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9 de janeiro de 2008
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Bizarro é pouco

A novela Caminhos do Coração, da Record, é
um descaminho em matéria de teledramaturgia


Marcelo Marthe

Fotos Divulgação
O embate entre o vampiro e a mocinha: dentes para morder um pedaço da audiência

Ao lançar Caminhos do Coração, em setembro passado, a Record não disfarçou suas pretensões. Com um orçamento de 200.000 reais por capítulo, a emissora queria ir além de qualquer outra novela produzida no Brasil em matéria de ação e efeitos especiais. Povoada de crianças mutantes dotadas de superpoderes, a história de Tiago Santiago também não economizava nas fontes de inspiração – que incluíam o sucesso dos quadrinhos e do cinema X-Men, o seriado americano Heroes e até um clássico como a Ilíada de Homero. Depois de quatro meses de exibição, pode-se afirmar que a empreitada compensou no ibope. Caminhos do Coração rende 14 pontos de média na Grande São Paulo, índice que não desagrada aos bispos da Record. Do ponto de vista artístico, contudo, o resultado é um espanto – de tão trash.

A mulher-pantera na ilha dos mutantes: tem, ainda, a Preta Gil

A novela, que já era confusa de início, com sua salada de engenharia genética e corrupção policial, tomou um rumo ainda mais bizarro desde que a Record verificou, por meio de pesquisas, que os tais mutantes sustentam a audiência, graças ao apelo que exercem sobre crianças e adolescentes. Gerados numa clínica de engenharia genética fictícia no Guarujá, eles eram dez dos cinqüenta personagens da novela. Hoje, são 21. Pelo andar da carruagem, devem se igualar em breve ao número de humanos na trama. O plantel de mutantes de Caminhos do Coração é variado. No núcleo original há figuras como uma menina com asas, outra com visão de águia e um garoto chamado Aquiles, que corre como corisco e é indestrutível como o herói grego homônimo. Para abrir espaço para a nova leva, Tiago Santiago introduziu na história uma ilha misteriosa onde ficam segregados os mutantes "do mal". Dali saiu Metamorfo, que é capaz de ficar invisível e se transmutar em qualquer pessoa, e sobre o qual o noveleiro tem uma explicação "científica": "Ele tem uma alteração na glândula pineal que faz com que consiga criar esses efeitos hipnóticos". Há ainda uma bruxa que controla os pensamentos das pessoas e uma mulher-pantera.

Como a porteira foi aberta, Santiago aproveitou para juntar mutantes com monstros manjados. A população de vampiros e lobisomens está em franca expansão. Se um núcleo da novela não vai bem, o autor logo transforma os personagens em monstrengos. Pior que os monstros só mesmo o semblante de Preta Gil assustada diante deles. Sim, a filha do ministro-cantor-compositor trabalha na novela da Record. É a contribuição da tropicália à geléia geral de Caminhos do Coração.


 

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