A encenação das Farc sobre a libertação
de reféns faz Chávez de bobo e expõe
distorções morais sobre a "guerrilha"
Diogo Schelp
Reuters
Mauricio Duenas/AFP
Carlos Duran/Reuters
Réveillon
na selva: Chávez tenta faturar, Kirchner faz demagogia
com Garcia ao lado (o senhor baixinho de barba branca)
e Oliver Stone não entende nada
São tamanhas as distorções
factuais e morais em torno da questão dos reféns
que seriam libertados na virada do ano na Colômbia,
sob os auspícios do venezuelano Hugo Chávez,
que é preciso relembrar algumas realidades. A organização
que mantém cerca de 800 pessoas em seu poder, conhecida
pela sigla Farc (Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia), não é formada por "guerrilheiros
marxistas", como repete a denominação usual.
Nem Marx endossaria as barbáries cometidas pelas Farc,
que se originaram numa guerra civil ocorrida na Colômbia
e depois tiveram inspiração esquerdista, mas
há muito tempo degeneraram em uma espécie de
seita de fanáticos que vive à custa do tráfico
de cocaína. Os seqüestros em larga escala que
praticam incluem mulheres e crianças, mantidas em condições
hediondas. As reféns cuja falsa libertação
foi anunciada eram Consuelo González, uma ex-senadora
de 57 anos, seqüestrada em 2001, e Clara Rojas, assessora
política da mais famosa das vítimas das Farc,
Ingrid Betancourt ambas foram raptadas quando Ingrid
fazia campanha presidencial, sem chance, mas com grande destaque.
Clara teve um filho "nascido em cativeiro", como
tem sido escrito casualmente, de uma relação
"consensual", como se fosse normal uma mulher prisioneira
na selva engravidar de um namorico com um de seus raptores.
Hugo Chávez não teve uma atuação
humanitária na Operação Emmanuel, o nome
da pobre criança que usou sem nenhum pudor, mas sim
publicitária: pretendia faturar prestígio e
humilhar seu adversário colombiano, Álvaro Uribe.
Aliás, não foi Uribe o culpado pelo fracasso
da libertação. As Farc enganaram seu aliado
Chávez, a quem prometeram um "ato de desagravo"
pelos confrontos com Uribe, juntamente com a projeção
mundial que lhe valeria a soltura de duas mulheres inocentes
e um menininho. Fizeram Chávez de bobo. Por mais amigo
que seja dos narcoterroristas, ele não teria feito
tanta onda se não acreditasse realmente que voltaria
com o trunfo na mão de Villavicencio, cidade colombiana
onde montou o circo.
No papel de coadjuvante
desse faz-de-conta na selva esteve um trio inacreditável:
Marco Aurélio Garcia, assessor do presidente Lula e
simpatizante das Farc; o cineasta e inocente inútil
americano Oliver Stone e o ex-presidente argentino Néstor
Kirchner, que perdeu o primeiro réveillon pós-posse
de sua mulher e sucessora, Cristina uma festa meio
amargurada pelo "caso da mala", os 800.000 dólares
enviados da Venezuela para a Argentina durante a campanha.
Nenhum dos representantes oficiais agiu como intermediário
neutro: chegaram exaltando Chávez e saíram culpando
Uribe. O Itamaraty chegou a divulgar um comunicado falando
da necessidade de dar "condições"
para a entrega dos reféns ou seja, responsabilizando
o governo da Colômbia.
"Culpar o
governo colombiano é uma inversão total de papéis",
diz o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), uma rara
voz de sensatez e de foco humanista na política brasileira.
"Há uma parcela da esquerda do continente, e também
da européia, que cultiva uma visão unilateral
dos direitos humanos, segundo a qual apenas governos de direita
devem respeitá-los." O réveillon na selva
dos amigos das Farc até poderia ser engolido, e mesmo
celebrado, se pelo menos abrisse alguma esperança para
os inocentes seviciados há anos na selva. A suspeita
de que foi tudo armação desde o início
se confirmou com uma informação-bomba do presidente
colombiano: a de que o pequeno Emmanuel estava já havia
dois anos num orfanato, onde tinha sido abandonado com um
braço quebrado e marcas de leishmaniose no rosto. Testes
de DNA confirmaram, na sexta-feira passada, que o menino no
orfanato é filho de Clara. O pai de Uribe foi assassinado
pelas Farc; o atual ministro das Relações Exteriores,
Fernando Araújo, fugiu depois de passar seis anos como
refém; por tentar fazer o mesmo, Ingrid Betancourt
ficou acorrentada pelo pescoço em várias ocasiões.
Em sua temporada na selva, Oliver Stone definiu assim as Farc:
"Parece que são um exército de camponeses
lutando por uma vida digna".