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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
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No purgatório

Do Inferno pretende ser a mais
perturbadora das versões da
história do Estripador. Não é

Isabela Boscov

Divulgação
Jack faz mais uma vítima: sem faro para o suspense


No rol dos criminosos célebres, Jack, o Estripador ocupa posição de honra – por ser o primeiro serial killer moderno, pelo barbarismo com que assassinou sete prostitutas em 1888 e pelas especulações sobre sua verdadeira identidade, que costumam ligá-lo à maçonaria e a figurões da época. É natural, portanto, que Jack continue a ser tema de filmes. O mais recente é Do Inferno (From Hell, Estados Unidos, 2001), que estréia nesta sexta-feira no país. Johnny Depp, em mais uma boa atuação, faz o investigador Fred Abberline, um viciado em ópio que tem visões de crimes que estão por acontecer. Abberline tem mais tormentos a enfrentar – a sordidez do bairro londrino de Whitechapel, onde Jack escolhia suas vítimas, e a paixão por Mary (Heather Graham), uma prostituta que está na mira do assassino. Ele pressente também que há pessoas importantes que desejam frustrar seu trabalho. A única ajuda vem de um cirurgião (Ian Holm), que se dispõe a explicar a perícia com que Jack mutila seus cadáveres.

Era para ser de um clima infernal. E, no que dependesse da produção meticulosa e dos esforços de Depp e Holm, seria mesmo. Do Inferno, no entanto, padece de uma intrigante falta de suspense. Não é o caso de perguntar o que está faltando aqui, e sim o que está sobrando. Para começar, o filme leva excesso de bagagem na direção dos irmãos Albert e Allen Hughes, que procuram carregar ao máximo nas tintas em cada cena. O resultado é que não há mudanças de tom e crescendos capazes de criar tensão. O segundo problema está na lógica hollywoodiana de desenvolver personagens segundo o cachê dos atores que os interpretam. As atrizes que fazem as prostitutas amigas de Heather Graham, por exemplo, são pouco conhecidas. Em decorrência, não estão lá para ter personalidade, e sim para morrer. Já Heather ganha milhões de dólares, o que lhe garante certas prerrogativas dentro do enredo. Quem paga a conta é a platéia, que já começa o filme com a certeza de que alguns personagens vão sofrer menos que outros. Assim, não há mistério que resista.

   
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