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Edição 2042

9 de janeiro de 2008
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Cinema
No ponto de partida

Com A Espiã, Paul Verhoeven retorna à Holanda e
à II Guerra – e se reencontra também como cineasta


Isabela Boscov

Incensado, com razão, por RoboCop e O Vingador do Futuro, e ridicularizado, com certa injustiça, por Showgirls e Tropas Estelares, o holandês Paul Verhoeven personifica um dos percursos típicos dos cineastas estrangeiros em Hollywood: chegou coberto de glória, foi-se embora como um fracasso. Seu filme mais recente, porém, é um forte indício de que ele pode estar não numa trajetória descendente, mas pendular – e de novo em ascensão, portanto. A Espiã (Zwartboek, Holanda/Alemanha, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é um Verhoeven como fazia tempo não se via: vigoroso, voluptuoso e provocativo, mas sem aquele quê de gratuidade e de ironia extrema que o havia tornado indigesto para a platéia, em especial a americana. Como muitos outros artistas em situação semelhante, também, Verhoeven se renovou voltando ao ponto de partida – no caso, Haia, a cidade onde cresceu e, aos 6 anos, presenciou o auge da ocupação nazista na Holanda. É nesse mesmo tempo e lugar que Rachel (a excelente Carice van Houten), ex-cantora de cabaré judia, vive escondida na casa de fazenda de uma família cristã. Rachel é descoberta, paga um policial para ajudá-la a fugir, e quase morre no que era na verdade uma armadilha. Acolhida por um grupo de resistência, reinventa-se como agente dupla. Sob o nome perfeitamente holandês e protestante de Ellis de Vries, e com os cabelos – todos eles – tingidos de loiro, ela se insinua para um alto comandante da força de ocupação alemã (Sebastian Koch, o dramaturgo de A Vida dos Outros). Logo fica claro, porém, que alguém está alertando os nazistas para os planos do grupo. E, como Ellis é judia, é mulher e não se fez de rogada em pular na cama de um SS, ela é naturalmente a primeira e principal suspeita. O moralismo e o preconceito, postula Verhoeven, não escolhem lado.

Passadas três décadas, assim, o diretor retoma o assunto do filme que o fez famoso e comprou sua passagem de ida para os Estados Unidos. Como em O Soldado de Laranja, de 1977, A Espiã não está minimamente interessado em relembrar as agruras vividas pelos holandeses na II Guerra. Quer, ao contrário, mostrar aquilo que eles gostariam de esquecer: que, apesar da reputação de tolerância que cultivam, também colaboraram com o inimigo e foram hipócritas. "De outra forma, ao final da guerra não teriam restado apenas 30.000 dos 140.000 judeus holandeses", diz o roteirista Gerard Soeteman, com quem Verhoeven escreveu ambos os filmes. Quase todos estes, como Ellis, foram denunciados em troca de dinheiro. E quase todos os que viveram para contar sua história, como ela (a personagem é um apanhado de diversas figuras verídicas), o fizeram graças a uma conjunção de sorte, engenhosidade e pendor para a dissimulação. A certa altura, Ellis se pergunta se tudo isso algum dia vai terminar. Verhoeven, que é um realista, responde que não: na última cena, já novamente sob seu nome verdadeiro de Rachel e morando num kibutz em Israel, a protagonista se recolhe no que parece ser a mais perfeita paz. O diretor, então, afasta um pouco a câmera, para mostrar o arame farpado e as armas que defendem esse seu oásis. Certas coisas mudam, mas não acabam.


 

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