Edição 1 627 - 8/12/1999

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Agruras e rancores

Uma biografia de Benjamin Constant revela
uma trajetória e uma mente atormentadas

Roberto Pompeu de Toledo


Benjamin Constant:
sofrimento no
Paraguai, êxito no
golpe da República

Quem subverteu quem? Foi o velho professor da Escola Militar que, com sua pregação, instigou os alunos ao levante da proclamação da República? Ou, ao contrário, foram os alunos que empurraram o mestre à empreitada de 15 de novembro de 1889, alunos cujo natural ardor juvenil era potencializado pela exaltação peculiar do momento? Eis uma dúvida, depois da leitura de Benjamin Constant – Vida e História, do historiador Renato Lemos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Topbooks, 572 páginas). O mestre em questão é a figura histórica do título, Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1837-1891), tido (até oficialmente, pois isto está escrito na Constituição de 1891) como o "fundador da República" no Brasil. A historiografia convencional considera que Benjamin Constant, um dos principais apóstolos do positivismo no Brasil, tanto socou na cabeça dos alunos as idéias de fundo laico e cientificista inerentes à doutrina, cujo corolário era a luta pelo progresso e a mudança social, que levou toda uma geração de militares à rebeldia contra o regime monárquico. Já o livro de Lemos conclui que Benjamin Constant não se definiu pela República senão no próprio mês de novembro de 1889. Fica-se com a impressão de que, antes de contagiar, teria sido contagiado pela febre dos alunos, formados numa quadra em que o Exército, fortalecido pela vitória na Guerra do Paraguai, reivindicava espaços maiores na vida nacional.

Trata-se, diga-se desde logo, de livro muito bom. Ao traçar a biografia de Benjamin Constant, Lemos apresenta uma panorâmica da vida brasileira da segunda metade do século passado. São preciosos, em especial, os capítulos dedicados à Guerra do Paraguai e à Proclamação da República. Mas o livro é revelador também pelo que pinta da vida quotidiana dos brasileiros do período, ou pelo menos os brasileiros de classe média, residentes na Corte, como é o caso do biografado – a maneira como se relacionavam com a mulher e os filhos, os empregos que tão duramente disputavam, os salários que ganhavam, em que tipo de casas viviam. Do orçamento doméstico de Benjamin Constant, sempre minuciosamente anotado, constava o "aluguel da escrava". O "fundador da República" era em princípio contra a escravidão. Seja por isso, seja porque não tinha dinheiro para ter escrava própria, alugava a dos outros.

Renato Lemos não escreve para especialistas. É acessível sem deixar de ser rigoroso. Mas cabe ao leitor acompanhá-lo ou não na apreciação do biografado. Ainda que sem exageros, Lemos tende a justificar seu personagem, em características discutíveis como a acumulação incessante de empregos, a procura de boas colocações para os parentes, a adulação dos poderosos. Tudo seria compreensível, em se tratando de alguém golpeado pela má sorte de ter ficado órfão de pai aos 12 anos, mesma época em que a mãe passou a sofrer de distúrbios mentais, e ele virou arrimo de família. Uma interpretação menos favorável mostraria o biografado em permanente exercício de caça ao emprego público e alpinismo social. Com sua pena impiedosa, o paulista Eduardo Prado, o maior crítico do golpe da República e de seus próceres, escreveu que Benjamin Constant era "um general de tribuna (...) cuja estratégia se limita ao problema de ocupar militar e simultaneamente o maior número possível de empregos e fazer, à frente da sua família, incruentas marchas forçadas e ascendentes através dos altos postos".

Pelo menos até a proclamação da República, ocorrida apenas um ano e pouco antes de sua morte, Benjamin Constant considerou-se um injustiçado – pelo país, pelos outros, pela vida. Queixava-se do "caiporismo" que o perseguia – a falta de sorte. Confessava-se portador do que hoje se chamaria de "pé-frio". É constrangedor o tom lamuriento que assume nas cartas. "São quatro anos que desejara que fossem de uma vida feliz para a minha adorada esposa", escreve à mulher, do Paraguai, no aniversário do casamento; "mas vieste ligar a tua vida à de um infeliz como eu..." E, em outra ocasião: "A vida, para nós caiporas, é um verdadeiro pugilato; soco daqui, pontapé acolá; cai agora, levanta logo; procurando sempre vencer ao que chamamos mau destino, é o único meio de ele não esmagar-nos".

Benjamin Constant, dublê de militar e professor, tinha razão em queixar-se numa fase da vida em que, bom matemático, sempre melhor que os adversários, era no entanto derrotado nos concursos para as vagas no magistério em função dos cambalachos. Era uma época em que estava do lado perdedor. Quando, com a República, vira ministro – primeiro da Guerra, depois da Instrução Pública e Correios – , muda de lado, mas não as regras do jogo. Parentes e amigos são premiados com boas colocações. Sucedem-se os trens da alegria. Oficiais merecem promoções relâmpagos e substanciais aumentos de soldo. Um decreto do então ministro da Guerra, Benjamin Constant, justifica os aumentos como "reparação de uma injustiça", não como "remuneração pelos feitos de 15 de novembro", pois tais feitos "tamanhos foram que só podem ser dignamente e honrosamente recompensados se aos fautores da grandiosa revolução não falharem a gratidão dos contemporâneos e das gerações vindouras".

 

Caxias: uma "nulidade",
caracterizada
pela "estupidez
e falta de mérito"

Na Guerra do Paraguai, além das balas do inimigo, da malária, da epidemia de cólera e das moscas – tantas que "não se pode comer sem ser a comida temperada com centenas delas", escreveu à mulher – , ainda tinha a infelicitá-lo a presença do comandante do Exército, o marquês (depois duque) de Caxias. Benjamin Constant odiava Caxias, portador de "uma nulidade estupidamente empoleirada no ponto mais elevado", caracterizado pela "estupidez e falta de mérito". Se Caxias tinha alguma habilidade, era a de comprar o adversário. "General pacificador por excelência, o temos visto sempre em frente ao inimigo ou aos revoltosos, nos últimos paroxismos de sua resistência, já fracos e impotentes, tomar posição a distância respeitosa, com a mão esquerda a acenar-lhes de longe, com a outra mão com as baionetas de que dispuser mas com a bolsa recheada, com o cofre das graças das posições oficiais, com o suborno, com a prostituição."

 

Lula Rodrigues/ Rep. Museu
Histórico Nacional

Deodoro: discussão com
o ministro quase termina
em duelo

O Exército, nessa época, vivia em "miserável e vergonhosa situação". Os generais não prestavam "para coisa alguma". Anos depois, quando as sucessivas badernas nos quartéis a que a benevolência da História apelidou de "questão militar" eram usadas para fustigar o regime, o Exército virou, nas palavras de Benjamin Constant, uma "briosa classe", responsável por "brilhantes páginas (...) escritas nos campos de batalha com armas gloriosamente vencedoras". Eduardo Prado, arrasador como sempre, escreveu que a República foi um "pronunciamiento" pertencente não ao "domínio da história, mas da opereta". O livro de Lemos, lido de certa maneira, lhe dá razão. Vitorioso o golpe, seguiram-se meses de comemorações e homenagens dos golpistas a si mesmos. O país oficial estava tomado pelo "furor politicante, discursante e manifestante", escreveu Prado. A República de opereta atingiu um clímax na reunião ministerial em que, por causa da nomeação de um agente dos Correios no Rio Grande do Sul, Benjamin Constant e o chefe do governo, marechal Deodoro da Fonseca, quase chegam às vias de fato. "O senhor é um traidor!", acusou Deodoro. "O senhor é um marechal de papelão", respondeu Benjamin Constant. Deodoro acabou por convidar o ministro a um duelo, afinal não realizado pela intervenção de terceiros.

Benjamin Constant achava que, com a proclamação da República, havia sido removido "o único e sério obstáculo que se opunha ao progresso real do nosso país". Era um homem nervoso, contraditório, frágil, possivelmente bem-intencionado – e ingênuo, e iludido.