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Órfãos da Aids
O Brasil conta o número de crianças
cujas mães morreram vítimas do HIV: 30 000
Eduardo Nunomura
Claudio Rossi
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Adilson, de 3 anos, soropositivo: pequenas chances
de adoção
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Ele tinha apenas 2 meses quando chegou ao Hospital Emílio
Ribas, na capital paulista. Foi levado por um senhor que
nem parente era, mas deu-lhe o nome de Adilson. Estava muito
fraco. Sofria de desnutrição e desidratação.
Hoje, aos 3 anos, Adilson é um garoto alegre e carinhoso.
Nos últimos dias, anda impossível. Ninguém
segura a euforia do menino em ir pela primeira vez à
escola. A vivacidade de Adilson encobre uma história
triste. Da mãe dele não se tem notícia.
Nunca se teve, mas ela se faz presente. Ainda no útero
materno, ele foi contaminado pelo vírus HIV. Sem
família, mora em um abrigo para crianças abandonadas,
a Tenda de Cristo, na Grande São Paulo. Adilson é
um dos órfãos da Aids. Passadas quase duas
décadas de doença, o Brasil enfim conta seus
pequenos desamparados. Entre 1987 e 1999, 30.000
crianças de até 15 anos perderam a mãe
para a síndrome, mostra um estudo do Ministério
da Saúde. O cenário é ainda mais sombrio
que o desvendado pelas estatísticas oficiais. O levantamento
baseou-se nos registros de óbito por Aids das mulheres
que tinham filhos. Ficaram de fora as crianças obrigadas
a viver longe da família porque a mãe ou ambos
os pais, doentes, não têm como cuidar delas.
Esse
é um dos lados mais cruéis da mudança
de perfil da síndrome. No início da epidemia,
a doença estava restrita a homossexuais e usuários
de drogas injetáveis que compartilhavam seringas
infectadas. No Brasil, em 1988, quase metade dos portadores
de Aids eram gays e um em cinco era usuário de drogas.
Nos últimos cinco anos, as relações
heterossexuais passaram a ser a principal forma de transmissão
da doença. O resultado é que aumentou dramaticamente
o número de mulheres atingidas. Na década
de 80, havia uma mulher contaminada para cada dezessete
homens na mesma situação. Agora, a proporção
é de uma para dois. É nesse contexto que as
crianças se transformam em vítimas potenciais
da Aids. Algumas correm o risco da contaminação
ainda no útero materno e todas vivem sob a ameaça
de morte da mãe. Há no país cerca de
200.000 filhos de mulheres portadoras
do HIV. Três em cada dez são crianças
cujas mães já desenvolveram a doença.
Os exemplos mais dramáticos são como os do
pequeno Adilson. Não bastasse o abandono, o menino
tem de conviver com o estigma de carregar o vírus.
"As chances de uma criança soropositiva ser adotada
são muito pequenas", diz Giuseppe Venegoni, coordenador
do abrigo onde mora Adilson. Há três semanas,
o Centro de Convivência Infantil Filhos de Oxum, em
São Paulo, recebeu um menino de 4 anos. Depois da
morte da mãe e do pai, o garotinho foi morar com
o avô paterno. Sua segunda mulher, no entanto, não
admitia que as filhas, meninas saudáveis, convivessem
com o neto do companheiro.
"O nosso chão" Há também
crianças que não perderam a mãe ou
o pai mas são consideradas órfãs da
Aids. Como, atualmente, a doença se alastra sobretudo
entre os mais pobres, quando um dos pais ou ambos adoecem
esses meninos e meninas não têm muitas alternativas
senão viver longe da família. Sem recursos,
os adultos não dão conta de zelar pela própria
saúde, que dirá a de seus filhos. Há
seis meses, o motorista alagoano Ederaldo Fernandes de Almeida,
43 anos, e a metalúrgica paulista Luciana Aparecida
Tavares, 29, entregaram Fábio Augusto, 2 anos, e
Juliana, 8 meses. Ex-usuária de drogas injetáveis,
a mãe descobriu que estava contaminada no momento
do parto do primogênito. Dois meses depois, Almeida
soube que também era portador do HIV. Desempregados
e vivendo em um cortiço de São Paulo, não
têm dinheiro para cuidar dos filhos. "Quando deixamos
as crianças no abrigo, foi como se tivessem tirado
o nosso chão", chora Luciana. Uma vez por semana
o casal visita os filhos. No momento da despedida, Fábio
Augusto se desespera. Aos prantos, pede para ficar com a
mãe e o pai.
A grande luta de quem trabalha com os órfãos
da Aids é mantê-los junto da família.
"Se os pais não têm condições
de ficar com os filhos, fazemos o máximo para manter
as crianças com parentes", diz Nanci Alonso, presidente
do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids,
o Gapa, da Baixada Santista, no litoral paulista. Há
histórias de sucesso. No Recife, a instituição
Viva Rachid dá assistência a 100 crianças
e adolescentes de até 17 anos. Todos vivem com algum
parente. Por parente entenda-se, na maioria dos casos, avós
mulheres mais velhas que, de uma hora para outra,
se vêem às voltas com os netos pequenos, alguns
vítimas do mesmo mal que lhes tirou os filhos. Não
fosse a ajuda da equipe do Viva Rachid, com materiais de
higiene e limpeza, cestas básicas e assistência
psicológica, a aposentada Antônia Francisca
da Silva, de 74 anos, não teria conseguido. "Depois
que minha filha morreu, o vazio era tão grande que
quase me deixei entregar", conta. "Mas o que seria dos meus
netos?" A mais velha tem 12 anos. O do meio, 10. E o caçula,
7. Só a primogênita não está
infectada. Eles perderam a mãe, Jacilene, professora
primária, em dezembro de 1996. Ela tinha 30 anos
e fora contaminada pelo marido. O pai visita as crianças
todas as semanas. Mas é a avó quem cuida de
verdade dos três. Regula a hora do banho, fiscaliza
a alimentação, leva para passear. Nos estudos,
o cuidado é redobrado. Pela manhã, todos vão
à escola e à tarde freqüentam aulas de
reforço. É Antônia quem tenta aplacar
o peso do preconceito. Certa vez, um dos meninos chegou
em casa chorando. A vizinha proibira o filho de brincar
com o garoto porque ele tem "a doença". "Tentei consolar
meu neto. Por mais que eu explicasse, ele não entendia
e ainda chorou muito", lembra. "Querem assustar minhas crianças,
mas eu não vou deixar, não", diz ela.
E. Queiroga / Lumiar
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Claudio
Rossi
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A avó Antônia: "O que seria das minhas
crianças?"
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Almeida e Luciana: sofrendo
longe dos filhos |
Infância menos sofrida Se a situação
é dramática no Brasil, na África ganhou
proporções de horror. Desde o início
da epidemia, nos anos 80, a Aids já fez 10,4 milhões
de órfãos no continente africano. Uganda registra
o índice mais alto do mundo: 1,1 milhão de
crianças com menos de 15 anos. Na cidade de Masaka,
110 000 dos 342 000 meninos e meninas perderam um dos pais
ou os dois para a doença. Em Lusaka, capital da Zâmbia,
por causa do abandono imposto pela epidemia, o número
de crianças de rua saltou de 35.000
para 90.000 em oito anos. Lá,
75% das famílias cuidam de pelo menos um órfão.
As terapias mais modernas de controle da síndrome
são inacessíveis para grande parte dessas
populações. No Brasil, a realidade é
um pouco melhor. O coquetel de remédios anti-Aids
é distribuído gratuitamente. Em cinco anos,
graças à eficácia das drogas, o número
de óbitos foi reduzido à metade. Os doentes
não apenas vivem mais. Tomados os devidos cuidados,
vivem bem. "Com isso, o número de órfãos
tende a cair", afirma Pedro Chequer, coordenador do programa
de Aids do Ministério da Saúde. Até
lá, tem-se um longo caminho pela frente. Apesar de
todos os avanços na terapia contra a Aids, apenas
40% das grávidas portadoras do HIV recebem tratamento
no Brasil. As restantes só se descobrem contaminadas
quando chegam ao hospital para dar à luz. O desespero
com a notícia é tão grande que algumas
abandonam os filhos na maternidade.
Foi o que aconteceu com Bruno, três anos atrás.
Por mais de um ano ele ficou internado no hospital onde
nasceu, em Porto Alegre. Transferido para a Febem, aquele
menino de aparência frágil, arredio a qualquer
contato, conquistou a funcionária Maria Luiza Montenegro,
29 anos. Ela levou Bruno para passar um dia em companhia
de sua família. Depois outro e mais outro. Quando
viram estavam todos apegados ao garoto. Em dezembro, Sônia,
de 52 anos, mãe de Maria Luiza, decidiu adotar Bruno.
A juíza responsável pelo processo, conta Sônia,
quis saber por que ela pretendia ter como filho um menino
negro, velho (3 anos são considerados idade avançada
para adoção) e, além de tudo, soropositivo.
"Pelas alegrias que ele nos traz", respondeu. Segundo Sônia,
a juíza parece não ter entendido do que ela
estava falando. "Não podemos fazer nenhum plano para
Bruno a longo prazo", diz a mãe adotiva. "Mas ele
sabe que poderá contar com a nossa ajuda sempre que
precisar." São pessoas como Sônia que proporcionam
aos órfãos da Aids uma infância menos
sofrida.
Com reportagem de
Angélica Tasso, do Recife,
e Rodrigo Vieira da Cunha, de Porto Alegre
O pagamento de uma promessa
Ricardo Benichio
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Ana Paula, no colo de Maria
Regina (primeira, da esq. para a
dir.): família nova
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A mãe de Ana Paula está internada em
um hospital da cidade de Santos, no litoral paulista.
É uma doente terminal de Aids. O pai se recusa
a reconhecer a menina como filha. Aos 4 meses, Ana
Paula tinha tudo para ser mais uma órfã
da síndrome. Não é. A pequena
acaba de ganhar uma família. Foi parar nos
braços da dona de casa Maria Regina das Neves
por ironia do destino. Em 1998, Maria Regina recebeu
a notícia de que a filha Lucimara, então
com 27 anos, estava grávida do segundo filho.
No terceiro mês de gestação, no
primeiro exame pré-natal, o choque: Lucimara
estava contaminada pelo HIV. A moça vivia um
casamento estável de nove anos e nunca nem
ela nem o marido receberam transfusão de sangue
ou usaram drogas injetáveis. "Não é
possível", reagiu Lucimara. "Não sou
nem nunca fui do grupo de risco." O marido, Moacir,
de 32 anos, também não se conformava.
Os médicos e assistentes sociais do hospital
da prefeitura de Santos tanto insistiram que convenceram
o casal. "Fiquei transtornada", lembra. "Pensei em
abortar e quis morrer. Parei de comer para ver se
o bebê e eu morríamos de fome." Convenceram
o casal Lucimara e Moacir, mas não a mãe
dela, Maria Regina. "Eu tinha tanta certeza de que
minha filha não estava doente que fiz uma promessa:
quando a verdade acabasse descoberta, eu iria adotar
alguém que realmente fosse vítima da
Aids." A escolhida foi Ana Paula.
Depois de tomar mais de 5 000 comprimidos de AZT
num período de dez meses, de ser impedida de
amamentar o filho Leonardo, de viver uma crise conjugal
motivada pela desconfiança do marido, Lucimara
soube que o vírus da Aids jamais circulou por
seu organismo. Descobriu que fora vítima de
uma cadeia de erros. Qualquer médico com o
mínimo de conhecimento em infectologia sabe
que, quando um exame de Aids dá positivo, refaz-se
o teste. Isso porque a possibilidade de um resultado
ser falso positivo é pequena, mas existe. Os
doutores da Policlínica Vila São Jorge,
entretanto, não viram necessidade de Lucimara
repetir o exame. Encaminharam-na diretamente para
o Centro de Referência em Aids de Santos. Lá,
diante da perplexidade dela, as assistentes sociais
argumentavam que possivelmente ela havia sido contaminada
pelo marido. "Ele é muito magrinho", diziam.
O problema é que Moacir sempre foi do tipo
mirrado. Assustado, ele se submeteu a um exame: negativo
para Aids. Tiraram então uma segunda amostra
do sangue de Lucimara. No prazo determinado, ela foi
em busca do resultado. Informaram-na, entretanto,
que o exame havia "desaparecido".
Enquanto os responsáveis pela clínica
"procuravam" o documento, Lucimara continuou a se
medicar com drogas anti-Aids. Leonardo nasceu e, apesar
da fartura de leite materno, o bebê não
foi amamentado. Com 6 horas de vida, o recém-nascido
tomou as primeiras doses de AZT. Seguiram-se três
meses de tormento. Quando a análise do sangue
de Leonardo indicou também negativo, Lucimara
decidiu refazer o teste dessa vez, em um dos
mais bem equipados laboratórios de São
Paulo. Negativo. O casal entrou na Justiça
contra a prefeitura de Santos. Reclama 4 milhões
de reais de indenização. E a avó
Maria Regina cumpriu a promessa. Aos 50 anos, ganhou
uma filha: a pequena Ana Paula.
Alice Granato
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