O seqüenciamento genético
da uva pinot noir, alma dos cobiçados borgonhas, abre caminho para
safras melhores e mais baratas
Rafael
Corrêa
Ian
Shaw/Getty Images
Cachos
da pinot noir, no interior da França: no futuro, será possível
criar versões transgênicas da fruta
Os
italianos acabam de dar outra contribuição relevante ao mundo dos
vinhos. Um grupo de pesquisadores liderados por Riccardo Velasco, do Instituto
San Michele allAdige, publicou o seqüenciamento mais completo feito
até hoje do genoma da uva pinot noir. Essa qualidade de uva é conhecida
por servir de matéria-prima para os exclusivos, cobiçados e caros
vinhos da região da Borgonha, na França. Muito suscetível
a pragas e doenças, ela só atinge sua plenitude quando cultivada
em determinadas condições de solo e clima um conjunto de
fatores a que os franceses chamam de terroir. Com a decodificação
do genoma da pinot noir, no entanto, será possível depender menos
das condições ambientais para produzi-la. Além disso, os
cientistas poderão selecionar variedades mais resistentes a pragas. Mais
adiante, prevê-se até criar tipos adaptados a climas hoje considerados
inadequados. Na prática, isso significará tirar da região
francesa da Borgonha a exclusividade das melhores pinot noir do mundo.
A pesquisa conduzida por Velasco coloca água no vinho dos produtores franceses,
que adoram realçar as qualidades de seu terroir. Um mapa com informações
sobre os genes que determinam as características da uva é uma ferramenta
poderosa para aumentar a produtividade das colheitas e baratear o custo do vinho
pinot noir. Os pesquisadores identificaram marcadores relacionados a características
como sabor, aroma e concentração de resveratrol, substância
com propriedades antioxidantes e antiinflamatórias presente na casca e
nas sementes da fruta. O conhecimento des-ses marcadores permite que se dê
o próximo passo o melhoramento genético. Não é
a primeira vez que o genoma da pinot noir é seqüenciado. Em agosto
passado, um grupo de cientistas franceses e italianos publicou um estudo na revista
científica Nature com o mapa dos genes da uva. A diferença
em relação ao feito do Instituto San Michele allAdige está
no detalhamento das informações. O trabalho do centro de pesquisa
italiano não só esquadrinhou os 30 000 genes da pinot noir
como identificou 2 milhões de polimorfismos de nucleotídeo simples
as variações nas bases formadoras do DNA.
"Com esse nível
de detalhe é possível identificar com precisão as pequenas
diferenças genéticas que determinam por que uma variedade resiste
a doenças e outra não", explica Luís Fernando Revers,
pesquisador da Embrapa e especialista em genética de uvas. "Esse processo
é chamado de genética fina e acelera muito a busca por variedades
melhores." O mapa dos genes da pinot noir também abre caminho para
a criação de versões transgênicas da uva. A possibilidade
de inserir genes de outras plantas no genoma da pinot noir deixa os produtores
franceses de cabelo em pé. Eles acreditam que uma bebida feita a partir
de uma uva transgênica é um sacrilégio que rompe com a tradição
mi-lenar do vinho. Mas de sacrilégio em sacrilégio o mundo se move.
Do terroir ao laboratoire
O
seqüenciamento do genoma da lendária uva da Borgonha, a pinot noir,
pode ser um pesadelo para os produtores franceses, para os quais a terra e o clima
(terroir) é que fazem a qualidade de seus vinhos. Com o avanço no
laboratório será possível
desenvolver variedades da uva mais resistentes a doenças, aumentando
a produtividade
produzir uvas
que darão vinhos com sabor e aroma mais intensos
aumentar nas uvas a concentração de resveratrol, substância
com propriedades antiinflamatórias e antioxidantes
desenvolver variedades que possam ser cultivadas em regiões onde o
clima não é favorável
A multiplicação do champanhe
Nos
próximos cinco anos, estima-se que o consumo de champanhe no mundo crescerá
13%. Para atender à demanda pelo mais célebre dos vinhos, o governo
francês vai aumentar a área oficial de produção. Hoje,
apenas os espumantes originários de uma pequena parte da região
de Champagne podem receber o nome de champanhe. A partir de 2009, deverão
ser incluídos quarenta municípios aos 319 autorizados a fabricar
a bebida. Em 2007, foram produzidos 400 milhões de garrafas. Com a nova
área, o número saltaria para 3,2 bilhões de garrafas anuais.
O terroir, conjunto de clima e solo favoráveis, é o diferencial
da região. Caracteriza-se por um clima de temperatura amena, com pouca
radiação solar, e solo com boa drenagem. Mas os critérios
oficiais que certificam os espumantes levam em conta uma série de outros
fatores. Definitivamente, não é fácil ser champanhe em Champagne.