O
exibicionista francês José Bové faz greve de fome contra
os transgênicos. Se ele vencesse, boa parte do mundo pobre passaria
fome
Bill
Meeks/AP
Patrick
Kovarik/AFP
Norman
Borlaug (à esq.) examina uma planta. Ele criou a "Revolução
Verde". Poucos o conhecem. O exibicionista Bové, porém, com
seu cachimbo e bigode, é uma celebridade mundial. Por que será?
O francês José Bové tem uma legítima e inquebrantável
convicção de que seu lugar é na frente das câmeras.
Ele já tentou de tudo para se manter em evidência. Praticou crimes
como invadir e destruir propriedade alheia na França e no Brasil. Seus
alvos principais são laboratórios de tecnologia alimentar e lanchonetes
do grupo McDonalds. Como todo exibicionista, Bové tem uma claque
permanente e raramente lhe são negados aplausos. Eles partem de gente com
um sentimento difuso de insatisfação com o progresso e com as conquistas
da civilização tecnológica. Invariavelmente são pessoas
que já desfrutam essas conquistas, mas temem pela saúde do planeta
caso as centenas de milhões de miseráveis da Ásia e da África,
principalmente, também passem a ter acesso a elas. Sentimento torpe disfarçado
de nobreza. Bové, de 54 anos, é o líder dessa corrente. Seu
último truque foi se declarar, na semana passada, em greve de fome contra
o uso de sementes transgênicas em solo francês. Ele promete não
comer mais nada enquanto o governo da França não proibir as culturas
geneticamente modificadas por um ano. Michel Barnier, ministro da Agricultura
da França, respondeu: "Em uma democracia como a nossa existem outras
maneiras de ser ouvido, de tomar parte no debate e de convencer".
Exibicionistas
como Bové não aceitam a democracia, o debate e muito menos têm
a mais mínima intenção de convencer. Eles querem aparecer.
Esse é um traço comum ao que se convencionou chamar de "ativismo
antiglobalização", que substituiu a militância esquerdista
clássica depois do desastre do socialismo na União Soviética
e seus satélites. Os náufragos do comunismo se agarraram com sofreguidão
à bandeira do ambientalismo. Antes da dissolução do bloco
soviético, ambientalismo não era considerado um assunto sério
pelos militantes esquerdistas até porque as fábricas, os
carros e as usinas atômicas da União Soviética e dos países
sob seu domínio, em especial da Alemanha Oriental, eram os que mais envenenavam
o ar e os rios da Europa. Se poluir ajudava a causa socialista, então qualquer
um que levantasse a questão da poluição só poderia
ser um traidor da causa. A questão ambiental só se tornou séria
para os militantes depois que foi transformada em arma de propaganda contra o
capitalismo, contra os Estados Unidos e contra a globalização. Os
Bovés então pularam de cabeça na nova onda. Não querem
debate, não querem um planeta mais limpo e, principalmente, não
querem que se cobre deles a apresentação de argumentos científicos
que justifiquem suas teses. Querem estar diante das câmeras de televisão.
Fizeram disso uma profissão lucrativa.
Por
que Bové não quer debater mesmo sabendo que a Assembléia
Geral da França votará a questão até dia 9 de fevereiro
próximo? Porque não tem argumentos. Primeiro, as culturas geneticamente
modificadas cobrem menos de 1% da área plantada da França. Segundo,
as sementes geneticamente modificadas, além de mais produtivas e mais resistentes
a pragas o que diminui o uso de defensivos agrícolas químicos
, são seguras para o consumo humano. Para produzir com sementes convencionais
a mesma quantidade de comida conseguida com as geneticamente modificadas é
preciso triplicar a área plantada e quadruplicar o uso de defensivos agrícolas
químicos. Bové e seus seguidores fingem ignorar que a tecnologia
agrícola que eles tanto combatem salvou da morte pela fome centenas de
milhões de pessoas miseráveis do lado pobre e ignorado do mundo.
A outra hipótese é que eles só se preocupam com seu conforto
pessoal e com a manutenção do seu modo de vida. São os reacionários
do século XXI. O oposto de Bové é um americano tranqüilo
chamado Norman Borlaug, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1970. Ele é
o cientista responsável pelo desenvolvimento nos anos 60 de sementes de
milho e trigo de alta produtividade, aumentando vertiginosamente sua produção.
A introdução dessas sementes no Terceiro Mundo deu origem ao que
se chamou "Revolução Verde". Que o revolucionário
Borlaug seja quase desconhecido enquanto o reacionário Bové festeja
diante das câmeras é uma charada a ser decifrada.