laboratórios de exames clínicos com onze unidades na Grande São Paulo. Ali, o paciente que acorda cedo e fica em jejum até a hora do exame recebe um verdadeiro banquete antes de ir para casa. No cardápio há peito de peru, suco, leite, queijo branco. Todo mundo sorri. Isso não acaba com a dor do paciente, é claro, mas torna a experiência menos sofrida. A rede de laboratórios Fleury gastou 4 milhões de reais, só no ano passado, para aprimorar o atendimento a seus clientes. Neste ano deve gastar a mesma quantia, além de investir 100.000 dólares na melhoria de sua rede de telefonia. Há médicos especialistas que ficam de plantão para tirar dúvidas dos pacientes pelo telefone e um time de atendentes que fala fluentemente japonês, espanhol e inglês. "Ninguém pode ficar sem resposta nem esperar mais de dois minutos para ser atendido", diz Jorge Luiz de Melo, diretor de treinamento da empresa. O resultado é que, das 700.000 pessoas que fazem exames no Fleury todos os anos, mais de 90% voltam.

 
Ricardo Benichio

Amex: atendentes com nervos de aço para ouvir queixas

O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno que já ocorreu nos Estados Unidos na década de 50. O consumidor passou a ser o centro das atenções porque as empresas descobriram o óbvio: que não sobrevivem sem ele. Antes de 1994, os brasileiros não tinham escolha. Com inflação, os preços subiam diariamente e o salário era gasto no dia seguinte para não ser corroído. Pesquisa de preços simplesmente não existia e até as empresas mais incompetentes sobreviviam. Outra mudança importante foi a abertura do mercado brasileiro a produtos importados. "Com maior oferta e a economia estabilizada, as companhias brasileiras tiveram de baixar preços e mudar seu comportamento para não perder a freguesia", diz Marcos Gouvêa de Souza, consultor de São Paulo especializado em varejo. Os consultores calculam que 60% do faturamento das empresas vem de clientes fiéis. "Essa gente vale muito e hoje só preço baixo não garante a fidelidade das pessoas", diz o consultor Yves Moyen, vice-presidente e especialista em varejo da consultoria A.T. Kearney.

 
Ricardo Benichio

Música no supermercado: algumas lojas têm até estacionamento para cachorro

O grupo Pão de Açúcar, uma rede de supermercados com 350 lojas espalhadas pelo país, que engloba também as redes Extra, Barateiro e Eletro, foi o primeiro a oferecer compras via internet, há cinco anos. Como a concorrência foi atrás, o Pão de Açúcar inventou outros agrados para sua clientela. Boa parte de suas lojas tem manobrista no estacionamento. Quem leva criança encontra sala de recreação e fraldário. Algumas unidades oferecem até um "estacionamento para cachorros". E, para tornar a compra mais agradável, há música clássica ao vivo em algumas unidades no final da tarde. Há anos, como uma deferência especial a seus passageiros, a companhia aérea TAM estende um tapete vermelho na porta da aeronave, nos momentos de embarque e desembarque. Agora, promove sorteios de carros e computadores em alguns vôos. "Nosso cliente tem de ter a sensação de que seu dinheiro vale muito mais quando é gasto em nossa companhia", diz o comandante Rolim Amaro, dono da TAM.

O consumidor também mudou. Há quase uma década seus direitos são protegidos por lei, e aos poucos as pessoas estão se tornando mais exigentes. Hoje em dia, a freguesia não agüenta mais loja suja ou mal iluminada. Reclama e vai embora. Oferecer produto com data de validade vencida, por exemplo, é crime. E as pessoas, que antes ficavam caladas, agora denunciam. Nas centrais de atendimento do cartão American Express, os funcionários aprendem a falar macio e controlar a respiração. Pedir para o cliente esperar um minutinho é absolutamente proibido. Para evitar problemas, as empresas estão gastando mais com treinamento. Calcula-se que as maiores companhias do país gastaram no ano passado acima de 800 milhões de reais treinando seus funcionários. Há cinco anos, elas gastavam 300 milhões a menos. O interesse em ter gente bem preparada é tanto que gigantes da área de treinamento de pessoal como a americana Mohr já estão oferecendo seus serviços no país. Boa notícia para quem gosta de ser bem tratado.