...felicidade. Para
o médico americano, não há
nada de errado em um homem recorrer à química
para melhorar o desempenho na cama. É bom até
para elas. Basta ter critério
Anna Paula Buchalla
Divulgação
"Uma vida sexual prazerosa
traz uma série de benefícios
à saúde mental, cardiovascular
e até imunológica. Vive-se mais
e com mais alegria"
John
P. Mulhall é um dos mais proeminentes urologistas dos
Estados Unidos. Além de dirigir o departamento dessa
especialidade no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em
Nova York, ele é professor da Weill Medical College
of Cornell University, onde coordena o laboratório
de pesquisas em medicina sexual. Nessa instituição,
Mulhall dedica-se, juntamente com sua equipe, à realização
de estudos clínicos para o desenvolvimento de tratamentos
de disfunções como impotência e ejaculação
precoce. Editor da revista Journal of Urology, seu
nome é um dos mais citados nas publicações
científicas sobre o tema. Mais de uma centena de artigos
é de sua autoria. Nesta entrevista a VEJA, concedida
de seu consultório, em Nova York, ele discorre sobre
a relevância do sexo na manutenção da
qualidade de vida, os distúrbios que afetam homens
e mulheres nessa área e a contribuição
dos remédios na felicidade geral quando se está
na horizontal. "É uma pena que, apesar de todos
os avanços obtidos, ainda haja muitos médicos
e pacientes relutantes em tocar em assuntos relacionados à
cama", diz Mulhall.
Veja É
possível ser completamente saudável e feliz
sem uma vida sexual regular e satisfatória? Mulhall
Não. Uma vida sexual prazerosa, em termos quantitativos
e qualitativos, traz uma série de benefícios
à saúde mental, cardiovascular e até
imunológica. Vive-se mais e com mais alegria. As disfunções
sexuais, por sua vez, contribuem para o surgimento de uma
série de problemas físicos e psicológicos.
Muitos casos de depressão e de dificuldades de relacionamento
têm origem nelas. A disfunção erétil,
por exemplo, pode ser o prenúncio de doenças
como diabetes, esclerose múltipla, Parkinson e doença
coronária, entre outras. A qualidade da vida sexual
é um termômetro de bem-estar. Tanto que se tornou
uma das medidas da qualidade de vida de uma pessoa, segundo
a Organização Mundial de Saúde.
Veja As pessoas mais velhas têm, hoje, uma vida sexual
mais ativa? Mulhall
Não gostamos de pensar em nossos pais ou nossos avós
fazendo sexo, mas eles estão. Nos Estados Unidos, temos
os chamados baby boomers, a geração pós-guerra
que freqüentou a universidade nos anos 60. Esses homens
e mulheres eram extremamente ativos do ponto de vista sexual
na juventude e, de certa forma, continuam assim na velhice.
Estima-se que cerca de 70% dos homens na faixa dos 70 anos
pratiquem sexo e que 40% deles o façam pelo menos uma
vez por semana. Os números estão num estudo
publicado recentemente na revista The New England Journal
of Medicine. Se esses homens tomam remédios para
ter um melhor desempenho físico ao subir escadas, por
que não lhes dar um medicamento capaz de proporcionar-lhes
a melhor ereção possível? A principal
reclamação deles é em relação
à rigidez do pênis. Sem dúvida, os remédios
antiimpotência os têm ajudado bastante a melhorar
esse ponto.
Veja Como está, em geral, o nível de satisfação
de homens e mulheres com o sexo? Mulhall
Baixo. Uma pesquisa da qual participei mostrou que boa parte
das pessoas não está satisfeita com sua vida
sexual. Para ser mais exato, um terço dos homens e
um quarto das mulheres afirmaram fazer menos sexo do que gostariam.
Esse dado se confirmou em um estudo mundial intitulado Global
Better Sex Study, apresentado no Congresso Europeu de
Urologia, no ano passado. Foram recolhidas informações
de 12 500 pessoas, das quais a metade tinha mais de
40 anos. Além de muita gente reclamar de pouco sexo,
no quesito rigidez da ereção apenas 38% dos
homens disseram estar completamente satisfeitos com o seu
desempenho e somente 36% das mulheres expressaram contentamento
com a performance de seus parceiros.
Veja Como o senhor interpreta esses resultados? Mulhall
Não acho que os homens maduros queiram voltar a ter
18 anos. Mas, para eles, a qualidade da ereção
imediatamente anterior é vital. Se, no último
encontro amoroso, seu desempenho não foi assim tão
bom, voltar à cama com uma mulher tende a transformar-se
em fonte de preocupação e, não
raro, isso se traduz em frustração para ambos
os lados. Um dos principais motivos que levam os homens a
usar Viagra refere-se à qualidade da ereção,
e não à falta dela. Com a idade, eles ainda
fazem sexo, mas não com o mesmo entusiasmo de antes.
Ou seja, a ereção dura menos e é menos
rígida. Embora não haja nenhuma disfunção
nisso, é claro que o fato está longe de ser
motivo de comemoração. Por esse motivo, acho
absolutamente legítimo recorrer a um remédio
antiimpotência.
Veja O senhor acha certo os jovens recorrerem a tais medicamentos
somente para melhorar um desempenho que já é
bom o suficiente? Mulhall
Há vários homens na faixa dos 35 anos, completamente
saudáveis, que usam remédios no início
de um relacionamento, para mostrar às parceiras que
são bons amantes. Se isso os torna mais confiantes,
nenhum problema. A questão é não criar
dependência psicológica. O ideal é que,
afastada a insegurança inicial, se abandone o remédio.
Veja Os homens estão mais preocupados em satisfazer as
mulheres na cama? Mulhall
Não, continuam mais preocupados com eles próprios.
Veja, sou apenas um médico e não posso aqui
fazer considerações de ordem psicológica.
Mas, baseado em minha experiência clínica, noto
que esse tipo de comportamento está mais associado
à auto-estima masculina do que a relacionamentos menos
afetivos. Inclusive porque, hoje, há muitos homens
de 65 anos se casando com mulheres de 35 anos ou menos. O
que eles querem antes de mais nada? Que a parceira perceba
que, apesar da idade, o fogo não se extinguiu. Isso
não quer dizer necessariamente que eles não
se importam com a sua companheira. Até porque a preocupação
com o próprio desempenho, na maioria das vezes, os
torna mais aptos a dar mais prazer à mulher.
Veja A ejaculação precoce ainda é o principal
fantasmamasculino? Mulhall
Essa é a disfunção sexual
mais comum entre homens de todas as idades e, até
o momento, as opções terapêuticas contra
o problema são limitadas. Atualmente, os antidepressivos
são o que há de mais efetivo para combater a
ejaculação precoce. Mas, como se trata de uma
medicação que deve ser tomada todos os dias,
o índice de desistência do tratamento é
alto. Além disso, mais da metade dos pacientes que
apresentam esse distúrbio se recusa a tomar antidepressivos
por causa do estigma associado a eles.
Veja Não há nada de novo no horizonte? Mulhall
Está em estudo uma substância chamada dapoxetina.
Tecnicamente, trata-se de um inibidor do transporte de serotonina.
Em vez de atuar nos receptores de serotonina no cérebro,
como fazem os antidepressivos mais modernos, a dapoxetina
atua num estágio anterior a esse processo, inibindo
a proteína responsável pelo transporte do neurotransmissor.
Se aprovado, o medicamento poderá ser tomado de uma
a três horas antes do sexo e sem o estigma de
ser um antidepressivo.
Veja Afinal de contas, a ejaculação precoce é
um distúrbio de ordem fisiológica ou psicológica? Mulhall
De acordo com as estimativas da Associação Americana
de Urologia, de 20% a 34% dos homens de todas as idades sofrem
de ejaculação precoce. É preciso, no
entanto, separá-los em dois grupos. Há aqueles
que sempre foram ejaculadores prematuros dois terços
e os que adquiriram o distúrbio o terço
restante. Sabe-se que, no primeiro caso, há uma disfunção
neurobiológica por trás da ejaculação
precoce. Assim como na depressão, ocorre uma falha
na comunicação dos neurotransmissores dopamina
e serotonina. Entre os homens que adquiriram o distúrbio,
a causa mais comum é a disfunção erétil.
Dois terços dos que apresentam disfunção
erétil vão desenvolver ejaculação
precoce. Mas, ao contrário dos outros, esses são
inteiramente curáveis. Uma vez tratada a disfunção
erétil, o problema de ejaculação precoce
desaparece.
Veja De acordo com um estudo recente publicado no Journal
of Sexual Medicine, os precoces levam 1,8 minuto ou menos
para ejacular. A média entre os normais gira em torno
de sete minutos. É correto estipular um tempo-padrão
para a ejaculação? Mulhall
Na verdade, esses números vieram de uma pesquisa feita
por um grande laboratório que se baseou unicamente
no que relatavam seus entrevistados. Era uma auto-avaliação,
e não uma medição do tempo de fato. Aliás,
essa auto-avaliação varia de país para
país. Os alemães são os que afirmam ejacular
em menos tempo e os sul-americanos, em mais tempo. Homens
de certos países da América do Sul dizem levar
até treze minutos. O dado interessante é que
as respostas nunca batem com as das parceiras. Em qualquer
latitude, eles tendem a superestimar o tempo entre o início
da relação e a ejaculação.
Veja A psicóloga americana Leonore Tiefer é uma
crítica de longa data da medicalização
da sexualidade. Para ela, a dor durante o ato sexual é
a única disfunção que realmente existe.
O que o senhor acha dessa opinião? Mulhall
Acho Leonore muito inteligente. Mas ela tem uma relação
demasiadamente atritada com a indústria farmacêutica.
Leonore defende a tese de que as disfunções
sexuais, em especial as femininas, são uma invenção
dos fabricantes para vender remédios. A realidade,
no entanto, é que não mais do que 20% das mulheres
com problemas sexuais são candidatas a medicação.
As outras 80% deveriam ser encaminhadas para algum tipo de
terapia psicológica ou aconselhamento de casais.
Veja Isso significa que as mulheres têm menos disfunções
sexuais? Mulhall
Depende de como se encara a questão. Há mulheres
que, por exemplo, não têm boa lubrificação
vaginal. Trata-se de uma disfunção ou de um
fato biológico natural para uma mulher madura? Eu diria
que, se o problema é motivo de estresse, então
se transforma numa disfunção. Se não
importa tanto, não é uma disfunção.
Mas, no que se refere aos homens, a falta de ereção
é determinante. Não há como não
se incomodar com essa questão e dificilmente
dá para resolvê-la por meio de análise.
Portanto, não é possível afirmar, como
faz Leonore, que o arsenal medicamentoso criado para eles
é apenas lixo comercial. O erro dela é se deixar
cegar pela aversão que nutre pela indústria
farmacêutica.