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O risco da crendice
Diretor de ONG americana que combate as superstições diz que vivemos uma era de irracionalismo e que acreditar em tudo pode ser perigoso |
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"Pode
parecer inofensivo acreditar em espíritos ou telepatia. Não
é. Quem acredita nisso pode acreditar em qualquer coisa"
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Holly Freedman![]() |
O psicólogo americano Michael Shermer dedica-se há nove anos ao que considera uma cruzada: em defesa do pensamento científico, ele combate superstições, crendices e mitos. Suas armas são palestras que faz pelos Estados Unidos, cursos no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), participações em programas de televisão e de rádio e sete livros sobre o assunto. O último deles, Fronteiras da Ciência: onde o que Faz e o que Não Faz Sentido Se Encontram, foi lançado no ano passado nos Estados Unidos. Shermer é diretor da Sociedade dos Céticos, uma espécie de ONG que tem entre os simpatizantes cientistas do calibre do paleontólogo Stephen Jay Gould, um dos principais escritores de divulgação científica do mundo. Colunista da revista Scientific American, ele mantém um site na internet dedicado a desmascarar charlatães. Quando não está debatendo com crédulos de todos os matizes ou escrevendo livros, Shermer se dedica a outras tarefas não menos desgastantes. É apaixonado por corridas e enduros de bicicleta e participante assíduo de competições como a Race Across America, que cruza os Estados Unidos de ponta a ponta.
Veja
Por que o senhor afirma que estamos vivendo um momento de irracionalismo?
Shermer
Nós
somos menos crédulos e supersticiosos do que eram as pessoas há
500 anos. A história é outra se compararmos com 25 anos
atrás. O irracionalismo só tem aumentado. Pesquisas mostram
que cada vez mais se acredita em astrologia, experiências extra-sensoriais,
bruxas, alienígenas e discos voadores, na existência da Atlântida.
Há uma lista enorme de coisas absurdas. O espantoso é que
não são apenas os lunáticos que crêem nessas
coisas. Muita gente com bom nível de educação também
cai nessa. São crenças pegajosas, que se fixam de forma
muito mais forte do que podemos imaginar.
Veja
Por que isso acontece?
Shermer
O irracionalismo tem aumentado principalmente por culpa da comunicação
de massa e da internet. As pessoas que vivem da exploração
dessas crenças são hábeis na exploração
desses recursos. Usam técnicas de vendas como telemarketing, anúncios
e promoções. As religiões tradicionais vêm
perdendo muito espaço nos últimos anos, o que tem deixado
um campo aberto para crenças alternativas como paranormalidade
e cultos da nova era.
Veja
Não é paradoxal que isso aconteça no momento em
que o conhecimento e a ciência sejam tão difundidos?
Shermer
A explicação é simples. As pessoas procuram crenças
que as consolem, coisa que a ciência não faz. É mais
fácil acreditar em crendices e superstições que na
ciência. As pessoas querem respostas para questões de cunho
moral, que a ciência não tem como responder. Nós não
devemos esquecer que todos os seres humanos, entre eles os cientistas
e os céticos, querem ter uma vida melhor. Sob esse ponto de vista,
é difícil resistir ao canto de sereia do misticismo.
Veja
O que o senhor acha do enorme sucesso no Ocidente de orientalismos
como o feng shui, a doutrina chinesa que propõe o uso da decoração
e da arquitetura para reequilibrar a energia das pessoas?
Shermer
As pessoas estão tentando dar sentido às coisas a sua volta.
Querem botar ordem num caos que não conseguem compreender. Coisa
parecida acontece entre as tribos animistas da Amazônia. Os índios
crêem que o mundo está repleto de espíritos e forças
que ajudam a arrumar esse caos e tratam de invocá-los como podem.
É claro que os brasileiros que vivem nas grandes cidades não
levam a sério o animismo dos ianomâmis e provavelmente ririam
dos pajés se os vissem tentando arrancar os encantamentos e os
espíritos que eles acreditam ser a causa das doenças. Na
verdade, essas crenças dos povos primitivos têm tanto fundamento
científico quanto as bobagens oferecidas pelos pajés do
feng shui.
Veja
O senhor poderia enumerar algumas dessas crenças que foram moda
nos últimos anos e logo depois abandonadas como charlatanices?
Shermer
Todos se lembram dos famosos biorritmos, aquela história de que
era possível usar os ciclos do corpo que se repetem em ritmos regulares
para traçar previsões sobre a carreira, a vida amorosa e
o futuro financeiro de uma pessoa. Muita gente ganhou fortunas com isso
e hoje ninguém mais toca no assunto. Outra bobagem foi o Triângulo
das Bermudas. Dizia-se que era um lugar onde navios e aviões desapareciam
misteriosamente. Há ainda o poder das pirâmides, que se acreditava
capaz de conservar comida, afiar facas e até aumentar a potência
sexual. É bobagem pura, que ninguém mais leva em consideração.
Há também as cirurgias psíquicas nas Filipinas e
na América do Sul, mas já são menos freqüentes.
Foram desmoralizadas depois que mágicos demonstraram a facilidade
com que se produzem os truques ditos paranormais.
Veja
O que o senhor pensa de quem acredita em duendes e bruxas?
Shermer Adultos
crêem nisso pela mesma razão por que acreditam no feng shui.
O ser humano é um bicho que se senta em torno da fogueira e conta
histórias. E com isso adquire experiência para enfrentar
o mundo. É assim desde os tempos das cavernas. Ocorre que, com
a diversidade de culturas, os povos fazem isso numa miríade de
formas, chamando as forças animistas de diferentes nomes. Duendes
e bruxas são dois entre milhares deles. O que importa é
que por baixo de todos esses nomes está a crença nas superstições
e a necessidade de explicar o mundo de forma mágica.
Veja
Como o senhor justifica a vantagem do pensamento científico
sobre o obscurantismo?
Shermer A
ciência é o único campo do conhecimento humano com
característica progressista. Não digo isso tomando o termo
progresso como uma coisa boa, mas sim como um fato. O mesmo não
ocorre na arte, por exemplo. Os artistas não melhoram o estilo
de seus antecessores, eles simplesmente o mudam. Na religião, padres,
rabinos e pastores não pretendem melhorar as pregações
de seus mestres. Eles as imitam, interpretam e repetem aos discípulos.
Astrólogos, médiuns e místicos não corrigem
os erros de seus predecessores, eles os perpetuam. A ciência, não.
Tem características de autocorreção que operam como
a seleção natural. Para avançar, a ciência
se livra dos erros e teorias obsoletas com enorme facilidade. Como a natureza,
é capaz de preservar os ganhos e erradicar os erros para continuar
a existir.
Veja
Acreditar em superstições é um comportamento
de risco?
Shermer
A maior parte das pessoas pensa que acreditar em espíritos ou telepatia
é inofensivo. Não é. Por uma razão simples:
quem acredita em coisas para as quais não existe nenhuma evidência
pode acreditar em tudo. Da mesma forma que o consumo de maconha pode levar
à heroína, crenças simplórias em fantasmas
e discos voadores podem levar a outras mais perigosas.
Veja
Como é possível separar o que é ciência
do que é pseudociência?
Shermer
É uma tarefa complexa. Eu adoto um modelo para definir, de um lado,
a ciência consagrada e, de outro, a pseudociência. Entre ambas
há uma zona cinza, fronteiriça. Nessa região ficam
linhas de pesquisas feitas por profissionais sérios, perscrutadas
por publicações científicas de prestígio,
mas que têm objetos de estudo um tanto quanto exóticos. Podem,
de um momento para outro, cair tanto para o lado da ciência quanto
para o da crendice. Na área cinzenta estão a busca de vida
fora da Terra, a acupuntura e teorias econômicas, como o socialismo.
Na área da não-ciência estão a astrologia,
a negação do holocausto e a ufologia.
Veja
A exploração de crendices é um grande negócio.
O senhor tem como avaliar o dinheiro que isso movimenta?
Shermer
Ninguém sabe exatamente quanto se movimenta nesse mercado que envolve
milhares de formas de ganhar dinheiro. Só os medicamentos alternativos
rendem dezenas de bilhões de dólares por ano. Assim, se
considerarmos todas as categorias juntas, eu calcularia o lucro da pseudociência
em 1 trilhão de dólares por ano. Temos de lembrar ainda
que essa fonte de ganho se torna ainda mais tentadora quando se trata
de religiões e seitas isentas de impostos.
Veja
Por que esse é um negócio para o qual parece não
existir fronteiras?
Shermer
As pessoas gostam de acreditar que as coisas não acontecem por
si mesmas, mas por alguma razão ou motivo. Uma pesquisa mostra
que um dos motivos de as pessoas acreditarem em Deus é o fato de
que o mundo é tão bonito e o universo segue mecanismos tão
delicados que seria impossível não existir um criador para
tudo isso. Esse é, de certa forma, um pensamento baseado em conhecimento
científico, nas relações de causa e efeito. Precisamos
levar em conta que nem sempre há motivos ou explicações
para tudo o que queremos.
Veja
Alguns cientistas tentam entender o poder da fé e das orações
na cura de doenças. O que o senhor acha desses estudos?
Shermer
Eles são falhos por três razões primárias.
A primeira: não há como comprovar cientificamente se as
pessoas estudadas têm fé ou se estão rezando. Elas
dizem que têm, e ponto final. Segunda: muitos desses estudos não
avaliam variáveis importantes como idade, sexo, situação
socioeconômica, condições físicas, fatores
que poderiam contribuir para outros resultados. E, por último,
a maioria dos resultados de um estudo desses não pode ser repetida.
As variáveis de análise são tão subjetivas
que um estudo jamais terá o resultado semelhante ao de outro. Ou
seja, essas pesquisas não são nem um pouco confiáveis.
Veja
Por que uma das mais populares práticas místicas gira
em torno de pessoas que se propõem a conversar com os mortos ou
realizar curas com a ajuda deles?
Shermer
Porque a morte é um problema crucial para o homem. Todos nós
queremos acreditar que depois dela continuaremos a existir, seja na forma
que for. Os médiuns que convencem as pessoas de sua capacidade
de falar com os mortos validam as crenças de que de fato há
vida após a morte. Também oferecem um alento em meio à
tristeza da perda de uma pessoa amada. É confortante crer que o
falecido está em um lugar acessível com a ajuda da mediunidade.
Veja
O fato de ajudar as pessoas a superar a dor da perda não
valida essas práticas?
Shermer
Aqueles que exploram a dita mediunidade não estão ajudando
ninguém. São oportunistas que se aproveitam da emoção
de pessoas fragilizadas. A melhor forma de superar a morte é encará-la
de cabeça erguida. A morte é uma parte da vida, e fingir
que o morto pode falar em estúdios de TV ou salas escuras por intermédio
de pessoas que cobram por seus serviços é um insulto à
inteligência dos que estão vivos.
Veja
O senhor acha possível acreditar no sobrenatural e ao mesmo
tempo estar a salvo de charlatães?
Shermer
O problema de acreditar em superstições é que a maioria
das pessoas que crê em uma delas acredita também em todas
as outras. As crendices estão fortemente relacionadas. Se você
abandona a capacidade crítica de pensar cientificamente, pode acreditar
em absolutamente tudo.
Veja
Mas há pessoas que acreditam em astrologia e também
na teoria da evolução proposta por Charles Darwin.
Shermer
A maioria das pessoas tem um modo de raciocínio em que mantém
as crenças de forma isolada. Seria como se o cérebro fosse
composto de uma série de compartimentos a vácuo, com cada
uma dessas coisas guardada de maneira a não se misturar.
Veja
O senhor acha que as pessoas que acreditam em coisas estranhas são
propensas ao fanatismo religioso?
Shermer
Não acho que seja assim. As pessoas crédulas acreditam em
muitas coisas, isso para não dizer que crêem em qualquer
coisa. Para ser fanático é preciso uma crença fortíssima
em uma única coisa.
Veja
O que o senhor diz a uma pessoa que acredita em vida após a
morte quando ela lhe pergunta se isso é verdade?
Shermer
Nós temos a obrigação de falar a verdade em todas
as ocasiões, a todas as pessoas, sejam elas adultos ou crianças.
Não há nenhuma evidência de que exista de fato vida
após a morte. A questão é falar isso de uma forma
amigável e ponderada e mostrar que é possível levar
a vida em plenitude. Elas irão entender que não há
grandes problemas em ser cético.
Veja
O que levou o senhor a se envolver numa cruzada contra as crendices?
Shermer
É simples. Eu sou um homem que acredita na ciência. Meu sonho
é ver nossa espécie sobreviver a nossas limitações
e sair deste planeta, procurar outras estrelas parecidas com o Sol e partir
para outras galáxias. O obscurantismo limita nossa capacidade de
ousar e de superar nossas limitações. Sem a ciência
não existe crescimento cultural ou material de uma sociedade.
Veja
O senhor tem algum tipo de crença religiosa?
Shermer
Eu me defino como um agnóstico, uma pessoa que acredita naquilo
que pode ser comprovado. Citando o biólogo Thomas Huxley, parceiro
de Darwin e pai do agnosticismo, sou daqueles que acreditam em Deus como
um problema insolúvel.
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