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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
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Sons do outro mundo

Tenda de cartomante, sessão de
meditação, terapia alternativa?
Vai ter Corciolli no fundo musical

Sérgio Martins

Claudio Rossi
Corciolli: "Beethoven teria composto melhor se fosse um homem feliz"

Consumida em larga escala pela turma que acredita em duendes, a música new age tornou-se um filão de respeito no mercado brasileiro de discos. A irlandesa Enya e a canadense Loreena McKennitt, por exemplo, chegam a vender 100.000 cópias por lançamento – mesma cifra que gente do primeiro escalão do mundo pop, como Oasis e Rolling Stones. Aos poucos vão surgindo também músicos brasileiros que correspondem ao gosto da patota esotérica. Figuras como o compositor Aurio Corrá, o cantor Carlos Pacini e, principalmente, o paulistano José Antonio Corciolli, de 33 anos. Seu instrumento é o teclado eletrônico, do qual ele arranca sons etéreos, depois combinados a tambores orientais, mantras indianos e versos em latim. Ele não gosta de aplicar o rótulo "new age" às próprias composições. Prefere dizer, com ar misterioso, que faz "música imaginária". Seja qual for o nome, sem nenhuma divulgação ou campanha de marketing, cada um de seus oito discos vendeu cerca de 20.000 unidades. Eles têm lugar cativo no hit parade dos salões de cartomante e clínicas de terapias alternativas. Corciolli gosta de mencionar pessoas famosas que são suas fãs, como o ator Miguel Falabella, o publicitário Celso Loducca e a numeróloga e apresentadora de televisão Aparecida Liberato. Também exibe com orgulho um papel meio suspeito, com timbre do Vaticano mas escrito em português, que seria uma bênção do papa a seu disco Unio Mystica, de 1995.

Corciolli conta que começou a se interessar por música aos 14 anos, fascinado com os sintetizadores do francês Jean-Michel Jarre e do grego Vangelis. Mas só resolveu levar a coisa a sério muitos anos mais tarde – depois de ter se formado em arquitetura. Sua primeira experiência como músico profissional foi no grupo Espírito Cigano, uma imitação brasileira do conjunto francês Gipsy Kings. Em 1993 ele partiu em carreira-solo. Surpreendentemente, o próprio Corciolli garante ser um tipo cético. Não lê seu destino nas cartas nem faz mapas astrológicos. Nunca foi peregrino em lugares "cheios de vibrações", como Santiago de Compostela ou o Tibete (embora tenha gravado músicas ao lado de alguns monges desse país). Seu escritor preferido não é Paulo Coelho. E o mais próximo de um momento místico que ele diz ter experimentado se deu na Catedral de Notre-Dame, em Paris, quando tinha 18 anos. Ao ouvir um recital com as músicas de Bach, sentou-se num banco da igreja e chorou.

Longe dele desprezar a matéria. Corciolli mostrou tino comercial ao fundar a gravadora Azul Music. Com oito anos de existência, seu catálogo tem oitenta discos com artistas nacionais e internacionais – sem falar em CDs com ruídos de água e piados de passarinho. A campeã de vendas do selo é tudoazul, coleção especificamente projetada para servir de trilha sonora a tratamentos alternativos como o reiki (aquele passe energético de que o cantor Roberto Carlos é fã) ou a cromoterapia. Lançada em fevereiro do ano passado, a série de dez CDs vendeu 300.000 cópias até agora. O trabalho como músico e empresário já garantiu a Corciolli um cotidiano confortável, numa casa espaçosa de um bairro de classe média alta de São Paulo. Mais que confortável, aliás, ele diz que sua vida é feliz. "A felicidade é fundamental para um músico criar sua obra. Beethoven, por exemplo, teria composto melhor se não tivesse tido uma vida pessoal tão complicada", sentencia ele. É isso mesmo. Depois dessa, melhor fazer uma pausa para relaxamento.

Balaio-de-gatos

 
Divulgação

A irlandesa Enya: música na trilha de O Senhor dos Anéis

Surgido ainda nos anos 60, o rótulo new age foi criado para definir a música que levasse o ouvinte a um estado espiritual elevado. Seus pioneiros, por assim dizer, foram artistas indianos, como Ravi Shankar, que caíram no gosto do movimento hippie. Nas décadas seguintes, a new age ganhou tantas divisões que acabou virando um balaio-de-gatos. Hoje em dia existe a new age tribal, que promete o nirvana à custa de batucadas primitivas; a progressiva eletrônica, reduto de tecladistas; e a contemporânea, na qual se destaca a irlandesa Enya. Esta última é um fenômeno mundial. Seu último lançamento, A Day without Rain, vendeu mais de 5 milhões de cópias nos Estados Unidos. Neste ano ela ganhou uma indicação para o Globo de Ouro, premiação que é uma espécie de passaporte para o Oscar, pela canção May It Be, que entrou na trilha de O Senhor dos Anéis. O estilo Enya de fazer música – aquelas melodias "celestiais" tocadas por uma flautinha chata – costumam também fazer sucesso no cinema. A trilha de Titanic, por exemplo, foi descaradamente copiada das músicas da cantora por ordem de James Cameron, diretor do filme e amante de new age.



   
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