No réveillondeste ano, os
tradicionais fogos de artifício da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro,
misturaram-se no céu aos riscos luminosos de balas disparadas por fuzis.
Trata-se de uma já tristemente conhecida maneira que a bandidagem encontrou
de saudar o ano-novo além de, como sempre, demonstrar seu poder
de fogo. Poderia ter sido essa a causa de um inédito saldo da maior festa
carioca: seis pessoas feridas a tiro na praia, sendo quatro atingidas por balas
que vieram de cima. Mas a perícia preliminar já descartou que os
ferimentos tenham sido provocados por balas de fuzil. Foram tiros de revólver
ou pistola, muito provavelmente disparados por pessoas que estavam na praia, durante
a queima de fogos.
A tradição
de atirar para cima durante comemorações ou homenagens não
existe apenas no Brasil. É um costume que persiste principalmente porque
não se conhecem seus riscos. Imagina-se que um projétil lançado
para cima simplesmente desaparece no ar, ou volta com força desprezível.
A prática, no entanto, mostra o contrário. A bala atirada para cima
tem pela lei da gravidade uma inapelável trajetória de retorno.
Ela chega ao solo em média com um terço da velocidade com que foi
disparada. Se é um tiro de fuzil, ainda que o projétil pese apenas
10 gramas, quando volta ao chão seu impacto pode chegar ao de 1 tonelada.
É mais que suficiente para matar alguém.
A
pedido de VEJA, o diretor do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade
Federal Fluminense (UFF), Ronaldo Leão, calculou as trajetórias
possíveis desse tipo de disparo e suas conseqüências. Como mostra
o quadro, um revólver calibre 38 é capaz de disparar balas a uma
velocidade média de 1.000 quilômetros por hora. Num ângulo
de 90 graus, o projétil sobe 500 metros e volta ao chão a 400 quilômetros
por hora. É o bastante para perfurar o corpo humano. Se atinge a cabeça,
o pescoço ou o tronco até a altura do abdômen, pode ser fatal.
Quando o tiro é disparado a 90 graus, a bala pode cair em qualquer lugar
num raio de 10 metros. Mas, se a arma estiver levemente inclinada, a 80 graus,
por exemplo, o projétil cairá a até 70 metros. Dependendo
da inclinação, fuzis do tipo AR-15, FAL ou AK-47, que são
utilizados pelos traficantes cariocas, podem atingir pessoas a mais de 1 quilômetro
de distância. Em 2006, 205 pessoas foram feridas por balas perdidas no Rio.
A esmagadora maioria foi vítima de confrontos armados entre policiais e
bandidos, e não de tiros dados para cima. Os cariocas e seus convidados
de todo o mundo poderiam ser poupados desse risco numa festa que sempre foi pacífica.
"Dar tiros para o alto como forma de comemoração é coisa
típica de país subdesenvolvido. E mostra a quantidade de armas em
poder da população. Não por acaso, é muito comum vermos
manifestações como essa em lugares como o Rio de Janeiro, a Palestina
ou o Iraque", diz José Vicente da Silva Filho, ex-secretário
nacional de Segurança Pública.