Suor, pão e vinho
Para o cardiologista das celebridades,
a receita da longevidade é andar, comer com equilíbrio
e beber duas taças diárias
Carlos Maranhão
Antonio Milena
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| "O médico tem de ser, antes de mais
nada, um leitor das almas antes de receitar um remédio" |
O médico paulista Bernardino Tranchesi Júnior
é, aos 44 anos, uma espécie de Ivo Pitanguy
da cardiologia. Graças à clientela estrelada
que conquistou nos últimos anos, transformou-se numa
grife em sua especialidade. Entre as 10.000
fichas que guarda em arquivos de aço enfileirados
no consultório, sabe-se que há nomes como
os do falecido ministro Sergio Motta, do banqueiro Aloysio
Faria, do empresário Rolim Amaro, do governador cearense
Tasso Jereissati, do ator Tarcísio Meira e da cantora
Gal Costa. Na semana passada, ele deu alta a um de seus
mais fiéis pacientes: o presidente do Senado, Antonio
Carlos Magalhães, a quem tratou de uma pneumonia
durante doze dias. Ser examinado por Tranchesi, que não
trabalha com planos de saúde, é um privilégio
caro. A consulta custa 350 reais. Além de pagar,
muitos clientes lhe dão presentes. Já ganhou
deles dezenas de canetas-tinteiro Montblanc, uma de suas
manias, caixas e mais caixas de charutos cubanos, que fuma
eventualmente, garrafas de vinhos fabulosos e quatro automóveis,
entre os quais um BMW. Vaidoso assumido, é dono de
um guarda-roupa com cerca de sessenta ternos e 100 camisas.
Também recebeu quase tudo de graça. No caso,
da empresária de moda Eliana Tranchesi, mãe
de seus três filhos e de quem se separou há
sete meses.
Veja O senhor se formou na Faculdade de Medicina
de Santo Amaro, uma instituição que não
tem o renome das grandes escolas médicas do Brasil.
Como conseguiu tornar-se um médico de tanto prestígio?
Tranchesi Minha faculdade era pequena, mas vários
professores da Universidade de São Paulo lecionavam
lá. Recebi uma formação teórica
muito boa e sanei as deficiências da parte prática
ao fazer residência, durante três anos, no Hospital
das Clínicas e no Instituto do Coração,
Incor. É durante a residência que o formando
realmente aprende a ser médico. O Incor acabou me
contratando. Ao mesmo tempo, abri consultório e decidi
que jamais trabalharia para convênios ou como empregado.
Queria ter meus próprios clientes e estabelecer com
eles uma relação duradoura. O consultório
ficou às moscas no primeiro ano. Eu aproveitava o
tempo para ler. Aí apareceu um cliente, depois outro
e assim foi, em progressão contínua. O boca-a-boca
é que faz o prestígio de um médico.
Em compensação, se ele erra, o mesmo boca-a-boca
pode destruir sua reputação.
Veja O senhor não atende pobre?
Tranchesi Atendi muito, no Hospital das Clínicas.
Hoje trabalho exclusivamente com clientes particulares,
que absorvem todo o meu tempo. Mas jamais deixei de tratar
as pessoas que me foram encaminhadas ou casos de emergência.
Veja Que qualidades um médico precisa
ter para tornar-se uma sumidade em seu ofício?
Tranchesi Para o cirurgião, a qualidade
fundamental é a técnica. Já um clínico
tem de ser, antes de mais nada, um leitor de almas. Ele
só vira um grande médico quando compreende
que uma doença nunca é igual para duas pessoas.
Suas causas e conseqüências dependem em grande
parte do perfil psicológico do paciente, do meio
em que ele vive, de sua situação econômica,
social e afetiva. O médico precisa conhecer a alma
humana até para receitar remédios.
Veja Mas para cada doença não
existe um remédio específico?
Tranchesi Nem sempre. Os efeitos colaterais variam
e o que funciona para um pode não funcionar para
outro. É muito diferente tratar o problema cardíaco
de uma dona de casa disciplinada, capaz de submeter-se a
uma mudança radical de hábitos de vida, e
de um homem com poder nas mãos, impaciente, acostumado
a ser obedecido e que espera resultados imediatos em tudo,
inclusive em relação à sua saúde.
Veja O senhor está falando de Antonio
Carlos Magalhães?
Tranchesi Não apenas dele. As pessoas
poderosas, sejam políticos, empresários ou
mesmo artistas, têm uma característica de personalidade
semelhante: trabalham com um propósito claro na vida
e vão atrás dele obstinadamente. São
indivíduos que não perdem tempo com detalhes.
Olham para a frente, mirando no essencial. Encaram a doença
como um obstáculo aos objetivos que perseguem e querem
soluções rápidas, pois estão
habituados a impor sua vontade.
Veja Como curar alguém assim?
Tranchesi O médico deve entender as peculiaridades
desse paciente e convencê-lo a usar sua principal
característica a determinação
a favor do tratamento. O problema de muitos políticos
é tentar esconder a doença, pois acham que
ela prejudica sua carreira. Foi o que ocorreu, em 1980,
com o então ministro da Justiça Petrônio
Portella, que tentou ocultar um infarto e acabou morrendo.
Ou com Tancredo Neves, que imaginou ser possível
esperar a posse como presidente da República para
se tratar do tumor que lhe tirou a vida. Tudo indica que
essa mentalidade está mudando. Recentemente, o governador
Mário Covas mostrou muita coragem pessoal ao assumir
que tinha câncer.
Veja Qual é o pior tipo de paciente?
Tranchesi Os próprios médicos.
São desconfiadíssimos. Mais do que ninguém,
o médico sabe que qualquer doença, em tese,
pode evoluir mal. Ele conhece as estatísticas de
sua moléstia. Se o índice de cura é
de 98%, raciocina de forma inversa e passa a considerar
que há um risco de 2%. Depois de se consultar com
um colega, pede palpite para outros no corredor do hospital
e muda o remédio por conta própria. Médico
dá um trabalho...
Veja O senhor chefiou, durante vários
anos, a unidade coronariana do Incor, em São Paulo.
Quais foram as circunstâncias de sua saída?
Tranchesi Quem tem clientes famosos pode ficar
exposto além da conta. Como em qualquer campo de
atividade, na medicina também existe ciumeira.
Veja Essa ciumeira a que o senhor se refere
teria sido provocada pelo fato de que em 1995 o então
ministro das Comunicações Sergio Motta, que
era seu cliente, foi operado do coração no
Hospital Albert Einstein e não no Incor?
Tranchesi O ministro Motta passou a ser meu cliente
quando sofreu um infarto enquanto era examinado no Einstein
de um problema de varizes. Recebi um chamado de emergência
para atendê-lo e vi que o caso era cirúrgico.
Seria um absurdo determinar sua remoção. Ele
queria ser operado pelo doutor Sérgio Oliveira e
pediu minha opinião. Respondi que era um cirurgião
da maior competência. Falava-se que a indicação
deveria recair sobre o doutor Adib Jatene, então
ministro da Saúde, um cirurgião de indiscutível
capacidade, mas quem fez a escolha foi o ministro Motta.
Creio que isso provocou um mal-estar que precipitou minha
saída do Incor. Eu era a bola da vez.
Veja Por quê?
Tranchesi O Incor pertence à Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo. Lá,
como em muitas faculdades, existe uma espécie de
ditadura dos professores titulares. Eles são muito
fortes, têm um renome estabelecido e não gostam
de ser superados por subalternos que estão subindo
rapidamente na carreira.
Veja Na ocasião, os titulares das cadeiras
de cardiologia e de cirurgia cardíaca eram os professores
doutores Fúlvio Pileggi, que dirigia o Incor, e Adib
Jatene. Foram eles que demitiram o senhor?
Tranchesi Depois de um longo processo de desgaste,
fui chamado para uma reunião pelo diretor executivo
do hospital. Ele, naturalmente, cumpria instruções.
É possível que tenham vindo dos professores
titulares. O diretor sugeriu que eu deixasse a chefia da
unidade coronariana. Eu já sentia fazia muito tempo
que estavam me fritando. A cirurgia do ministro Motta no
Albert Einstein foi a gota d'água. Mas aquela conversa
representou um choque para mim. O Incor havia sido minha
escola, onde tudo aprendi. Um dos meus mestres foi o professor
Pileggi, que me ajudou em toda a carreira. Naquela noite,
fiquei meditando no terraço de casa até o
amanhecer e resolvi sair para me dedicar exclusivamente
ao consultório.
Veja Qual foi o momento mais difícil
de sua carreira?
Tranchesi Foi a morte do deputado Luís
Eduardo Magalhães, no dia 21 de abril de 1998. Havíamos
nos encontrado pela última vez um dia antes, no velório
de Sergio Motta. Mais do que um cliente, Luís Eduardo
era um amigo que eu admirava. Logo que ele sofreu o infarto,
o senador Antonio Carlos Magalhães conseguiu me chamar
para que eu fosse atender seu filho. Embarquei às
pressas para Brasília. Depois dos primeiros exames,
tentei tranqüilizar o Luís Eduardo: "Olha, a
coisa não está tão ruim..." Na verdade,
a situação era terrível. As artérias
estavam bastante comprometidas e o infarto fora muito grande.
Enquanto eu conversava, percebi que seus olhos ficaram estáticos
e constatei no monitor que ele havia tido uma assistolia.
Seu coração parou. Durante uma hora e meia,
fizemos massagem cardíaca e tentamos todos os recursos,
mas em nenhum momento ele reagiu. Quando a situação
se tornou irreversível, me dei conta de que atrás
da porta da UTI estava seu pai. Eu teria de contar para
ele. Não precisei dizer nada. Ao me ver, ele compreendeu
tudo e gritou: "Não! Não!" Foi brutal.
Veja Entre os fatores de risco para o coração,
estão o tabagismo, a herança genética,
a hipertensão, a obesidade, o stress, colesterol
alto, vida sedentária e alimentação
inadequada. Qual é o mais grave?
Tranchesi Em famílias com índice
de colesterol muito elevado e determinados traços
genéticos, o fator da hereditariedade é o
risco principal e pode ocasionar doenças coronárias
a partir dos 25 anos. Mas essas famílias são
a exceção. Para a maioria das pessoas, o maior
perigo é o fumo, cujos elementos nocivos destroem
as artérias e criam as condições para
o infarto.
Veja Mesmo para quem fuma pouco o cigarro faz
mal?
Tranchesi O fumo é nocivo em qualquer
quantidade. Admito que dois cigarros diários, após
o almoço e o jantar, não chegam a apressar
a morte de ninguém. A questão é que
não conheço nenhum fumante que se satisfaça
com isso.
Veja O senhor fuma?
Tranchesi Fumo cinco cigarros por dia, em minha
casa ou em reuniões sociais. Ocasionalmente, fumo
um charuto à noite. Tento largar há muito
tempo o cigarro, que melhor do que ninguém sei ser
maléfico. Neste ano acho que conseguirei parar.
Veja Há pessoas com menos de 50 anos,
não fumantes, tidas como saudáveis, que morrem
subitamente de parada cardíaca. Algumas correntes
médicas acreditam que boa parte dessas mortes é
provocada por overdose de cocaína. Qual sua opinião?
Tranchesi Embora não existam estatísticas
a respeito, isso ocorre com mais freqüência do
que se supõe. A primeira causa de uma morte súbita,
entre pessoas jovens, é a cardiopatia hipertrófica.
Atinge esportistas que, ignorando o crescimento anormal
de seu coração, morrem durante corridas ou
exercícios físicos. A segunda causa é,
provavelmente, a cocaína. Ela provoca aumento dos
batimentos cardíacos, podendo se seguir um espasmo
na coronária e o infarto. Como se comprovou no caso
do ex-jogador Maradona, a cocaína é capaz
de destruir o músculo cardíaco.
Veja O cantor Frank Sinatra brindava com a expressão
italiana cent'anni, desejando assim que todos à mesa
vivessem até os 100 anos. É possível
chegar lá, com saúde, sem abrir mão
de alguns prazeres da vida?
Tranchesi Estamos mais próximos do que
nunca dessa possibilidade. Ao lado dos progressos científicos
e tecnológicos dos últimos anos, um número
cada vez maior de pessoas adquiriu a consciência de
que uma vida saudável exige atividade física
regular, alimentação equilibrada e renúncia
a vícios maléficos à saúde.
Não é preciso virar atleta. Uma caminhada
diária de quarenta minutos reduz os riscos cardiovasculares
em até 40%. Os cent'anni já não
são apenas um sonho. Hoje, quando fico sabendo que
morreu algum conhecido de 70, 75 ou 80 anos, minha sensação
é de que isso não foi natural. Essa pessoa
poderia ter vivido bem mais tempo.
Veja Que tipo de alimentação o
senhor costuma recomendar?
Tranchesi Uma dieta na linha mediterrânea
é altamente benéfica. Nela entram frutas,
verduras, massas, azeite, carnes magras, pão e vinho.
Veja Vinho faz mesmo bem à saúde?
Tranchesi Estou plenamente convencido disso,
desde que o vinho seja bebido com cautela. Trabalhos científicos,
apresentados em congressos internacionais e revistas médicas,
mostram que a mortalidade por causas cardiovasculares é
maior entre os abstêmios do que entre os que bebem
moderadamente. Por moderadamente deve-se entender uma ou
duas taças de vinho por dia. Não existe uma
explicação definitiva para isso, mas nessa
pequena quantidade a bebida tem efeito vasodilatador e protege
as artérias.
Veja Por que o senhor nunca usa roupa branca
de médico?
Tranchesi Porque não gosto. Suja muito.
Trabalho de terno e gravata. Vestido assim, posso ir do
consultório para qualquer compromisso, sem trocar
de roupa.
Veja O senhor é um homem vaidoso, não?
Tranchesi De fato, sou. Nunca fiz plástica
e não pinto os cabelos, mas adoro me vestir bem.
Minhas roupas preferidas são as da grife italiana
Ermenegildo Zegna.
Veja O senhor ficou rico com a medicina?
Tranchesi Tenho uma qualidade de vida bastante
boa, conquistada com muito trabalho. Pena que me falte talento
para administrar dinheiro. Eu ganho bem, mas gasto bem.
Gosto de ir a bons restaurantes, quando tenho tempo, gosto
de viajar com conforto e gosto de carro.
Veja Qual é o seu?
Tranchesi De tanto ouvir histórias sobre
assaltos na rua, muitos deles vitimando meus clientes, resolvi
comprar um Mercedes blindado. Sinto-me mais seguro dentro
dele.