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Protesto contra o
destino
Intensa
e obcecada pela morte –
assim é a obra do uruguaio
Horacio Quiroga
Rubens
Figueiredo *
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| Quiroga:
um clássico da literatura latina |
A vida de
certos autores parece ter sido escrita com a mesma caneta e tinta que
eles usaram para compor seus livros. O uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937)
é um exemplo, e o título de sua obra mais famosa, Contos
de Amor, de Loucura e de Morte (tradução de Eric
Nepomuceno; Record; 178 páginas; 25 reais), poderia estar na capa
da sua autobiografia, se ela existisse. Aos 3 meses de vida, no colo da
mãe, presenciou a morte do pai, vítima do disparo acidental
de uma arma de caça. Aos 15 anos, assistiu ao suicídio do
padrasto, que, inválido e afásico, empurrou com o dedo do
pé o gatilho da mesma arma. Anos depois, por acidente, Quiroga
matou um amigo, quando ambos examinavam a pistola que o amigo usaria num
duelo. A esposa do escritor se envenenou e ele mesmo se matou com cianureto
ao saber que tinha câncer.
Essa abundância
de mortes produz a mesma aura de fatalidade que impregna seus contos.
A morte é uma presença a cada passo dos personagens. Quiroga
a narra em várias circunstâncias: picada de cobra, malária,
insolação, morfinomania, tiro, delírio suicida, vampirismo
ou ataque de formigas famintas. Mas não se trata de um impulso
mórbido. O leitor não é induzido a se deleitar com
a destruição. Em vez disso, a minúcia e a vivacidade
dos relatos geram o efeito de um protesto contra o destino. Enquanto o
veneno de uma víbora se espalha pelas veias, enquanto uma infecção
misteriosa se apossa dos órgãos, seus heróis lutam
até o fim para sobreviver.
Quiroga
viveu entre a Argentina e o Uruguai. Misturou-se à literatura dos
dois países, cujos escritores se beneficiaram de uma influência
mútua. No entanto, quando indagado, preferia dizer que "minha pátria
é a minha casa". Partiu do modernismo do argentino Leopoldo Lugones,
que bem diferente do modernismo no Brasil preconizava o
preciosismo verbal. Depois adotou uma prosa direta e incisiva, patente
nos melhores contos desse livro, de 1917. De imaginação
exacerbada e sem receio dos excessos dramáticos, Quiroga às
vezes fica na corda bamba entre o grotesco e o sentimental. Para não
cair, mune-se de uma visão crua da vida, sem abrir mão de
uma afeição tenaz por seus personagens e seu mundo. Até
os animais e a selva têm parte ativa nas histórias. Quiroga
viveu muitos anos na mata, na região das antigas missões
jesuítas, no nordeste da Argentina. Construiu ele mesmo sua casa,
fazia os próprios sapatos e dizia conversar com uma sucuri que
visitava seu jardim todos os dias. Nem por isso seus contos tropeçam
no exótico e no documental. Neles, o inumano segue sua própria
lógica. Pode, por exemplo, assumir a forma de um parasita que,
oculto no travesseiro de uma recém-casada, suga seu sangue até
a morte, como no conto O Travesseiro de Plumas.
Por seus
exageros, a geração que o sucedeu à qual pertencia,
por exemplo, o argentino Jorge Luis Borges viu em Quiroga uma voz
antiquada. O teor extravagante e o gosto pelo bizarro do escritor só
voltaram a ser admirados nos anos 40 e 50. Leitura obrigatória
nas escolas hispano-americanas, seus relatos viraram modelo a ser superado
por novos escritores. Para os brasileiros, é quase um desconhecido.
Mas basta ler algum desses quinze contos para perceber a preciosidade
que temos nas mãos.
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FRENESI
"Não
sabiam deglutir, mudar de lugar, nem mesmo sentar-se. Finalmente
aprenderam a caminhar, mas chocavam-se contra tudo, por não
perceber os obstáculos. Quando eram lavados, mugiam até
ficarem com os rostos totalmente avermelhados, injetados de sangue.
Animavam-se apenas para comer [...] Riam, então, pondo para
fora a língua e rios de baba, radiantes no frenesi bestial."
Trecho
do conto A Galinha Degolada
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* Rubens Figueiredo é escritor, autor de Barco a Seco,
entre outros livros
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