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Edição 2042

9 de janeiro de 2008
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Ambiente
O revolucionário
e o reacionário

O exibicionista francês José Bové faz greve
de fome contra os transgênicos. Se ele vencesse,
boa parte do mundo pobre passaria fome

Bill Meeks/AP
Patrick Kovarik/AFP
Norman Borlaug (à esq.) examina uma planta. Ele criou a "Revolução Verde". Poucos o conhecem. O exibicionista Bové, porém, com seu cachimbo e bigode, é uma celebridade mundial. Por que será?

O francês José Bové tem uma legítima e inquebrantável convicção de que seu lugar é na frente das câmeras. Ele já tentou de tudo para se manter em evidência. Praticou crimes como invadir e destruir propriedade alheia na França e no Brasil. Seus alvos principais são laboratórios de tecnologia alimentar e lanchonetes do grupo McDonald’s. Como todo exibicionista, Bové tem uma claque permanente e raramente lhe são negados aplausos. Eles partem de gente com um sentimento difuso de insatisfação com o progresso e com as conquistas da civilização tecnológica. Invariavelmente são pessoas que já desfrutam essas conquistas, mas temem pela saúde do planeta caso as centenas de milhões de miseráveis da Ásia e da África, principalmente, também passem a ter acesso a elas. Sentimento torpe disfarçado de nobreza. Bové, de 54 anos, é o líder dessa corrente. Seu último truque foi se declarar, na semana passada, em greve de fome contra o uso de sementes transgênicas em solo francês. Ele promete não comer mais nada enquanto o governo da França não proibir as culturas geneticamente modificadas por um ano. Michel Barnier, ministro da Agricultura da França, respondeu: "Em uma democracia como a nossa existem outras maneiras de ser ouvido, de tomar parte no debate e de convencer".

Exibicionistas como Bové não aceitam a democracia, o debate e muito menos têm a mais mínima intenção de convencer. Eles querem aparecer. Esse é um traço comum ao que se convencionou chamar de "ativismo antiglobalização", que substituiu a militância esquerdista clássica depois do desastre do socialismo na União Soviética e seus satélites. Os náufragos do comunismo se agarraram com sofreguidão à bandeira do ambientalismo. Antes da dissolução do bloco soviético, ambientalismo não era considerado um assunto sério pelos militantes esquerdistas – até porque as fábricas, os carros e as usinas atômicas da União Soviética e dos países sob seu domínio, em especial da Alemanha Oriental, eram os que mais envenenavam o ar e os rios da Europa. Se poluir ajudava a causa socialista, então qualquer um que levantasse a questão da poluição só poderia ser um traidor da causa. A questão ambiental só se tornou séria para os militantes depois que foi transformada em arma de propaganda contra o capitalismo, contra os Estados Unidos e contra a globalização. Os Bovés então pularam de cabeça na nova onda. Não querem debate, não querem um planeta mais limpo e, principalmente, não querem que se cobre deles a apresentação de argumentos científicos que justifiquem suas teses. Querem estar diante das câmeras de televisão. Fizeram disso uma profissão lucrativa.

Por que Bové não quer debater mesmo sabendo que a Assembléia Geral da França votará a questão até dia 9 de fevereiro próximo? Porque não tem argumentos. Primeiro, as culturas geneticamente modificadas cobrem menos de 1% da área plantada da França. Segundo, as sementes geneticamente modificadas, além de mais produtivas e mais resistentes a pragas – o que diminui o uso de defensivos agrícolas químicos –, são seguras para o consumo humano. Para produzir com sementes convencionais a mesma quantidade de comida conseguida com as geneticamente modificadas é preciso triplicar a área plantada e quadruplicar o uso de defensivos agrícolas químicos. Bové e seus seguidores fingem ignorar que a tecnologia agrícola que eles tanto combatem salvou da morte pela fome centenas de milhões de pessoas miseráveis do lado pobre e ignorado do mundo. A outra hipótese é que eles só se preocupam com seu conforto pessoal e com a manutenção do seu modo de vida. São os reacionários do século XXI. O oposto de Bové é um americano tranqüilo chamado Norman Borlaug, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1970. Ele é o cientista responsável pelo desenvolvimento nos anos 60 de sementes de milho e trigo de alta produtividade, aumentando vertiginosamente sua produção. A introdução dessas sementes no Terceiro Mundo deu origem ao que se chamou "Revolução Verde". Que o revolucionário Borlaug seja quase desconhecido enquanto o reacionário Bové festeja diante das câmeras é uma charada a ser decifrada.




 

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