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9 de janeiro de 2008
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Sociedade
Cigarro só do lado de fora

A França, pátria sentimental dos fumantes, proíbe
o cigarro em locais fechados, como cafés, bares
e restaurantes. É a Europa se curvando à América


Victor De Martino

Mychele Daniau/AFP
Bar em Rennes, noroeste da França: medida antitabaco ajudará a reduzir as mortes de fumantes passivos

Os cafés franceses nunca mais serão os mesmos. No último dia 2, entrou em vigor na França a proibição do fumo em lugares públicos fechados. A medida atinge também bares, restaurantes e cassinos e sepultou um prazer que era caro aos existencialistas dos anos 50, aos artistas da nouvelle vague dos anos 60, aos ativistas de esquerda dos anos 70 e aos que vieram depois: saborear um cigarro nos ambientes já esfumaçados dos cafés de Paris. Em fevereiro do ano passado, a França já havia abolido o tabaco em escolas, universidades, prédios públicos, hospitais, shoppings e empresas. Agora, na antiga pátria sentimental dos fumantes, só é possível dar vazão ao vício em casa ou em ambientes abertos. As restrições impostas, hoje, são um reconhecimento tardio dos males do fumo passivo. O governo francês estima que 71.000 franceses anualmente morrem no país por causa de doenças relacionadas ao tabaco. Desses, 5 000 jamais puseram um cigarro na boca. São os fumantes passivos.

A proibição também é um sinal de que a cultura do fumo entrou em extinção até mesmo na Europa, que por três décadas ironizou o esforço feito pelos Estados Unidos para coibir o fumo. Hoje, há países europeus com leis antitabagistas mais rígidas que as americanas. Em 2004, a Irlanda se tornou a primeira nação do mundo a livrar todos os seus espaços fechados da fumaça. Na seqüência, Noruega, Espanha, Itália, Malta, Suécia, Escócia, Letônia e Lituânia adotaram legislações semelhantes. Mesmo sem o rigor da legislação francesa, Portugal e dezesseis estados da Alemanha também adotaram medidas antitabagistas na semana passada. Tanto em Portugal quanto nesses estados alemães, os cinzeiros foram recolhidos dos bares, restaurantes e outros ambientes fechados que não disponham de áreas exclusivas para adeptos do cigarro. Com 37% de fumantes na sua população adulta, a Grécia é um dos poucos bastiões europeus do tabagismo.

A cultura do cigarro começou a ser destruída depois que a ciência comprovou o efeito devastador do fumo na saúde. Hoje, sabe-se que um em cada dois fumantes regulares morre por causa do tabaco e que coibi-lo traz resultados imediatos para a saúde pública. Em algumas cidades americanas, a incidência de ataques cardíacos caiu até 27% depois da proibição do fumo em locais fechados. A Irlanda conseguiu reduzir o nível de nicotina na saliva dos não-fumantes em 80%, depois que aboliu o cigarro em lugares públicos. Na Escócia, a abolição dos fumódromos implicou a redução de 26% no número de trabalhadores com problemas respiratórios. "Está comprovado que a proibição total em lugares fechados, como fez a França, é a única a surtir efeito", diz Vera da Costa e Silva, consultora para tabagismo da Organização Mundial de Saúde. "Não adianta instituir apenas a criação de áreas para não-fumantes, como Portugal, a Alemanha e o Brasil fizeram", completa.

Os efeitos benéficos de medidas como essa levaram alguns países a uma escalada contra o cigarro. No Japão, sessenta cidades proíbem o fumo inclusive em ambientes públicos abertos. O município americano de Calabasas e a província de Alberta, no Canadá, tomaram decisões semelhantes. Em quatro estados americanos, é proibido fumar em carros que transportem crianças. Ainda nos Estados Unidos, as empresas de seguro chegam a cobrar contribuições até três vezes maiores de quem fuma. A tendência à proibição generalizada ao fumo na Europa é recente, mas as primeiras medidas nesse sentido remontam ao século XVI. Em 1590, o papa Urbano VII proibiu, sob ameaça de excomunhão, que fiéis e padres fumassem dentro das igrejas. O tabaco havia sido introduzido no continente apenas trinta anos antes, por um embaixador, é claro, francês. Jean Nicot trouxe de Portugal a planta importada do Brasil. No princípio, o tabaco serviu para amenizar as dores de cabeça da rainha Catarina de Médici e o nome de Nicot acabou por batizar a substância ativa do tabaco, a nicotina. No século XX, o hábito se popularizou. Em grande parte, graças ao charme que o cinema lhe emprestou. Hollywood imortalizou fumantes glamourosos como Humphrey Bogart, em Casablanca, e Rita Hayworth, em Gilda. E as imagens de intelectuais franceses, como Jean-Paul Sartre e sua mulher, Simone de Beauvoir, fumantes inveterados, ajudaram a romantizar a cultura do cigarro. Mas, agora, quem quiser fumar num café em Paris terá de achar uma mesa na calçada.

 



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