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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
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Marcelo Carneiro, Ronaldo França e João Gabriel de Lima

Cássia Eller, de 39 anos, a melhor cantora pop do Brasil, morreu em sofrimento. Em suas últimas horas de vida, sentiu dores, desespero e medo e teve intensas crises de choro. No sábado 29 de dezembro, quando chegou à clínica Santa Maria, na Zona Sul do Rio de Janeiro, vinha de uma noite difícil. Vestia calça jeans e uma camiseta vermelha e estava em péssimas condições físicas. Abatida, apresentava voz pastosa e uma indisfarçável confusão mental. Tinha os olhos vermelhos e inchados e chorava muito. No caminho para a clínica, queixara-se de fortes dores na barriga e no peito e chegou a vomitar. Na sexta-feira passada, VEJA teve acesso, com exclusividade, ao laudo preliminar do Instituto Médico-Legal do Rio e aos depoimentos prestados à polícia. O laudo não é conclusivo sobre a ação de alguma droga ilegal nos últimos momentos da vida de Cássia Eller. Só o exame toxicológico das vísceras vai dar a palavra final. Mas funcionários do IML garantem que as análises preliminares apontam para um quadro sugestivo do uso de drogas. O relato de Ronaldo Villas, empresário de Cássia, reforça o drama vivido pela cantora, cuja agonia começou dias antes. Ela tinha passado o Natal em Brasília com a família e já dava sinais de que não estava bem. No dia 26, "teve um ataque de nervos e quebrou uma porta de vidro". Por isso voltou ao Rio para ensaiar o show que daria na noite de réveillon com o hematoma na testa e os arranhões nas coxas que tinha ao dar entrada na clínica.

Entre os que acompanhavam de perto sua luta para se livrar da dependência de drogas, havia a preocupação com uma recaída. O temor aumentou durante um ensaio com sua banda na tarde de sexta-feira, num estúdio na Tijuca, na Zona Norte. Mal-humorada, Cássia estava indócil, agitada. A certa altura, abriu uma garrafa de cerveja. Criou-se um mal-estar. As seis horas de ensaio foram um suplício para os músicos, que também sentiam a carga dos 95 shows que fizeram entre maio e dezembro em todo o país. "O ensaio não rendeu, o cansaço pesou", conta o baterista João Viana, integrante da banda de Cássia há três anos. Apesar do clima ruim, a cantora ficou até o final e foi para casa acompanhada da percussionista Elaine Moreira, a Lan Lan. A essa altura, já era evidente que havia algo errado. Mas, segundo a versão de Lan Lan, Cássia preferiu passar a noite sozinha, depois de quebrar os telefones fixos.


"Eu não achava que precisava cheirar para cantar, mas ia de onda, tinha bastante e sempre mandava uma. Era o frisson da galera, todo mundo ia."


"Fumei meu primeiro baseado aos 20 anos, cocaína foi com 25. Resisti por muito tempo, mas quando comecei a cantar foi uma perdição total. Cantava em dois bares, ganhava umas drogas de presente."

Divulgação


"Eu embalava dois, três dias sem parar. Aí deu
um clique, fiquei pirada com a história. Meu problema hoje é que bebo, entorno uma cana. Eu gosto de birita."


"Adoro ser mulher. É que brinco com o comportamento das pessoas, gosto do machismo. Adoro imitar bofe! Passa uma mulher e eu falo 'Gostosa', ou então coço o saco. Não sou de pegar menina assim,
mas às vezes falo só para sacanear: 'E aí, gata?'"


"Sou espada."


De manhã, começou a última e mais terrível parte do drama de Cássia Eller. Logo cedo, ela ligou do celular para Lan Lan pedindo ajuda. A percussionista chegou de carro ao apartamento da cantora, acompanhada pela amiga e companheira de banda Thamyma Brasil. As duas decidiram levar Cássia para dar uma volta de carro, ainda segundo a versão de Lan Lan. No meio do caminho, a cantora começou a se desesperar, com fortes dores e vômitos, e foi levada para a clínica Santa Maria, um hospital pequeno e modesto, distante cerca de 2 quilômetros de sua casa. Chegou por volta do meio-dia e topou com a sala de espera cheia. Assustada, recusou-se a entrar e voltou correndo para o carro. A vizinhança acompanhava das janelas seu choro convulsivo. O médico Marcelo Heringer, 31 anos, um dos sócios da clínica, tirou o jaleco e foi tentar convencê-la a voltar. Sentaram-se na calçada. Cássia, enfim, aceitou entrar no hospital.

A cantora foi submetida a um eletrocardiograma, que não mostrou anormalidade. Já a contagem de enzimas, um exame de sangue que detecta a morte de tecido muscular cardíaco, apresentou pequena alteração. Às 13h30, quando ainda estava em observação, Cássia teve a primeira parada cardíaca e iniciou uma luta pela vida que só terminaria às 19h05. O atendimento que recebeu seguiu o padrão utilizado nos casos de intoxicação por drogas em doses acima do suportável pelo organismo, a chamada overdose. Os médicos ministraram atropina, lidocaína e bicarbonato de sódio. Pela ordem, esses medicamentos servem para recuperar os batimentos cardíacos, normalizar o ritmo do coração e manter em níveis adequados algumas substâncias que regulam o pH do sangue. Por volta das 16h30, quando estava sendo preparada para se submeter a um ecocardiograma, a cantora teve a segunda parada cardíaca.

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O relatório prévio do Instituto Médico Legal diz ter encontrado no braço esquerdo da cantora "ferida punctória sugestiva das usadas para acesso a vaso superficial". Tanto pode ser uma injeção tomada na clínica ou uma evidência de que a cantora estava se injetando drogas. O laudo toxicológico deverá eliminar as dúvidas

O que se seguiu foi um horror. Toda a equipe médica, a essa altura formada por dez pessoas, espremeu-se em um dos boxes do CTI da clínica, num espaço de não mais de 10 metros quadrados. Por 25 minutos, os profissionais revezaram-se no esforço de fazer o coração da cantora voltar a funcionar. Fizeram massagens cardíacas, deram choques e ministraram novos medicamentos. Foi um período longo demais para uma pessoa da idade de Cássia. Com quase meia hora de parada cardíaca, o coração entra em sofrimento e praticamente não há esperança de reversão do quadro. Tecnicamente, não se podia fazer mais nada. Cássia, porém, mais uma vez resistiu. Naquele momento, os médicos já haviam constatado uma obstrução arterial no braço esquerdo da cantora. Das três artérias, apenas uma funcionava – mesmo assim, de maneira sofrível. Se ela sobrevivesse, provavelmente teria seqüelas naquele braço. A situação era tão delicada que um angiologista (especialista em sistema vascular) foi chamado, mas não houve tempo. Às 7 da noite a cantora sofreu a terceira e última parada cardíaca.

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Transcrição do depoimento do cardiologista Luna à polícia: ele atendeu a cantora e descreveu seu quadro clínico como "compatível com o uso de substância tóxica exógena", o jargão médico para ingestão de drogas, que no caso de Cássia Eller pode ter ocorrido em níveis acima do limite tolerável

A reconstituição dos passos dos médicos e a descrição do comportamento de Cássia – voz pastosa e aparente confusão mental – reforçam a suspeita de que ela foi vítima de uma overdose de cocaína misturada a álcool e medicamentos. Essa foi a hipótese levantada pelo médico Rafael Luna, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, que chegou à clínica pouco antes da segunda parada cardíaca de Cássia, chamado pelo empresário da cantora, Ronaldo Villas. Em seu depoimento à polícia, Luna sustenta essa possibilidade. São fortes os indícios de que ela vinha se injetando drogas. O braço esquerdo apresentava sinais de enrijecimento devido a um processo de cicatrização de picadas antigas e trazia marcas de picadas novas. A dose letal pegou a cantora justamente quando ela vivia o melhor momento da carreira, aliando o reconhecimento da crítica e a adoração do público a um faturamento que chegava a 70.000 reais por mês.

Cássia Eller nunca escondeu que era usuária de drogas. Sua preferida era a cocaína, que consumiu durante mais de dez anos. Numa de suas últimas entrevistas, concedida à revista IstoÉ Gente menos de duas semanas antes de sua morte, a cantora abordou o assunto. "Eu cheirava muita cocaína. Parei total, graças a Deus. Fiquei um tempo sem beber também, e isso me fez bem. Não foi nem exatamente por causa do Chicão que parei, meu corpo não estava mais agüentando. Durante a gravidez parei porque, milagrosamente, enjoei de cigarro, café, maconha, de tudo. Cocaína, então, lógico. Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra." Cássia contou também que resolveu largar o vício apenas em 1999, quando entrou num spa para desintoxicação. "Naquela época, eu embalava três dias seguidos. Meu corpo não estava agüentando mais." A cantora saiu da clínica pensando estar livre da cocaína. Disse na mesma entrevista que se considerava curada da dependência da droga e que seu único vício, agora, era o álcool. "Eu gosto de birita", declarou, ignorando que um dependente químico não pode beber. Embora tímida, sempre foi franca. Achava que havia muita hipocrisia no meio musical em relação ao assunto drogas. A substituta de Rita Lee no papel de roqueira número 1 do Brasil considerava que os artistas deveriam tratar do assunto sem falsidades nem tabus. Bem no alvo. Mortes por overdose de artistas nos Estados Unidos e na Inglaterra são seguidas de discussões honestas sobre seu estilo de vida. Ninguém tenta esconder as circunstâncias das mortes, e os exemplos são freqüentemente citados pelos próprios artistas como alerta para o fato de que as drogas realmente matam. Grandes astros da música pop morreram por consumo excessivo de drogas. Jimi Hendrix, o maior guitarrista da história do rock, intoxicou-se com uma mistura de barbitúricos e álcool, em 1970. A cantora Janis Joplin, um dos modelos de Cássia Eller, morreu de overdose de heroína, mais ou menos na mesma época em que Hendrix teve sua carreira encerrada precocemente.


 



   
 
   
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