Site se inspira na rede de relacionamentos
para financiar pequenos empreendedores
Naiara Magalhães
Reuters
Página do
Kiva na internet e o ex-presidente Bill Clinton:
elogios ao pioneirismo do projeto
Há dezessete
anos a equatoriana Alexandra Castro ganha a vida vendendo
frutas em uma barraca na cidade de Guaiaquil. Começou
ajudando os pais e hoje sustenta três filhos. Em 2006,
a feirante deu um passo importante em seu negócio.
Tomou um empréstimo de 925 dólares e, com o
dinheiro, passou a comprar mercadorias no atacado, a preços
mais baixos. Com a operação, aumentou a margem
de lucro. Depois do impulso inicial, foi possível dar
outro passo. Hoje, além de vender frutas, Alexandra
as distribui a outros comerciantes. O pequeno financiamento
que melhorou seus negócios não veio de uma instituição
bancária tradicional, onde os mecanismos para a concessão
de crédito são repletos de filtros. Alexandra
cadastrou-se no Kiva, o primeiro site de relacionamentos a
possibilitar que empreendedores de baixa renda encontrem pessoas
ao redor do mundo que estejam dispostas a ajudá-los
on-line, sem intermediários. Em apenas dois anos de
existência, o Kiva virou sucesso mundial. Suas operações
já movimentaram 19 milhões de dólares
e chegaram a quase quarenta países (veja quadro).
Tudo com o uso de apenas duas ferramentas: um computador e
um cartão de crédito.
kiva.org website
A rede de empréstimos
foi criada em 2005 pelo casal Matt e Jessica Flannery, dois
jovens californianos. A idéia surgiu após uma
viagem de Jessica à África, onde coordenou uma
pesquisa sobre o impacto de doações módicas
utilizadas por pessoas para abrir ou ampliar pequenos negócios.
Lá, Jessica tirou as seguintes conclusões: 1)
os pobres têm forte espírito empreendedor e são
ótimos pagadores; 2) histórias de superação
pessoal têm um poder inacreditável de encantar
potenciais investidores; 3) com a ajuda da internet, é
possível multiplicar exponencialmente o número
de financiadores individuais. Com base nessas três premissas,
Jessica e o marido criaram o site Kiva palavra que
significa "ação conjunta" no idioma
suaíli, falado em nações africanas como
Quênia e Tanzânia. O sistema do Kiva é
simples: como no Orkut, microempresários inscrevem
seu perfil na página da internet, com fotos e dados
pessoais. Mas, em vez de citar filmes e músicas preferidos,
descrevem o tipo de negócio em que atuam, estimam a
quantia de que necessitam para incrementá-lo, dizem
como investirão o dinheiro tomado em empréstimo
e em quanto tempo poderão pagá-lo. Potenciais
financiadores em qualquer parte do mundo escolhem os perfis
que mais lhes agradam. Cada um pode emprestar o total pedido
pelo empresário ou apenas uma parte (25 dólares,
no mínimo), que será complementada por outros
financiadores. O dinheiro é inicialmente transferido
para os fundos do Kiva, em nome do empreendedor escolhido,
por meio de uma transação on-line via cartão
de crédito. No prazo estabelecido para o pagamento
do empréstimo, os credores recebem o dinheiro de volta,
sem juros nem correção. Nessa via de mão
dupla entre empresários e financiadores está
o grande mérito do programa não se trata
de benemerência a fundo perdido, com resultados momentâneos,
mas de empréstimos com retorno seguro e impacto social
imenso. Segundo Afonso Cozzi, coordenador do Núcleo
de Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral,
a grande vantagem do Kiva sobre as instituições
de microcrédito tradicionais é ter uma rede
ampla que multiplica as chances de os pequenos empresários
conseguirem ajuda.
Outra razão
do sucesso do Kiva é o alto grau de confiabilidade
e transparência das operações. Para garantir
a segurança do empréstimo, o site mantém
parceria com instituições locais de microcrédito
que atuam em cada um dos 39 países atendidos atualmente
não há, por enquanto, entidades cadastradas
no Brasil. Cabe a esses parceiros selecionar empresários
idôneos e produzir relatórios periódicos
sobre o andamento do negócio financiado, permitindo
ao credor acompanhar pela internet todo o processo. Desse
modo, desaparece a figura do intermediário tradicional,
em geral entidades assistencialistas que, apesar de receberem
vultosas quantias, estão muito interessadas em se perpetuar
e refratárias à prestação de contas
desses recursos. A seriedade do Kiva é reforçada
pelo fato de que as próprias entidades parceiras são
avaliadas no site as estrelinhas que, no Orkut, servem
para indicar a popularidade do internauta, no site sinalizam
o grau de confiabilidade da instituição, de
acordo com seu tempo de associada, quanto dinheiro administra
e a taxa de inadimplência das pessoas que atende (a
média geral é de apenas 0,2%). Para fazerem
seu trabalho, as instituições parceiras cobram
juros de 20% ao ano. A taxa, similar à praticada pelas
empresas de microcrédito, não é propriamente
pequena. É preciso entender, no entanto, que empreendedores
de baixa renda não têm acesso a essas instituições
financeiras, que exigem garantias e não dispõem
de linhas de crédito de pequeno valor. Portanto, os
pequenos comerciantes são obrigados a se submeter ao
mercado paralelo da agiotagem, onde a cobrança de juros
é extorsiva.
Divulgação
Jessica e Matt Flannery:
jovens californianos são os pais da idéia
E como o Kiva se sustenta? Além de receber doações,
seus criadores encontraram outra solução: embora
os tomadores do empréstimo devolvam o dinheiro em parcelas
mensais, os financiadores ao redor do mundo só recebem
o dinheiro de volta quando toda a dívida for amortizada
em média, no prazo de um ano. Durante esse período,
os recursos ficam em uma conta remunerada e os rendimentos
são usados para bancar as operações do
site. Toda a idéia surpreende pela simplicidade e pela
capacidade de atrair simpatizantes de peso. O Kiva conseguiu
chamar a atenção de personalidades como a apresentadora
Oprah Winfrey e o ex-presidente Bill Clinton, que também
têm os próprios programas de ação
humanitária. Em um dos elogios públicos que
fez ao site, Clinton resumiu com clareza as razões
da rápida popularidade alcançada pelo projeto:
"É como se você conhecesse aquelas pessoas,
soubesse como elas vivem e como tocam seus negócios.
E você ainda pode ajudá-las. Tudo isso pela internet.
É fantástico".