Edição 1 635 -9/2/2000

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Órfãos da Aids

O Brasil conta o número de crianças cujas mães morreram vítimas do HIV: 30 000

Eduardo Nunomura

 
Claudio Rossi

Adilson, de 3 anos, soropositivo: pequenas chances de adoção

Ele tinha apenas 2 meses quando chegou ao Hospital Emílio Ribas, na capital paulista. Foi levado por um senhor que nem parente era, mas deu-lhe o nome de Adilson. Estava muito fraco. Sofria de desnutrição e desidratação. Hoje, aos 3 anos, Adilson é um garoto alegre e carinhoso. Nos últimos dias, anda impossível. Ninguém segura a euforia do menino em ir pela primeira vez à escola. A vivacidade de Adilson encobre uma história triste. Da mãe dele não se tem notícia. Nunca se teve, mas ela se faz presente. Ainda no útero materno, ele foi contaminado pelo vírus HIV. Sem família, mora em um abrigo para crianças abandonadas, a Tenda de Cristo, na Grande São Paulo. Adilson é um dos órfãos da Aids. Passadas quase duas décadas de doença, o Brasil enfim conta seus pequenos desamparados. Entre 1987 e 1999, 30.000 crianças de até 15 anos perderam a mãe para a síndrome, mostra um estudo do Ministério da Saúde. O cenário é ainda mais sombrio que o desvendado pelas estatísticas oficiais. O levantamento baseou-se nos registros de óbito por Aids das mulheres que tinham filhos. Ficaram de fora as crianças obrigadas a viver longe da família porque a mãe ou ambos os pais, doentes, não têm como cuidar delas.

Esse é um dos lados mais cruéis da mudança de perfil da síndrome. No início da epidemia, a doença estava restrita a homossexuais e usuários de drogas injetáveis que compartilhavam seringas infectadas. No Brasil, em 1988, quase metade dos portadores de Aids eram gays e um em cinco era usuário de drogas. Nos últimos cinco anos, as relações heterossexuais passaram a ser a principal forma de transmissão da doença. O resultado é que aumentou dramaticamente o número de mulheres atingidas. Na década de 80, havia uma mulher contaminada para cada dezessete homens na mesma situação. Agora, a proporção é de uma para dois. É nesse contexto que as crianças se transformam em vítimas potenciais da Aids. Algumas correm o risco da contaminação ainda no útero materno e todas vivem sob a ameaça de morte da mãe. Há no país cerca de 200.000 filhos de mulheres portadoras do HIV. Três em cada dez são crianças cujas mães já desenvolveram a doença. Os exemplos mais dramáticos são como os do pequeno Adilson. Não bastasse o abandono, o menino tem de conviver com o estigma de carregar o vírus. "As chances de uma criança soropositiva ser adotada são muito pequenas", diz Giuseppe Venegoni, coordenador do abrigo onde mora Adilson. Há três semanas, o Centro de Convivência Infantil Filhos de Oxum, em São Paulo, recebeu um menino de 4 anos. Depois da morte da mãe e do pai, o garotinho foi morar com o avô paterno. Sua segunda mulher, no entanto, não admitia que as filhas, meninas saudáveis, convivessem com o neto do companheiro.

"O nosso chão" – Há também crianças que não perderam a mãe ou o pai mas são consideradas órfãs da Aids. Como, atualmente, a doença se alastra sobretudo entre os mais pobres, quando um dos pais ou ambos adoecem esses meninos e meninas não têm muitas alternativas senão viver longe da família. Sem recursos, os adultos não dão conta de zelar pela própria saúde, que dirá a de seus filhos. Há seis meses, o motorista alagoano Ederaldo Fernandes de Almeida, 43 anos, e a metalúrgica paulista Luciana Aparecida Tavares, 29, entregaram Fábio Augusto, 2 anos, e Juliana, 8 meses. Ex-usuária de drogas injetáveis, a mãe descobriu que estava contaminada no momento do parto do primogênito. Dois meses depois, Almeida soube que também era portador do HIV. Desempregados e vivendo em um cortiço de São Paulo, não têm dinheiro para cuidar dos filhos. "Quando deixamos as crianças no abrigo, foi como se tivessem tirado o nosso chão", chora Luciana. Uma vez por semana o casal visita os filhos. No momento da despedida, Fábio Augusto se desespera. Aos prantos, pede para ficar com a mãe e o pai.

A grande luta de quem trabalha com os órfãos da Aids é mantê-los junto da família. "Se os pais não têm condições de ficar com os filhos, fazemos o máximo para manter as crianças com parentes", diz Nanci Alonso, presidente do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids, o Gapa, da Baixada Santista, no litoral paulista. Há histórias de sucesso. No Recife, a instituição Viva Rachid dá assistência a 100 crianças e adolescentes de até 17 anos. Todos vivem com algum parente. Por parente entenda-se, na maioria dos casos, avós – mulheres mais velhas que, de uma hora para outra, se vêem às voltas com os netos pequenos, alguns vítimas do mesmo mal que lhes tirou os filhos. Não fosse a ajuda da equipe do Viva Rachid, com materiais de higiene e limpeza, cestas básicas e assistência psicológica, a aposentada Antônia Francisca da Silva, de 74 anos, não teria conseguido. "Depois que minha filha morreu, o vazio era tão grande que quase me deixei entregar", conta. "Mas o que seria dos meus netos?" A mais velha tem 12 anos. O do meio, 10. E o caçula, 7. Só a primogênita não está infectada. Eles perderam a mãe, Jacilene, professora primária, em dezembro de 1996. Ela tinha 30 anos e fora contaminada pelo marido. O pai visita as crianças todas as semanas. Mas é a avó quem cuida de verdade dos três. Regula a hora do banho, fiscaliza a alimentação, leva para passear. Nos estudos, o cuidado é redobrado. Pela manhã, todos vão à escola e à tarde freqüentam aulas de reforço. É Antônia quem tenta aplacar o peso do preconceito. Certa vez, um dos meninos chegou em casa chorando. A vizinha proibira o filho de brincar com o garoto porque ele tem "a doença". "Tentei consolar meu neto. Por mais que eu explicasse, ele não entendia e ainda chorou muito", lembra. "Querem assustar minhas crianças, mas eu não vou deixar, não", diz ela.

 
E. Queiroga / Lumiar
Claudio Rossi

A avó Antônia: "O que seria das minhas crianças?"

Almeida e Luciana: sofrendo longe dos filhos

Infância menos sofrida – Se a situação é dramática no Brasil, na África ganhou proporções de horror. Desde o início da epidemia, nos anos 80, a Aids já fez 10,4 milhões de órfãos no continente africano. Uganda registra o índice mais alto do mundo: 1,1 milhão de crianças com menos de 15 anos. Na cidade de Masaka, 110 000 dos 342 000 meninos e meninas perderam um dos pais ou os dois para a doença. Em Lusaka, capital da Zâmbia, por causa do abandono imposto pela epidemia, o número de crianças de rua saltou de 35.000 para 90.000 em oito anos. Lá, 75% das famílias cuidam de pelo menos um órfão. As terapias mais modernas de controle da síndrome são inacessíveis para grande parte dessas populações. No Brasil, a realidade é um pouco melhor. O coquetel de remédios anti-Aids é distribuído gratuitamente. Em cinco anos, graças à eficácia das drogas, o número de óbitos foi reduzido à metade. Os doentes não apenas vivem mais. Tomados os devidos cuidados, vivem bem. "Com isso, o número de órfãos tende a cair", afirma Pedro Chequer, coordenador do programa de Aids do Ministério da Saúde. Até lá, tem-se um longo caminho pela frente. Apesar de todos os avanços na terapia contra a Aids, apenas 40% das grávidas portadoras do HIV recebem tratamento no Brasil. As restantes só se descobrem contaminadas quando chegam ao hospital para dar à luz. O desespero com a notícia é tão grande que algumas abandonam os filhos na maternidade.

Foi o que aconteceu com Bruno, três anos atrás. Por mais de um ano ele ficou internado no hospital onde nasceu, em Porto Alegre. Transferido para a Febem, aquele menino de aparência frágil, arredio a qualquer contato, conquistou a funcionária Maria Luiza Montenegro, 29 anos. Ela levou Bruno para passar um dia em companhia de sua família. Depois outro e mais outro. Quando viram estavam todos apegados ao garoto. Em dezembro, Sônia, de 52 anos, mãe de Maria Luiza, decidiu adotar Bruno. A juíza responsável pelo processo, conta Sônia, quis saber por que ela pretendia ter como filho um menino negro, velho (3 anos são considerados idade avançada para adoção) e, além de tudo, soropositivo. "Pelas alegrias que ele nos traz", respondeu. Segundo Sônia, a juíza parece não ter entendido do que ela estava falando. "Não podemos fazer nenhum plano para Bruno a longo prazo", diz a mãe adotiva. "Mas ele sabe que poderá contar com a nossa ajuda sempre que precisar." São pessoas como Sônia que proporcionam aos órfãos da Aids uma infância menos sofrida.

 

Com reportagem de Angélica Tasso, do Recife,
e Rodrigo Vieira da Cunha, de Porto Alegre

 

O pagamento de uma promessa

 

Ricardo Benichio

Ana Paula, no colo de Maria Regina (primeira, da esq. para a dir.): família nova

A mãe de Ana Paula está internada em um hospital da cidade de Santos, no litoral paulista. É uma doente terminal de Aids. O pai se recusa a reconhecer a menina como filha. Aos 4 meses, Ana Paula tinha tudo para ser mais uma órfã da síndrome. Não é. A pequena acaba de ganhar uma família. Foi parar nos braços da dona de casa Maria Regina das Neves por ironia do destino. Em 1998, Maria Regina recebeu a notícia de que a filha Lucimara, então com 27 anos, estava grávida do segundo filho. No terceiro mês de gestação, no primeiro exame pré-natal, o choque: Lucimara estava contaminada pelo HIV. A moça vivia um casamento estável de nove anos e nunca nem ela nem o marido receberam transfusão de sangue ou usaram drogas injetáveis. "Não é possível", reagiu Lucimara. "Não sou nem nunca fui do grupo de risco." O marido, Moacir, de 32 anos, também não se conformava. Os médicos e assistentes sociais do hospital da prefeitura de Santos tanto insistiram que convenceram o casal. "Fiquei transtornada", lembra. "Pensei em abortar e quis morrer. Parei de comer para ver se o bebê e eu morríamos de fome." Convenceram o casal Lucimara e Moacir, mas não a mãe dela, Maria Regina. "Eu tinha tanta certeza de que minha filha não estava doente que fiz uma promessa: quando a verdade acabasse descoberta, eu iria adotar alguém que realmente fosse vítima da Aids." A escolhida foi Ana Paula.

Depois de tomar mais de 5 000 comprimidos de AZT num período de dez meses, de ser impedida de amamentar o filho Leonardo, de viver uma crise conjugal motivada pela desconfiança do marido, Lucimara soube que o vírus da Aids jamais circulou por seu organismo. Descobriu que fora vítima de uma cadeia de erros. Qualquer médico com o mínimo de conhecimento em infectologia sabe que, quando um exame de Aids dá positivo, refaz-se o teste. Isso porque a possibilidade de um resultado ser falso positivo é pequena, mas existe. Os doutores da Policlínica Vila São Jorge, entretanto, não viram necessidade de Lucimara repetir o exame. Encaminharam-na diretamente para o Centro de Referência em Aids de Santos. Lá, diante da perplexidade dela, as assistentes sociais argumentavam que possivelmente ela havia sido contaminada pelo marido. "Ele é muito magrinho", diziam. O problema é que Moacir sempre foi do tipo mirrado. Assustado, ele se submeteu a um exame: negativo para Aids. Tiraram então uma segunda amostra do sangue de Lucimara. No prazo determinado, ela foi em busca do resultado. Informaram-na, entretanto, que o exame havia "desaparecido".

Enquanto os responsáveis pela clínica "procuravam" o documento, Lucimara continuou a se medicar com drogas anti-Aids. Leonardo nasceu e, apesar da fartura de leite materno, o bebê não foi amamentado. Com 6 horas de vida, o recém-nascido tomou as primeiras doses de AZT. Seguiram-se três meses de tormento. Quando a análise do sangue de Leonardo indicou também negativo, Lucimara decidiu refazer o teste – dessa vez, em um dos mais bem equipados laboratórios de São Paulo. Negativo. O casal entrou na Justiça contra a prefeitura de Santos. Reclama 4 milhões de reais de indenização. E a avó Maria Regina cumpriu a promessa. Aos 50 anos, ganhou uma filha: a pequena Ana Paula.

Alice Granato