Com A Espiã,
Paul Verhoeven retorna à Holanda e
à II Guerra e se reencontra também como
cineasta
Isabela Boscov
Incensado, com razão,
por RoboCop e O Vingador do Futuro, e ridicularizado,
com certa injustiça, por Showgirls e Tropas
Estelares, o holandês Paul Verhoeven personifica
um dos percursos típicos dos cineastas estrangeiros
em Hollywood: chegou coberto de glória, foi-se embora
como um fracasso. Seu filme mais recente, porém, é
um forte indício de que ele pode estar não numa
trajetória descendente, mas pendular e de novo
em ascensão, portanto. A Espiã(Zwartboek, Holanda/Alemanha, 2006), que estréia
nesta sexta-feira no país, é um Verhoeven como
fazia tempo não se via: vigoroso, voluptuoso e provocativo,
mas sem aquele quê de gratuidade e de ironia extrema
que o havia tornado indigesto para a platéia, em especial
a americana. Como muitos outros artistas em situação
semelhante, também, Verhoeven se renovou voltando ao
ponto de partida no caso, Haia, a cidade onde cresceu
e, aos 6 anos, presenciou o auge da ocupação
nazista na Holanda. É nesse mesmo tempo e lugar que
Rachel (a excelente Carice van Houten), ex-cantora de cabaré
judia, vive escondida na casa de fazenda de uma família
cristã. Rachel é descoberta, paga um policial
para ajudá-la a fugir, e quase morre no que era na
verdade uma armadilha. Acolhida por um grupo de resistência,
reinventa-se como agente dupla. Sob o nome perfeitamente holandês
e protestante de Ellis de Vries, e com os cabelos todos
eles tingidos de loiro, ela se insinua para um alto
comandante da força de ocupação alemã
(Sebastian Koch, o dramaturgo de A Vida dos Outros).
Logo fica claro, porém, que alguém está
alertando os nazistas para os planos do grupo. E, como Ellis
é judia, é mulher e não se fez de rogada
em pular na cama de um SS, ela é naturalmente a primeira
e principal suspeita. O moralismo e o preconceito, postula
Verhoeven, não escolhem lado.
Passadas três
décadas, assim, o diretor retoma o assunto do filme
que o fez famoso e comprou sua passagem de ida para os Estados
Unidos. Como em O Soldado de Laranja, de 1977, A
Espiã não está minimamente interessado
em relembrar as agruras vividas pelos holandeses na II Guerra.
Quer, ao contrário, mostrar aquilo que eles gostariam
de esquecer: que, apesar da reputação de tolerância
que cultivam, também colaboraram com o inimigo e foram
hipócritas. "De outra forma, ao final da guerra
não teriam restado apenas 30.000 dos 140.000 judeus
holandeses", diz o roteirista Gerard Soeteman, com quem
Verhoeven escreveu ambos os filmes. Quase todos estes, como
Ellis, foram denunciados em troca de dinheiro. E quase todos
os que viveram para contar sua história, como ela (a
personagem é um apanhado de diversas figuras verídicas),
o fizeram graças a uma conjunção de sorte,
engenhosidade e pendor para a dissimulação.
A certa altura, Ellis se pergunta se tudo isso algum dia vai
terminar. Verhoeven, que é um realista, responde que
não: na última cena, já novamente sob
seu nome verdadeiro de Rachel e morando num kibutz em Israel,
a protagonista se recolhe no que parece ser a mais perfeita
paz. O diretor, então, afasta um pouco a câmera,
para mostrar o arame farpado e as armas que defendem esse
seu oásis. Certas coisas mudam, mas não acabam.