Há
dez anos, o barril do petróleo era vendido a pouco mais de 10 dólares.
O mundo não sabia, mas vivia ali os dias derradeiros da fase farta e barata
do combustível fóssil que impulsionou a segunda revolução
industrial do século passado. Nos anos seguintes, uma conjunção
de fatores, entre eles a prosperidade dos países em desenvolvimento e a
instabilidade em regiões produtoras, elevou gradativamente a cotação
internacional. Na semana passada, o barril atingiu o seu ápice histórico
ao ser negociado, pela primeira vez, acima da barreira mágica de 100 dólares.
Ajustado pela inflação, o petróleo só custara mais
em 1864, logo depois da descoberta nos campos da Pensilvânia, nos Estados
Unidos. Depois disso, o recorde havia sido registrado em 1980, um ano após
a revolução islâmica iraniana, quando a cotação
triplicou em menos de cinco anos e boa parte do planeta caiu em recessão.
O preço médio de um barril chegou a 36 dólares, o que, corrigido
pela inflação, equivaleria a 90 dólares.
O
recorde da semana passada foi atingido na Bolsa Mercantil de Nova York, onde se
negocia o petróleo do tipo WTI (West Texas Intermediate), uma referência
ao tipo padrão da principal região produtora dos Estados Unidos.
Trata-se de um óleo leve, com grau API (escala utilizada para medir a densidade
de óleos e derivados) de 39,6º e teor de enxofre de 0,24%. Existem
também os contratos negociados em Londres. Naquele mercado, a referência
é o petróleo do tipo Brent, extraído no Mar do Norte. Ele
é mais pesado do que o WTI, com grau API de 38,3º e teor de enxofre
de 0,37%. O nome de seu tipo remete a uma antiga plataforma de petróleo
(Brent Spar) da Shell no Mar do Norte. Normalmente, o WTI é ligeiramente
mais caro do que o Brent, que ainda não chegou a ser cotado acima de 100
dólares.
Esse recorde traz um
novo desafio para a economia. Até aqui, empresas e consumidores vinham
resistindo bravamente ao preço estratosférico do petróleo
devido a ganhos de produtividade e eficiência. Um americano típico,
por exemplo, gastava 6% de sua renda com gasolina em 1980; agora, apesar dos preços
recordes do combustível, o dispêndio não passa de 4% do salário.
Outra ação positiva veio da globalização. Para cada
dólar de poder de compra perdido com o aumento do petróleo, calcula-se
que os consumidores dos Estados Unidos recebiam de volta 1,5 dólar na forma
de produtos baratos importados da China e de outros países. Há,
ainda, a constatação de que, como o petróleo é cotado
em dólares e a moeda americana despenca no mundo, o petróleo não
estaria tão caro se comparado a outras moedas.
David
Longstreath/AP
Tanque
destruído na Guerra do Golfo, em 1991: reservas gigantes num barril de
pólvora
Tudo isso é
verdade. Mas, nos últimos meses, houve um aumento das incertezas com relação
ao movimento do petróleo. Primeiro, porque a inflação começou
a subir em todo o mundo, um reflexo do repasse da alta do petróleo e de
outras commodities, como os alimentos. Em segundo lugar, porque não se
sabe ao certo se haverá, nos próximos anos, petróleo suficiente
para suprir as necessidades crescentes dos dois gigantes asiáticos, a China
e a Índia. O mundo produz atualmente em torno de 85 milhões de barris
de petróleo ao dia, ou 13,5 bilhões de litros (cada barril, medida
de referência para a indústria petrolífera, contém
159 litros). Os maiores consumidores são, de longe, os americanos. A cada
quatro barris extraídos em todo o mundo, um é gasto nos Estados
Unidos. Na comparação com os países ricos, os emergentes
ainda usam pouco petróleo. No Brasil o gasto per capita é de 4,5
barris ao ano. Na China a média é ainda menor, de dois barris, e
na Índia não passa de um. O dilema é que o consumo tem crescido
a taxas elevadas nos emergentes, principalmente na China e na Índia. Projeções
indicam que o consumo planetário avançará 50% até
2030, e metade desse incremento virá de chineses e indianos. "Em um
cenário de manutenção do crescimento econômico acelerado
na China e na Índia, o preço do barril pode muito bem chegar a 150
dólares", afirmou, na semana passada, o diretor executivo da Agência
Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), Nobuo Tanaka.
Para
atender a esse avanço na demanda, a produção mundial teria
de subir do atual patamar de 85 milhões de barris diários para pelo
menos 130 milhões de barris. Para alguns dos maiores especialistas no assunto,
entretanto, é improvável que o planeta consiga superar a barreira
dos 100 milhões de barris diários. Um dos motivos é que as
reservas de exploração fácil e pouco profundas estão
perto do fim. Outro motivo é o fato de que as maiores reservas conhecidas
estão hoje em países situados em zonas de conflito, como o Oriente
Médio e a África, ou governados por ditadores, como a Venezuela
e o Irã, que não permitem o investimento estrangeiro de grandes
empresas petrolíferas internacionais. Os mais otimistas esperam que o petróleo
caro desestimule o consumo, incentive o investimento em formas alternativas e
renováveis de energia e amplie a eficiência na utilização
de combustíveis fósseis.
O
Brasil desta vez, ao menos, estará mais preparado para enfrentar os desafios
da crise energética. Graças à tecnologia dos carros flex,
o etanol voltou a ser uma opção confiável para o abastecimento
de automóveis. O país já produz quase todo o petróleo
de que necessita ainda não atingiu a auto-suficiência festejada
pelo governo Lula na campanha eleitoral de 2006, mas está perto disso.
Assim, para o consumidor brasileiro, a escalada recente no preço do petróleo
deverá ter efeitos limitados. Ainda mais se o campo de Tupi, descoberto
pela Petrobras na Bacia de Santos, comprovar que é tão vasto como
indicam as estimativas preliminares. Caberá ao país utilizar com
sabedoria as suas riquezas. Dispor de reservas gigantescas de petróleo
ou de qualquer outro recurso natural não transforma nenhum país
em uma nação rica e desenvolvida como demonstram a Venezuela
de Hugo Chávez, o Irã de Mahmoud Ahmadinejad e a Nigéria
das guerras étnicas atrozes.