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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
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Protesto contra o destino

Intensa e obcecada pela morte –
assim é a obra do uruguaio
Horacio Quiroga

Rubens Figueiredo *

Quiroga: um clássico da literatura latina

A vida de certos autores parece ter sido escrita com a mesma caneta e tinta que eles usaram para compor seus livros. O uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937) é um exemplo, e o título de sua obra mais famosa, Contos de Amor, de Loucura e de Morte (tradução de Eric Nepomuceno; Record; 178 páginas; 25 reais), poderia estar na capa da sua autobiografia, se ela existisse. Aos 3 meses de vida, no colo da mãe, presenciou a morte do pai, vítima do disparo acidental de uma arma de caça. Aos 15 anos, assistiu ao suicídio do padrasto, que, inválido e afásico, empurrou com o dedo do pé o gatilho da mesma arma. Anos depois, por acidente, Quiroga matou um amigo, quando ambos examinavam a pistola que o amigo usaria num duelo. A esposa do escritor se envenenou e ele mesmo se matou com cianureto ao saber que tinha câncer.

Essa abundância de mortes produz a mesma aura de fatalidade que impregna seus contos. A morte é uma presença a cada passo dos personagens. Quiroga a narra em várias circunstâncias: picada de cobra, malária, insolação, morfinomania, tiro, delírio suicida, vampirismo ou ataque de formigas famintas. Mas não se trata de um impulso mórbido. O leitor não é induzido a se deleitar com a destruição. Em vez disso, a minúcia e a vivacidade dos relatos geram o efeito de um protesto contra o destino. Enquanto o veneno de uma víbora se espalha pelas veias, enquanto uma infecção misteriosa se apossa dos órgãos, seus heróis lutam até o fim para sobreviver.

Quiroga viveu entre a Argentina e o Uruguai. Misturou-se à literatura dos dois países, cujos escritores se beneficiaram de uma influência mútua. No entanto, quando indagado, preferia dizer que "minha pátria é a minha casa". Partiu do modernismo do argentino Leopoldo Lugones, que – bem diferente do modernismo no Brasil – preconizava o preciosismo verbal. Depois adotou uma prosa direta e incisiva, patente nos melhores contos desse livro, de 1917. De imaginação exacerbada e sem receio dos excessos dramáticos, Quiroga às vezes fica na corda bamba entre o grotesco e o sentimental. Para não cair, mune-se de uma visão crua da vida, sem abrir mão de uma afeição tenaz por seus personagens e seu mundo. Até os animais e a selva têm parte ativa nas histórias. Quiroga viveu muitos anos na mata, na região das antigas missões jesuítas, no nordeste da Argentina. Construiu ele mesmo sua casa, fazia os próprios sapatos e dizia conversar com uma sucuri que visitava seu jardim todos os dias. Nem por isso seus contos tropeçam no exótico e no documental. Neles, o inumano segue sua própria lógica. Pode, por exemplo, assumir a forma de um parasita que, oculto no travesseiro de uma recém-casada, suga seu sangue até a morte, como no conto O Travesseiro de Plumas.

Por seus exageros, a geração que o sucedeu – à qual pertencia, por exemplo, o argentino Jorge Luis Borges – viu em Quiroga uma voz antiquada. O teor extravagante e o gosto pelo bizarro do escritor só voltaram a ser admirados nos anos 40 e 50. Leitura obrigatória nas escolas hispano-americanas, seus relatos viraram modelo a ser superado por novos escritores. Para os brasileiros, é quase um desconhecido. Mas basta ler algum desses quinze contos para perceber a preciosidade que temos nas mãos.


FRENESI

"Não sabiam deglutir, mudar de lugar, nem mesmo sentar-se. Finalmente aprenderam a caminhar, mas chocavam-se contra tudo, por não perceber os obstáculos. Quando eram lavados, mugiam até ficarem com os rostos totalmente avermelhados, injetados de sangue. Animavam-se apenas para comer [...] Riam, então, pondo para fora a língua e rios de baba, radiantes no frenesi bestial."

Trecho do conto A Galinha Degolada




* Rubens Figueiredo é escritor, autor de Barco a Seco,
entre outros livros



   
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