Edição 1 635 - 9/2/2000

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Remédios

O escândalo é muito maior

O aumento nos preços dos remédios
é apenas um dos muitos abusos numa
área que ninguém controla no Brasil

Alexandre Secco e Alexandre Mansur

Ana Araújo
Walterci de Melo: o homem dos genéricos ludibriava donas de casa


Nos últimos tempos, Brasília parece mais preocupada com quem bebe cerveja do que com quem toma remédio. Na semana passada, a burocracia federal ergueu mais um obstáculo contra a AmBev, a empresa resultante da fusão da Brahma com a Antarctica. Nesse caso, o governo está preocupado com o preço que a cerveja poderá atingir no futuro. Teme-se que, operando juntas, as duas cervejarias criem um monopólio e cometam abusos de preços. Enquanto o governo mobilizava seus técnicos para cuidar do assunto, no Congresso Nacional os deputados precisaram montar uma CPI para saber se, nos últimos anos, os medicamentos tiveram aumentos abusivos ou não. Só com os relatórios do governo era impossível ter essa informação de forma segura. Um estudo do Ministério da Saúde, divulgado no final de janeiro, sustentava que os aumentos depois do Plano Real tinham sido de 165% acima da inflação. Esse estudo foi desmentido por outro, do Ministério da Fazenda, segundo o qual o acréscimo médio foi de 17% acima do índice inflacionário. Cada ministério usou períodos e listagens diferentes de remédio para chegar a conclusões tão opostas.

Coube à CPI tentar decifrar o que realmente houve com o preço dos remédios. Descobriu-se que a metade dos itens da lista de medicamentos essenciais mais vendidos no país aumentou acima da inflação medida no Real. Em muitos casos houve acréscimo de até 100%. Até agora ninguém conseguiu justificá-los. Curiosamente, a CPI descobriu que inúmeras matérias-primas tiveram, no mesmo período, o preço reduzido pela metade. Constatado o aumento abusivo de preços, a CPI enviou o caso à Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, o mesmo órgão governamental que na semana passada estava bastante empenhado em descobrir quanto a cerveja vai custar no futuro. Finalmente, 47 laboratórios vão ser convidados a apresentar suas planilhas de custos para esclarecer por que os remédios subiram mais que a inflação.

Concorra a viagens

A Estátua da Liberdade e uma deslumbrante paisagem tropical são alguns dos argumentos usados pela indústria farmacêutica para convencer os médicos a receitar seus produtos. Distribuídos pelos laboratórios Merck S.A. e SmithKline Beecham, os folhetos ao lado oferecem viagens para o médico que preencher o cupom fornecido pelos representantes comerciais. Um dos concursos teve o apoio da Sociedade de Pediatria de São Paulo


Controle pífio – O bate-cabeça do governo na questão dos preços é apenas uma faceta de um problema muito maior. Quem controla o mercado de remédios no Brasil? Pela confusão estabelecida até a semana passada, suspeita-se que ninguém. A falta de controle é responsável por uma quantidade assustadora de abusos. Os remédios falsificados já ocupam 20% do mercado brasileiro. A CPI levantou suspeitas de evasão fiscal e remessa ilegal de lucros pelos laboratórios. O controle de qualidade de remédios por parte do governo é pífio. Anualmente são feitos só 1% dos testes necessários para averiguar a qualidade dos 10.000 medicamentos vendidos no país. De acordo com padrões internacionais, cada tipo de remédio deveria passar por duas análises ao ano.

Na última quinta-feira, causou indignação a declaração do presidente da Associação Brasileira de Redes de Farmácias, Aparecido Bueno Camargo. Segundo ele, no jargão das farmácias, alguns remédios são classificados como B.O., ou "bons para otário". Esses medicamentos, inócuos, são empurrados pelos balconistas a consumidores que não tiveram acesso a orientação médica. "No Brasil, a indústria farmacêutica está fazendo uma festa e mandando a fatura para o consumidor", diz o deputado Arlindo Chinaglia, do PT de São Paulo, membro da CPI.

A indústria farmacêutica é uma das mais poderosas e rentáveis do planeta. Embora lucrativo, o negócio de produzir remédios é arriscado. A cada 10.000 substâncias pesquisadas, apenas uma chegará às prateleiras das farmácias em forma de remédio. Além disso, com o custo crescente das pesquisas, os medicamentos estão ficando mais sofisticados e cada vez mais caros. A lucratividade alta tem uma forte justificativa, pois precisa ser estimulante o bastante para incentivar o investimento em pesquisa, algo em torno de 60 bilhões de dólares ao ano no mundo todo.

Há também outra característica que torna essa indústria diferente das demais. Geralmente, quem escolhe o remédio não é o consumidor final, mas seu médico. É, portanto, um campo em que a lei da oferta e da procura nem sempre funciona. Se uma marca de cerveja fica mais cara ou se o consumidor acha que a qualidade piorou, ele pode escolher outra. No caso do remédio, só vale o que o médico mandar comprar. É por isso que os governos estão compreendendo que as leis de mercado sozinhas não bastam para regular o funcionamento do negócio. É um grande desafio: como proteger o consumidor, que necessita do medicamento para viver, e o acionista do laboratório, que precisa ter lucro para fazer novas pesquisas e descobrir novidades contra doenças como a Aids e o câncer. No mundo inteiro, governos tentam encontrar esse equilíbrio por meio de controles cada vez mais rigorosos sobre a indústria farmacêutica.

Empurre o remédio

A propaganda nas farmácias é agressiva. Há dois anos, o laboratório Sintofarma distribuiu folhetos prometendo premiar os balconistas que indicassem o remédio Deltacid aos clientes com sintomas de sarna. Detalhe: pela lei, só o farmacêutico pode recomendar algum produto ao cliente. Além disso, esse tipo de promoção induz ao consumo desnecessário de remédios, alerta o Conselho Federal de Farmácia

Mais baratos – Nos Estados Unidos, o governo produziu uma eficiente legislação de medicamentos genéricos. Esses remédios possuem a mesma fórmula química de marcas conhecidas, cuja patente original já se expirou. É o caso da dipirona, um antitérmico, que o laboratório Hoechst fabrica com o nome de Novalgina. O remédio genérico é a dipirona, a mesma coisa da Novalgina, só que sem a marca. Outro exemplo é o antibiótico Keflex, marca usada pela Eli Lilly para vender o antibiótico cefalexina. Os genéricos chegam às farmácias por um preço mais em conta porque os laboratórios que os fabricam não precisam gastar em propaganda nem tiveram de investir em pesquisa para inventar a fórmula original. Desde 1994, quando a lei entrou em vigor, o preço dos remédios sem marca baixou 40% nos Estados Unidos. No Canadá e na Europa, além de incentivar a produção de genéricos mais baratos, os governos exercem controle de preços. Na Alemanha o governo obriga a vender até analgésico com receita médica.

Enquanto o mundo inteiro avançou na regulamentação do setor, o Brasil patinou. A lei dos genéricos e a criação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária estão sendo discutidas desde a era Collor. A agência só começa a entrar em operação agora. Na semana passada foi liberada a primeira leva de medicamentos genéricos aprovados no país. Chegarão ao mercado com preços entre 30% e 55% abaixo dos remédios de marca conhecida. Há fortes suspeitas, no entanto, em relação à idoneidade de alguns laboratórios que vão produzi-los. Metade dos seis primeiros genéricos a entrar no mercado são do laboratório Teuto Brasileiro de Goiás. Seu dono, o empresário Walterci de Melo, fez fortuna na indústria de remédios e tem uma história curiosa.

Em uma entrevista à revista Exame, publicada em novembro do ano passado, Walterci de Melo contou os artifícios que usava para enganar donas de casa quando era vendedor de aparelhos de TV. Na época, havia no mercado uma tela tricromática para televisores em preto-e-branco. Era conhecida como "TV colorida de pobre". Para vender a tal televisão, Melo mostrava à dona de casa um texto atribuído ao Ministério da Saúde no qual se dizia que os aparelhos de TV emitiam muita radiação e faziam mal à saúde dos telespectadores. "Sem que ela (a dona de casa) se desse conta, eu aumentava o brilho (do aparelho)", diz Melo. Quando a tela tricromática era sobreposta ao monitor do televisor, a luminosidade diminuía, indicando assim que os raios eram absorvidos e que a saúde do espectador ficaria preservada. Evidentemente, era tudo uma lorota, mas foi assim que Melo estreou no mundo dos negócios. Depois passou a fabricar medicamentos e hoje é uma das esperanças do Ministério da Saúde para moralizar o setor.

Ganhe uma televisão

Eugênio Sávio


A médica mineira Lia de Trujillo foi uma das pessoas que venceram a promoção do Prazol, um remédio para úlcera do laboratório Medley. Ela ganhou uma televisão por ter cunhado uma frase de efeito (no detalhe, em branco) com o nome do produto. "É bobagem imaginar que ganhar um brinde exerça alguma influência na decisão médica de receitar este ou aquele medicamento", diz

A CPI também chamou a atenção para outro aspecto do problema dos medicamentos. São as técnicas de marketing empregadas pelos laboratórios para convencer os quase 300.000 médicos brasileiros a receitar seus remédios. Elas estão entre as mais agressivas praticadas no mundo. Um em cada cinco empregados na indústria farmacêutica no Brasil é representante comercial, encarregado de assediar os médicos com ofertas de brindes, sorteios de viagens e de eletrodomésticos. Um desses fabricantes, o Merck S.A., patrocina a viagem de 23 médicos por ano a congressos no Brasil e no exterior. Em outro laboratório, o Merck Sharp & Dohme, os próprios representantes comerciais indicam os médicos que podem ganhar as viagens para os congressos. "São eles que sabem qual médico está ligado a determinada especialidade e viria a se beneficiar das palestras de cada congresso", explica Marcos Levy, diretor de assuntos corporativos da empresa.

Jogo de sedução – Muitas vezes, as próprias associações profissionais se envolvem nesse jogo de sedução entre laboratórios e médicos. Em 1997, a Sociedade de Pediatria de São Paulo pediu ao laboratório SmithKline Beecham que bancasse a viagem de um médico a um congresso em Sydney, na Austrália. A escolha foi feita por sorteio, realizado na sede da própria entidade. "Estamos oferecendo ao médico a chance de ele se atualizar profissionalmente", diz Fernando Coimbra, diretor médico da SmithKline. "Em troca, o laboratório ganha o reconhecimento do seu nome." O assunto é delicado. "Não existe corrupção direta de médicos, mas eles podem ser induzidos a acreditar que o remédio mais anunciado é melhor do que outro", diz Valmir de Santi, pesquisador da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

No Canadá, os médicos não podem aceitar nenhum tipo de presente dos laboratórios, nem mesmo uma caneta. Nos Estados Unidos, o código de ética orienta os médicos a só aceitar presentes ligados à prática profissional, como um estetoscópio. Lá, a maior arma dos representantes comerciais que assediam os médicos são os livros e os folhetos explicativos a respeito dos remédios que estão vendendo. No Brasil, vale tudo – de sorteios de televisão a viagens para o Caribe. As relações perigosas entre médicos e representantes comerciais de laboratórios mostram que a questão dos preços abusivos é apenas a ponta de um novelo muito enrolado na indústria de medicamentos. E que talvez tenha chegado a hora de se preocupar mais com assuntos dessa natureza do que com os bebedores de cerveja.

Com reportagem de Gisela Sekeff