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Marcelo
Carneiro, Ronaldo França e João Gabriel de Lima
Cássia
Eller, de 39 anos, a melhor cantora pop do Brasil, morreu em sofrimento.
Em suas últimas horas de vida, sentiu dores, desespero e medo e
teve intensas crises de choro. No sábado 29 de dezembro, quando
chegou à clínica Santa Maria, na Zona Sul do Rio de Janeiro,
vinha de uma noite difícil. Vestia calça jeans e uma camiseta
vermelha e estava em péssimas condições físicas.
Abatida, apresentava voz pastosa e uma indisfarçável confusão
mental. Tinha os olhos vermelhos e inchados e chorava muito. No caminho
para a clínica, queixara-se de fortes dores na barriga e no peito
e chegou a vomitar. Na sexta-feira passada, VEJA teve acesso, com exclusividade,
ao laudo preliminar do Instituto Médico-Legal do Rio e aos depoimentos
prestados à polícia. O laudo não é conclusivo
sobre a ação de alguma droga ilegal nos últimos momentos
da vida de Cássia Eller. Só o exame toxicológico
das vísceras vai dar a palavra final. Mas funcionários do
IML garantem que as análises preliminares apontam para um quadro
sugestivo do uso de drogas. O relato de Ronaldo Villas, empresário
de Cássia, reforça o drama vivido pela cantora, cuja agonia
começou dias antes. Ela tinha passado o Natal em Brasília
com a família e já dava sinais de que não estava
bem. No dia 26, "teve um ataque de nervos e quebrou uma porta de vidro".
Por isso voltou ao Rio para ensaiar o show que daria na noite de réveillon
com o hematoma na testa e os arranhões nas coxas que tinha ao dar
entrada na clínica.
Entre
os que acompanhavam de perto sua luta para se livrar da dependência
de drogas, havia a preocupação com uma recaída. O
temor aumentou durante um ensaio com sua banda na tarde de sexta-feira,
num estúdio na Tijuca, na Zona Norte. Mal-humorada, Cássia
estava indócil, agitada. A certa altura, abriu uma garrafa de cerveja.
Criou-se um mal-estar. As seis horas de ensaio foram um suplício
para os músicos, que também sentiam a carga dos 95 shows
que fizeram entre maio e dezembro em todo o país. "O ensaio não
rendeu, o cansaço pesou", conta o baterista João Viana,
integrante da banda de Cássia há três anos. Apesar
do clima ruim, a cantora ficou até o final e foi para casa acompanhada
da percussionista Elaine Moreira, a Lan Lan. A essa altura, já
era evidente que havia algo errado. Mas, segundo a versão de Lan
Lan, Cássia preferiu passar a noite sozinha, depois de quebrar
os telefones fixos.
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"Eu
não achava que precisava cheirar para cantar, mas ia de onda,
tinha bastante e sempre mandava uma. Era o frisson da galera, todo
mundo ia."
"Fumei
meu primeiro baseado aos 20 anos, cocaína foi com 25. Resisti
por muito tempo, mas quando comecei a cantar foi uma perdição
total. Cantava em dois bares, ganhava umas drogas de presente."
Divulgação
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"Eu embalava dois, três dias sem parar. Aí deu
um clique,
fiquei pirada com
a história. Meu problema hoje é que bebo,
entorno uma cana. Eu gosto de birita."
"Adoro ser mulher. É que brinco com o comportamento das pessoas,
gosto do machismo. Adoro imitar bofe! Passa uma mulher e eu falo
'Gostosa', ou então coço o saco. Não sou de
pegar menina assim, mas
às vezes falo só para sacanear: 'E aí, gata?'"
"Sou espada."
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De manhã, começou a última e mais terrível
parte do drama de Cássia Eller. Logo cedo, ela ligou do celular
para Lan Lan pedindo ajuda. A percussionista chegou de carro ao apartamento
da cantora, acompanhada pela amiga e companheira de banda Thamyma Brasil.
As duas decidiram levar Cássia para dar uma volta de carro, ainda
segundo a versão de Lan Lan. No meio do caminho, a cantora começou
a se desesperar, com fortes dores e vômitos, e foi levada para a
clínica Santa Maria, um hospital pequeno e modesto, distante cerca
de 2 quilômetros de sua casa. Chegou por volta do meio-dia e topou
com a sala de espera cheia. Assustada, recusou-se a entrar e voltou correndo
para o carro. A vizinhança acompanhava das janelas seu choro convulsivo.
O médico Marcelo Heringer, 31 anos, um dos sócios da clínica,
tirou o jaleco e foi tentar convencê-la a voltar. Sentaram-se na
calçada. Cássia, enfim, aceitou entrar no hospital.
A cantora foi submetida a um eletrocardiograma, que não mostrou
anormalidade. Já a contagem de enzimas, um exame de sangue que
detecta a morte de tecido muscular cardíaco, apresentou pequena
alteração. Às 13h30, quando ainda estava em observação,
Cássia teve a primeira parada cardíaca e iniciou uma luta
pela vida que só terminaria às 19h05. O atendimento que
recebeu seguiu o padrão utilizado nos casos de intoxicação
por drogas em doses acima do suportável pelo organismo, a chamada
overdose. Os médicos ministraram atropina, lidocaína e bicarbonato
de sódio. Pela ordem, esses medicamentos servem para recuperar
os batimentos cardíacos, normalizar o ritmo do coração
e manter em níveis adequados algumas substâncias que regulam
o pH do sangue. Por volta das 16h30, quando estava sendo preparada para
se submeter a um ecocardiograma, a cantora teve a segunda parada cardíaca.
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 |
| O
relatório prévio do Instituto Médico Legal diz
ter encontrado no braço esquerdo da cantora "ferida punctória
sugestiva das usadas para acesso a vaso superficial". Tanto pode ser
uma injeção tomada na clínica ou uma evidência
de que a cantora estava se injetando drogas. O laudo toxicológico
deverá eliminar as dúvidas |
O
que se seguiu foi um horror. Toda a equipe médica, a essa altura
formada por dez pessoas, espremeu-se em um dos boxes do CTI da clínica,
num espaço de não mais de 10 metros quadrados. Por 25 minutos,
os profissionais revezaram-se no esforço de fazer o coração
da cantora voltar a funcionar. Fizeram massagens cardíacas, deram
choques e ministraram novos medicamentos. Foi um período longo
demais para uma pessoa da idade de Cássia. Com quase meia hora
de parada cardíaca, o coração entra em sofrimento
e praticamente não há esperança de reversão
do quadro. Tecnicamente, não se podia fazer mais nada. Cássia,
porém, mais uma vez resistiu. Naquele momento, os médicos
já haviam constatado uma obstrução arterial no braço
esquerdo da cantora. Das três artérias, apenas uma funcionava
mesmo assim, de maneira sofrível. Se ela sobrevivesse, provavelmente
teria seqüelas naquele braço. A situação era
tão delicada que um angiologista (especialista em sistema vascular)
foi chamado, mas não houve tempo. Às 7 da noite a cantora
sofreu a terceira e última parada cardíaca.
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 |
| Transcrição
do depoimento do cardiologista Luna à polícia: ele atendeu
a cantora e descreveu seu quadro clínico como "compatível
com o uso de substância tóxica exógena",
o jargão médico para ingestão de drogas, que
no caso de Cássia Eller pode ter ocorrido em níveis
acima do limite tolerável |
A
reconstituição dos passos dos médicos e a descrição
do comportamento de Cássia voz pastosa e aparente confusão
mental reforçam a suspeita de que ela foi vítima
de uma overdose de cocaína misturada a álcool e medicamentos.
Essa foi a hipótese levantada pelo médico Rafael Luna, ex-presidente
da Sociedade Brasileira de Cardiologia, que chegou à clínica
pouco antes da segunda parada cardíaca de Cássia, chamado
pelo empresário da cantora, Ronaldo Villas. Em seu depoimento à
polícia, Luna sustenta essa possibilidade. São fortes os
indícios de que ela vinha se injetando drogas. O braço esquerdo
apresentava sinais de enrijecimento devido a um processo de cicatrização
de picadas antigas e trazia marcas de picadas novas. A dose letal pegou
a cantora justamente quando ela vivia o melhor momento da carreira, aliando
o reconhecimento da crítica e a adoração do público
a um faturamento que chegava a 70.000 reais por mês.
Cássia Eller nunca escondeu que era usuária de drogas. Sua
preferida era a cocaína, que consumiu durante mais de dez anos.
Numa de suas últimas entrevistas, concedida à revista IstoÉ
Gente menos de duas semanas antes de sua morte, a cantora abordou
o assunto. "Eu cheirava muita cocaína. Parei total, graças
a Deus. Fiquei um tempo sem beber também, e isso me fez bem. Não
foi nem exatamente por causa do Chicão que parei, meu corpo não
estava mais agüentando. Durante a gravidez parei porque, milagrosamente,
enjoei de cigarro, café, maconha, de tudo. Cocaína, então,
lógico. Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão
nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra." Cássia
contou também que resolveu largar o vício apenas em 1999,
quando entrou num spa para desintoxicação. "Naquela época,
eu embalava três dias seguidos. Meu corpo não estava agüentando
mais." A cantora saiu da clínica pensando estar livre da cocaína.
Disse na mesma entrevista que se considerava curada da dependência
da droga e que seu único vício, agora, era o álcool.
"Eu gosto de birita", declarou, ignorando que um dependente químico
não pode beber. Embora tímida, sempre foi franca. Achava
que havia muita hipocrisia no meio musical em relação ao
assunto drogas. A substituta de Rita Lee no papel de roqueira número
1 do Brasil considerava que os artistas deveriam tratar do assunto sem
falsidades nem tabus. Bem no alvo. Mortes por overdose de artistas nos
Estados Unidos e na Inglaterra são seguidas de discussões
honestas sobre seu estilo de vida. Ninguém tenta esconder as circunstâncias
das mortes, e os exemplos são freqüentemente citados pelos
próprios artistas como alerta para o fato de que as drogas realmente
matam. Grandes astros da música pop morreram por consumo excessivo
de drogas. Jimi Hendrix, o maior guitarrista da história do rock,
intoxicou-se com uma mistura de barbitúricos e álcool, em
1970. A cantora Janis Joplin, um dos modelos de Cássia Eller, morreu
de overdose de heroína, mais ou menos na mesma época em
que Hendrix teve sua carreira encerrada precocemente.
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