No magnífico
Reparação, o escritor Ian
McEwan constrói uma tragédia na confluência
de um punhado de pequenos acontecimentos.
Parece milagre, mas a adaptação faz jus ao
seu brilho
Um dos livros mais
extraordinários da última década, Reparação,
do inglês Ian McEwan, começa por tratar das pequenas
coisas que estão se passando numa mansão no
campo, num dia de verão de 1935, e de como elas levam
Briony Tallis, de 13 anos, a contar uma mentira grave. Daí
para a frente, McEwan desenha os círculos que se espraiam
a partir dessa mentira através das décadas.
Ela moldará a vida de Briony até a velhice.
E será não apenas a razão das tragédias
que se abaterão sobre duas outras pessoas, como a pior
dessas tragédias, sempre. Publicado em 2001, o romance
é um feito de narrativa e estrutura: lança um
olhar arguto e original sobre o ponto conflagrado em que o
sentimento pessoal e as convenções de classe
colidem. E, mais do que qualquer outro, dialoga com toda a
grande tradição literária britânica
e a estende até o presente. Reparação
é, enfim, um colosso, e só isso bastaria para
cercar de suspeitas sua adaptação como um muito
assumido filme "de Oscar". Mas Desejo e Reparação(Atonement, Inglaterra/França, 2007), que estréia
nesta sexta-feira no país, é uma boa notícia.
Na verdade, considerando-se tudo em que poderia errar, é
uma ótima notícia: cumpre os cuidados obrigatórios
do gênero com o figurino e a direção de
arte, sem nunca perder de vista a riquíssima matéria-prima
em que se baseia.
Divulgação
Briony (Saoirse Ronan): como
aspirante a escritora, ela observa, interpreta – e distorce
Dirigido pelo inglês Joe Wright, que há dois
anos fez um excelente trabalho com o Orgulho & Preconceito
de Jane Austen, Desejo e Reparação começa
acelerado. Briony (Saoirse Ronan), uma petulante aspirante
a escritora, lateja de frustração por perceber
que não vai conseguir encenar para a família
a sua primeira peça, e também de ressentimento
da janela de seu quarto, ela vê a irmã
mais velha, Cecilia (Keira Knightley), se despir para entrar
numa fonte diante de Robbie (o esplêndido James McAvoy),
o filho da governanta, por quem a menina alimenta uma paixonite.
Briony entendeu, da cena, mais do que gostaria de ter entendido;
mas não tem maturidade para compreender sua essência.
A partir daí, enquanto a trilha sonora acentua a fúria
crescente de Briony, todos os outros elementos que estão
em jogo nesse dia começam a confluir em sua visão
distorcida. Do amigo da família que está de
olho e mãos em quem não deveria
a uma carta que nunca deveria ter sido entregue, o caos vai
se avolumando e se precipitando. Cecilia e Robbie serão
engolidos por ele; e Briony passará o resto da vida
buscando alguma forma de reparação (o "desejo"
do título brasileiro é perfeitamente gratuito)
pelo crime que cometeu.
Ian McEwan é
um mestre dessas guinadas do prosaico para o incontrolável,
e o diretor Joe Wright faz jus a ele, ponto por ponto, nesse
primeiro ato admirável. No segundo ato, em que Briony
trabalha como enfermeira de guerra enquanto Robbie padece
no front, as emoções são mais convencionais
do que aquelas evocadas pelo escritor. Ainda assim, Wright
se sai com uma seqüência épica da evacuação
das tropas britânicas de Dunquerque, em que, em quase
dez minutos sem cortes, compõe um diorama do horror
da guerra. No terceiro e derradeiro ato, Briony, agora com
77 anos e interpretada por Vanessa Redgrave, volta a se expor
como uma narradora das menos confiáveis mas
por motivos opostos aos que a moveram naquele dia de 1935.
Reparação é todo construído
em torno do ato de observar, interpretar e registrar
o ofício básico de um romancista , e filmes
quase que invariavelmente falham nesse tipo de transposição.
Desejo e Reparação é uma bela
exceção. Por pouco, muito pouco, não
é tão arrebatador quanto o texto em que se inspira.