Roberto
Civita
O Brasil agora tem
rumo. É preciso
mantê-lo
O que mais
me surpreende no Brasil de hoje é como subestimamos os enormes
avanços realizados em tão pouco tempo. Pois basta voltarmos
para meados da década passada apenas alguns minutos na história
do país para nos dar conta de quanto progredimos.
O ponto
de partida nunca esqueçamos foi o fim da inflação
devastadora que solapou a economia, os valores e qualquer esperança
de maior justiça social no Brasil durante pelo menos duas gerações.
Em reconhecimento dessa façanha, elegemos seu principal responsável
para a Presidência da República e embarcamos num período
de mudanças que está transformando o país.
Para começar,
iniciou-se o desmonte de uma economia dominada pelo Estado, com empresas
estatais inchadas e ineficientes, regulamentação excessiva
que convidava à corrupção, bancos estaduais quebrados
a serviço de políticos sem escrúpulos e um sistema
previdenciário injusto a caminho da falência.
A estabilidade
econômica imediatamente gerou um dramático crescimento do
poder aquisitivo do povo, enquanto o fim dos monopólios, a privatização
das empresas estatais e a criação de agências reguladoras
contribuíram para uma onda de novos investimentos, que por sua
vez provocaram um forte aumento de eficiência e concorrência,
fechando o círculo virtuoso com a manutenção de preços.
Na frente
social, iniciamos o resgate da gigantesca dívida acumulada ao longo
dos séculos com a verdadeira revolução na educação,
que colocou 97% das crianças entre 7 e 14 anos nas escolas, melhorou
os salários dos professores, moralizou e universalizou a distribuição
de livros didáticos gratuitos no ensino fundamental e estabeleceu
novos parâmetros de qualidade que permitirão elevar significativamente
o nível do ensino no decorrer dos próximos anos. Não
menos importante, nosso vergonhosamente disfuncional sistema de saúde
pública começou a ser reformulado para poder oferecer tratamento
e prevenção minimamente aceitáveis à população.
Institucionalmente,
também progredimos com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que marca
o início de uma nova era de transparência e equilíbrio
na gestão das finanças públicas também no
nível estadual e municipal. Avançamos com a limitação
das medidas provisórias. E com o início da indispensável
flexibilização da arcaica legislação trabalhista,
que não apenas empurra cada vez mais trabalhadores para a "informalidade",
mas também limita a criação de novos empregos sob
a proteção da lei e sintonizados com o mundo globalizado,
informatizado e mutante em que precisamos competir.
Apesar das
aparências em contrário, acredito que a maré da corrupção
que inunda o país ao longo das últimas décadas finalmente
começou a baixar, desta vez irreversivelmente, graças aos
efeitos combinados de uma imprensa vigilante, uma população
mais consciente e em conseqüência um Congresso
que virou "autolimpante" ao processar e cassar seus próprios frutos
podres e acabar com a imunidade parlamentar para crimes comuns.
Obviamente,
isso tudo não significa que resolvemos todos os nossos problemas.
Apesar de tantos avanços, continuamos com uma vergonhosa desigualdade
social que precisa ser reduzida aceleradamente, não apenas porque
é moralmente injusta e inaceitável, mas também porque
o enorme fosso entre os que têm e os que não têm atrasa
o desenvolvimento e contribui inevitavelmente para aumentar a onda de
violência que assola o país.
Continuamos,
também, sem ter feito a reforma tributária tão essencial
para desengessar as finanças públicas, racionalizar o nosso
infernalmente complexo e ineficiente emaranhado de impostos e baixar o
escandalosamente alto custo do dinheiro, que encarece tudo o que fazemos
e consumimos, reduz nossa competitividade internacional e desestimula
investimentos produtivos.
Falta ainda
a tão desejada, tão necessária e tão obstaculada
reforma de nosso sobrecarregado e emperrado sistema judiciário.
E a não menos básica reforma política. Nela, a fidelidade
partidária estimularia a formação de partidos com
identidades definidas, e um sistema eleitoral híbrido de voto distrital
e voto proporcional fortaleceria a democracia ao mesmo tempo que baratearia
dramaticamente o custo das campanhas eleitorais.
Isso sem
falar da cruzada para aumentar nossas exportações, da batalha
para recuperar o tempo perdido na capacidade de gerar energia elétrica,
da necessidade de melhorarmos e muito nossa capacidade de
administrar a coisa pública com mais competência e menos
desperdícios.
O caminho
é longo e as mudanças continuarão sendo mais difíceis
e demoradas do que gostaríamos. Mas o essencial é que o
Brasil agora tem rumo, perspectivas de melhora contínua, uma população
cada vez mais solidária e comprometida com a responsabilidade social
e goza de respeito e credibilidade na frente internacional como nunca
antes em sua história.
Em outubro
deste ano, mais de 100 milhões de brasileiros irão às
urnas não apenas para escolher um novo presidente, novos governadores
e novos parlamentares, mas também para decidir se pretendemos ou
não continuar pelo caminho que leva a uma sociedade mais desenvolvida,
mais próspera e mais justa. Faço votos e confio
que a escolha seja feita com o costumeiro bom senso.
Roberto
Civita é presidente do Grupo Abril e editor de VEJA
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