A França, pátria
sentimental dos fumantes, proíbe
o cigarro em locais fechados, como cafés, bares
e restaurantes. É a Europa se curvando à América
Victor De Martino
Mychele Daniau/AFP
Bar em Rennes, noroeste da França:
medida antitabaco ajudará a reduzir as mortes de
fumantes passivos
Os
cafés franceses nunca mais serão os mesmos.
No último dia 2, entrou em vigor na França a
proibição do fumo em lugares públicos
fechados. A medida atinge também bares, restaurantes
e cassinos e sepultou um prazer que era caro aos existencialistas
dos anos 50, aos artistas da nouvelle vague dos anos 60, aos
ativistas de esquerda dos anos 70 e aos que vieram depois:
saborear um cigarro nos ambientes já esfumaçados
dos cafés de Paris. Em fevereiro do ano passado, a
França já havia abolido o tabaco em escolas,
universidades, prédios públicos, hospitais,
shoppings e empresas. Agora, na antiga pátria sentimental
dos fumantes, só é possível dar vazão
ao vício em casa ou em ambientes abertos. As restrições
impostas, hoje, são um reconhecimento tardio dos males
do fumo passivo. O governo francês estima que 71.000
franceses anualmente morrem no país por causa de doenças
relacionadas ao tabaco. Desses, 5 000 jamais puseram um cigarro
na boca. São os fumantes passivos.
A proibição
também é um sinal de que a cultura do fumo entrou
em extinção até mesmo na Europa, que
por três décadas ironizou o esforço feito
pelos Estados Unidos para coibir o fumo. Hoje, há países
europeus com leis antitabagistas mais rígidas que as
americanas. Em 2004, a Irlanda se tornou a primeira nação
do mundo a livrar todos os seus espaços fechados da
fumaça. Na seqüência, Noruega, Espanha,
Itália, Malta, Suécia, Escócia, Letônia
e Lituânia adotaram legislações semelhantes.
Mesmo sem o rigor da legislação francesa, Portugal
e dezesseis estados da Alemanha também adotaram medidas
antitabagistas na semana passada. Tanto em Portugal quanto
nesses estados alemães, os cinzeiros foram recolhidos
dos bares, restaurantes e outros ambientes fechados que não
disponham de áreas exclusivas para adeptos do cigarro.
Com 37% de fumantes na sua população adulta,
a Grécia é um dos poucos bastiões europeus
do tabagismo.
A cultura do cigarro
começou a ser destruída depois que a ciência
comprovou o efeito devastador do fumo na saúde. Hoje,
sabe-se que um em cada dois fumantes regulares morre por causa
do tabaco e que coibi-lo traz resultados imediatos para a
saúde pública. Em algumas cidades americanas,
a incidência de ataques cardíacos caiu até
27% depois da proibição do fumo em locais fechados.
A Irlanda conseguiu reduzir o nível de nicotina na
saliva dos não-fumantes em 80%, depois que aboliu o
cigarro em lugares públicos. Na Escócia, a abolição
dos fumódromos implicou a redução de
26% no número de trabalhadores com problemas respiratórios.
"Está comprovado que a proibição
total em lugares fechados, como fez a França, é
a única a surtir efeito", diz Vera da Costa e
Silva, consultora para tabagismo da Organização
Mundial de Saúde. "Não adianta instituir
apenas a criação de áreas para não-fumantes,
como Portugal, a Alemanha e o Brasil fizeram", completa.
Os efeitos benéficos
de medidas como essa levaram alguns países a uma escalada
contra o cigarro. No Japão, sessenta cidades proíbem
o fumo inclusive em ambientes públicos abertos. O município
americano de Calabasas e a província de Alberta, no
Canadá, tomaram decisões semelhantes. Em quatro
estados americanos, é proibido fumar em carros que
transportem crianças. Ainda nos Estados Unidos, as
empresas de seguro chegam a cobrar contribuições
até três vezes maiores de quem fuma. A tendência
à proibição generalizada ao fumo na Europa
é recente, mas as primeiras medidas nesse sentido remontam
ao século XVI. Em 1590, o papa Urbano VII proibiu,
sob ameaça de excomunhão, que fiéis e
padres fumassem dentro das igrejas. O tabaco havia sido introduzido
no continente apenas trinta anos antes, por um embaixador,
é claro, francês. Jean Nicot trouxe de Portugal
a planta importada do Brasil. No princípio, o tabaco
serviu para amenizar as dores de cabeça da rainha Catarina
de Médici e o nome de Nicot acabou por batizar a substância
ativa do tabaco, a nicotina. No século XX, o hábito
se popularizou. Em grande parte, graças ao charme que
o cinema lhe emprestou. Hollywood imortalizou fumantes glamourosos
como Humphrey Bogart, em Casablanca, e Rita Hayworth,
em Gilda. E as imagens de intelectuais franceses, como
Jean-Paul Sartre e sua mulher, Simone de Beauvoir, fumantes
inveterados, ajudaram a romantizar a cultura do cigarro. Mas,
agora, quem quiser fumar num café em Paris terá
de achar uma mesa na calçada.