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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
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Chá entre os imortais

"Se eu fosse da ABL, fundaria uma ala
tradicionalista radical. Agora falam até
em eleger Paulo Coelho para dar 'projeção
internacional' à casa"

Academia Brasileira de Letras. Chá de fim de ano. É a única circunstância em que comparecem esposas e viúvas dos imortais, embora seja estranho pensar que imortais possam ter viúvas. Zélia Gattai é obrigada a se desdobrar, sendo, ao mesmo tempo, imortal e recente viúva de imortal. Arnaldo Niskier, ex-presidente da ABL, é o Virgílio que me conduz por esses círculos infernais, apresentando-me seus colegas e revelando-me os pecados literários que cada um cometeu ao longo da vida. Muito prazer, Antonio Olinto. Muito prazer, Carlos Heitor Cony. Muito prazer, Celso Furtado.

Se Arnaldo Niskier é meu Virgílio, Nélida Piñon só pode ser minha Beatriz. É ela quem senta ao meu lado e manda o garçom servir o ótimo bolo inglês introduzido em seu período de presidência. É ela quem, para quebrar o gelo, começa a falar da partida do Flamengo. É ela quem primeiro elogia meus artigos. Aliás, nunca recebi tantos elogios quanto na ABL. Difícil entender o motivo. Pelas minhas contas, falei mal das obras de nove imortais nos últimos anos. Ou me elogiam sem nunca me ter lido, ou secretamente detestam uns aos outros, ou fizeram tantos falsos elogios para chegar aonde estão que já não sabem fazer outra coisa. O único rebelde do grupo é um velhinho trêmulo chamado Oscar Dias Corrêa, ex-udenista, ex-ministro de José Sarney, que, ao saber que escrevo para VEJA, recupera o ardor perdido e promete dar uns cascudos num repórter que acusou seu filho de perfurar poços artesianos no Nordeste com dinheiro público.

Em menos de meia hora, me enturmo e viro amigo fraterno de Carlos Nejar, Ivan Junqueira e Alberto da Costa e Silva. Mostram-me a biblioteca de Manuel Bandeira e presenteiam-me os tomos publicados pela ABL em 2001. Há muitos títulos que genuinamente me interessam. Só não sei por que não podem ser publicados por editoras comerciais, sem usar verbas do Estado. A ABL recebe 2 milhões de reais por mês. Meus novos amigos tentam me convencer de que o dinheiro é bem gasto, em atividades culturais, e que a imagem caricatural da ABL como um antro de conchavistas e politiqueiros é injusta. Meus novos amigos querem desfazer os lugares-comuns a respeito da ABL. Querem dar-lhe novo brilho, rejuvenescê-la. Ainda que à custa de artifícios como tintura para os cabelos, aplicada generosamente por boa parte dos acadêmicos.

Depois do chá, fui embora, cabisbaixo, melancólico. Eu tinha uma certa simpatia pela velha ABL, aquela em que ninguém sentia a necessidade de mostrar serviço e as mulheres não eram admitidas. Se eu pertencesse à ABL, fundaria uma ala tradicionalista radical. Acho que as hostes renovadoras estragaram seus encantos. Falam até em eleger Paulo Coelho para a vaga de Roberto Campos, a fim de dar "projeção internacional" à casa, desrespeitando os preceitos de um de seus membros mais ilustres, Afrânio Peixoto, para quem "vulgaridade é crime". Visitei a ABL com a esperança de que me desse a reconfortante sensação de que certas coisas vão continuar sempre iguais. Não foi o que aconteceu. Os imortais agora se preocupam com sua projeção internacional e, pior ainda, com as opiniões de um simples colunista de VEJA.

 

 
 
   
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