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Edição 2042

9 de janeiro de 2008
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Televisão
O domingo perde sua veterana

Glória Maria deixa o Fantástico e a Globo aposta
em Patrícia Poeta para dar nova cara ao programa


Ronaldo Soares

Andre Valentim/Strana
Glória Maria, a cara do Fantástico desde 1998: gênio difícil e gosto pelas festas de socialites


Apresentadora do Fantástico desde 1998, a jornalista Glória Maria surpreendeu o público com seu desligamento da principal atração dominical da televisão brasileira. Mas sua saída, dentro da Rede Globo, já era esperada, e por boas razões. O relacionamento de Glória com os colegas havia muito tempo não andava nos melhores termos. Além disso, sua imagem estava se tornando "tradicional" demais, em um momento em que o Fantástico busca renovação. Glória estava prestes a partir de férias para Itacaré, na Bahia, quando a emissora anunciou sua substituta: a repórter Patrícia Poeta, que participava do programa em reportagens especiais e faz sua estréia como apresentadora neste domingo.

Antes do Fantástico, Glória foi repórter especial do Jornal Nacional por quinze anos. Ela cobriu a Guerra das Malvinas, em 1982, entrevistou personalidades mundo afora e fez reportagens em mais de 100 países. No programa dominical, seu temperamento difícil criou problemas de toda ordem. Glória costumava não respeitar horários e não se incomodava de deixar quem quer que fosse à sua espera. Volta e meia se estranhava com os colegas. Sua relação com Pedro Bial, seu companheiro de vídeo, estava desgastada. Com Renata Ceribelli, que comanda alguns quadros do Fantástico e a substituiu muitas vezes como apresentadora, a inimizade era explícita: havia muito tempo Glória nem sequer lhe dirigia a palavra. Mais recentemente, passou a implicar com Patrícia Poeta. Entre os cinegrafistas, seu destempero levava a maioria deles a torcer para não viajar com ela, ainda que o destino fosse dos mais atraentes.

Outro fator que contribuiu para o clima ruim entre Glória e a Globo foi seu crescente deslumbramento pelo festivo mundo das socialites. Compreende-se: com o passar do tempo, ela própria se tornou assunto do noticiário mundano. As revistas de celebridades empenham-se em descobrir seu novo namorado como se ela fosse estrela de novela. Também são muitas as reportagens dedicadas à sua aparência e à sua busca por um ar, digamos, jovial – ou, pelo menos, tão jovial quanto permitem os 35 anos de carreira. Glória detesta comentar temas relacionados à idade. O pavor de envelhecer é tamanho que ela proibiu qualquer menção a seu aniversário na redação do Fantástico.

Embora a Globo não admita, a mudança veio a calhar para um programa que já teve mais público. O Fantástico continua na liderança incontestável de seu horário, mas a audiência patina desde maio de 2007 em níveis inferiores ao patamar histórico de 30 pontos. Estava na hora de promover uma nova mexida e a presença de Glória atrapalhava – sua imagem envelheceu juntamente com a do programa. Pelo mesmo motivo, Renata Ceribelli, que seria a escolha mais previsível para o lugar de Glória, foi preterida em favor de Patrícia Poeta. Entre as mudanças já decididas, está a volta das grandes reportagens. Um grupo de repórteres especiais foi designado para a missão nas redações do Rio de Janeiro e de São Paulo. A intenção da emissora é dar mais flexibilidade ao Fantástico, que ficou engessado numa estrutura de muitas séries e quadros. "O Fantástico nunca teve uma fórmula muito rígida e, por isso, sempre se saiu bem. Agora, sua capacidade de se remodelar está sendo colocada novamente à prova", diz José Luiz Proença, professor do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

Leonardo Aversa/Ag. O Globo
Patrícia Poeta, a nova apresentadora: também dela a antecessora não gostava


Em 2007, entraram no ar quadros inovadores, como O Valor do Amanhã, em que o economista Eduardo Giannetti examinava temas como os juros e o planejamento do futuro, e aqueles que tratavam de forma leve e acessível assuntos da história do Brasil ou da realidade nacional. Investiu-se também em esquetes humorísticos, como o Central de Boatos. Mas nada se traduziu em bons índices de audiência. O motivo reside, em parte, no desgaste natural de um programa que está no ar há 34 anos. Outro fator que contribui para a baixa de ibope é o mau desempenho da atração anterior, o Domingão do Faustão. Fausto Silva chegou a passar o bastão para o Fantástico com apenas 12 pontos de audiência. Some-se a isso a concorrência das outras emissoras, que passaram a exibir no mesmo horário programas de conteúdo mais apelativo e adotaram uma estratégia comercial mais arrojada. Elas podem ficar uma hora no ar sem interrupção, para aproveitar a debandada do público nos intervalos da Globo.

Os desafios do Fantástico estão longe das atuais preocupações de Glória Maria. Aproveitando as festas de fim de ano, ela se dedicou a uma de suas atividades preferidas: badalar. Depois de Itacaré, viajou para Salvador, onde passou o réveillon na festa de Ivete Sangalo. Foi de helicóptero cedido pela cantora, como cabe às celebridades. Ela manterá seu vínculo com a Globo, mas ficará fora do ar nos próximos dois anos, em período sabático. Pretende fazer aulas de canto e gravar um CD. Os planos da jornalista surpreenderam os amigos, que desconheciam os seus dotes artísticos. "Nunca soube que ela cantava nem nunca a vi soltando a voz", diz o socialite André Ramos, amigo de Glória e um dos mais notórios anfitriões do Rio de Janeiro.

Com reportagem de Silvia Rogar


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