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Agruras
e rancores
Uma
biografia de Benjamin Constant revela
uma trajetória e uma mente atormentadas
Roberto
Pompeu de Toledo
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Benjamin
Constant:
sofrimento
no
Paraguai,
êxito no
golpe
da República
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Quem
subverteu quem? Foi o velho professor da Escola
Militar que, com sua pregação, instigou
os alunos ao levante da proclamação
da República? Ou, ao contrário, foram
os alunos que empurraram o mestre à empreitada
de 15 de novembro de 1889, alunos cujo natural ardor
juvenil era potencializado pela exaltação
peculiar do momento? Eis uma dúvida, depois
da leitura de Benjamin
Constant Vida e História,
do historiador Renato Lemos, professor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (Topbooks, 572 páginas).
O mestre em questão é a figura histórica
do título, Benjamin Constant Botelho de Magalhães
(1837-1891), tido (até oficialmente, pois
isto está escrito na Constituição
de 1891) como o "fundador da República" no
Brasil. A
historiografia convencional considera que Benjamin
Constant, um dos principais apóstolos do
positivismo no Brasil, tanto socou na cabeça
dos alunos as idéias de fundo laico e cientificista
inerentes à doutrina, cujo corolário
era a luta pelo progresso e a mudança social,
que levou toda uma geração de militares
à rebeldia contra o regime monárquico.
Já o livro de Lemos conclui que Benjamin
Constant não se definiu pela República
senão no próprio mês de novembro
de 1889. Fica-se com a impressão de que,
antes de contagiar, teria sido contagiado pela febre
dos alunos, formados numa quadra em que o Exército,
fortalecido pela vitória na Guerra do Paraguai,
reivindicava espaços maiores na vida nacional.
Trata-se,
diga-se desde logo, de livro muito bom. Ao traçar
a biografia de Benjamin Constant, Lemos apresenta
uma panorâmica da vida brasileira da segunda
metade do século passado. São preciosos,
em especial, os capítulos dedicados à
Guerra do Paraguai e à Proclamação
da República. Mas o livro é revelador
também pelo que pinta da vida quotidiana
dos brasileiros do período, ou pelo menos
os brasileiros de classe média, residentes
na Corte, como é o caso do biografado
a maneira como se relacionavam com a mulher e os
filhos, os empregos que tão duramente disputavam,
os salários que ganhavam, em que tipo de
casas viviam. Do orçamento doméstico
de Benjamin Constant, sempre minuciosamente anotado,
constava o "aluguel da escrava". O "fundador da
República" era em princípio contra
a escravidão. Seja por isso, seja porque
não tinha dinheiro para ter escrava própria,
alugava a dos outros.
Renato
Lemos não escreve para especialistas. É
acessível sem deixar de ser rigoroso. Mas
cabe ao leitor acompanhá-lo ou não
na apreciação do biografado. Ainda
que sem exageros, Lemos tende a justificar seu personagem,
em características discutíveis como
a acumulação incessante de empregos,
a procura de boas colocações para
os parentes, a adulação dos poderosos.
Tudo seria compreensível, em se tratando
de alguém golpeado pela má sorte de
ter ficado órfão de pai aos 12 anos,
mesma época em que a mãe passou a
sofrer de distúrbios mentais, e ele virou
arrimo de família. Uma interpretação
menos favorável mostraria o biografado em
permanente exercício de caça ao emprego
público e alpinismo social. Com sua pena
impiedosa, o paulista Eduardo Prado, o maior crítico
do golpe da República e de seus próceres,
escreveu que Benjamin Constant era "um general de
tribuna (...) cuja estratégia se limita ao
problema de ocupar militar e simultaneamente o maior
número possível de empregos e fazer,
à frente da sua família, incruentas
marchas forçadas e ascendentes através
dos altos postos".
Pelo
menos até a proclamação da
República, ocorrida apenas um ano e pouco
antes de sua morte, Benjamin Constant considerou-se
um injustiçado pelo país, pelos
outros, pela vida. Queixava-se do "caiporismo" que
o perseguia a falta de sorte. Confessava-se
portador do que hoje se chamaria de "pé-frio".
É constrangedor o tom lamuriento que assume
nas cartas. "São quatro anos que desejara
que fossem de uma vida feliz para a minha adorada
esposa", escreve à mulher, do Paraguai, no
aniversário do casamento; "mas vieste ligar
a tua vida à de um infeliz como eu..." E,
em outra ocasião: "A vida, para nós
caiporas, é um verdadeiro pugilato; soco
daqui, pontapé acolá; cai agora, levanta
logo; procurando sempre vencer ao que chamamos mau
destino, é o único meio de ele não
esmagar-nos".
Benjamin
Constant, dublê de militar e professor, tinha
razão em queixar-se numa fase da vida em
que, bom matemático, sempre melhor que os
adversários, era no entanto derrotado nos
concursos para as vagas no magistério em
função dos cambalachos. Era uma época
em que estava do lado perdedor. Quando, com a República,
vira ministro primeiro da Guerra, depois
da Instrução Pública e Correios
, muda de lado, mas não as regras
do jogo. Parentes e amigos são premiados
com boas colocações. Sucedem-se os
trens da alegria. Oficiais merecem promoções
relâmpagos e substanciais aumentos de soldo.
Um decreto do então ministro da Guerra, Benjamin
Constant, justifica os aumentos como "reparação
de uma injustiça", não como "remuneração
pelos feitos de 15 de novembro", pois tais feitos
"tamanhos foram que só podem ser dignamente
e honrosamente recompensados se aos fautores da
grandiosa revolução não falharem
a gratidão dos contemporâneos e das
gerações vindouras".
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Caxias:
uma "nulidade",
caracterizada
pela
"estupidez
e
falta de mérito"
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Na
Guerra do Paraguai, além das balas do inimigo,
da malária, da epidemia de cólera
e das moscas tantas que "não se pode
comer sem ser a comida temperada com centenas delas",
escreveu à mulher , ainda tinha a
infelicitá-lo a presença do comandante
do Exército, o marquês (depois duque)
de Caxias. Benjamin Constant odiava Caxias, portador
de "uma nulidade estupidamente empoleirada no ponto
mais elevado", caracterizado pela "estupidez e falta
de mérito". Se Caxias tinha alguma habilidade,
era a de comprar o adversário. "General pacificador
por excelência, o temos visto sempre em frente
ao inimigo ou aos revoltosos, nos últimos
paroxismos de sua resistência, já fracos
e impotentes, tomar posição a distância
respeitosa, com a mão esquerda a acenar-lhes
de longe, com a outra mão com as baionetas
de que dispuser mas com a bolsa recheada, com o
cofre das graças das posições
oficiais, com o suborno, com a prostituição."
Lula Rodrigues/
Rep. Museu
Histórico Nacional

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Deodoro:
discussão
com
o
ministro quase
termina
em
duelo
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O Exército, nessa época, vivia em
"miserável e vergonhosa situação".
Os generais não prestavam "para coisa alguma".
Anos depois, quando as sucessivas badernas nos quartéis
a que a benevolência da História apelidou
de "questão militar" eram usadas para fustigar
o regime, o Exército virou, nas palavras
de Benjamin Constant, uma "briosa classe", responsável
por "brilhantes páginas (...) escritas nos
campos de batalha com armas gloriosamente vencedoras".
Eduardo Prado, arrasador como sempre, escreveu que
a República foi um "pronunciamiento"
pertencente não ao "domínio da história,
mas da opereta". O livro de Lemos, lido de certa
maneira, lhe dá razão. Vitorioso o
golpe, seguiram-se meses de comemorações
e homenagens dos golpistas a si mesmos. O país
oficial estava tomado pelo "furor politicante, discursante
e manifestante", escreveu Prado. A República
de opereta atingiu um clímax na reunião
ministerial em que, por causa da nomeação
de um agente dos Correios no Rio Grande do Sul,
Benjamin Constant e o chefe do governo, marechal
Deodoro da Fonseca, quase chegam às vias
de fato. "O senhor é um traidor!", acusou
Deodoro. "O senhor é um marechal de papelão",
respondeu Benjamin Constant. Deodoro acabou por
convidar o ministro a um duelo, afinal não
realizado pela intervenção de terceiros.
Benjamin
Constant achava que, com a proclamação
da República, havia sido removido "o único
e sério obstáculo que se opunha ao
progresso real do nosso país". Era um homem
nervoso, contraditório, frágil, possivelmente
bem-intencionado e ingênuo, e iludido.
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