Edição 1 627 - 8/12/1999

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Mal cortado pela raiz

Testes genéticos permitem que doenças
sejam tratadas antes mesmo que apareçam

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Daniel Hessel Teich e Pablo Nogueira

Com a assepsia, ao reconhecer que os micróbios existem e causam doenças e por isso é preciso esterilizar mãos e instrumentos, a medicina deu seu maior salto no século passado. A anestesia, que também tem mais de 100 anos, foi outro avanço formidável. Hoje em dia as terapias não mais progridem aos saltos. Os avanços são medidos, localizados e muitas vezes passam despercebidos. Agora a soma de centenas de pequenas descobertas obtidas por milhares de laboratórios de primeira linha em todo o mundo está servindo para impulsionar a medicina pelo próximo século com soluções ainda mais espetaculares do que qualquer outra produzida em eras anteriores. Ao conjunto desses avanços se dá o nome pomposo de "medicina pós-genômica". Não se assuste. É mais simples e eficiente do que parece. Melhor: já chegou a um hospital, laboratório ou clínica perto de você.

 

O que o termo acima significa é que hoje em dia, ao abordar determinadas doenças, os médicos sabem qual é a semente genética que pode explicar sua causa. Sabem onde fica essa raiz do mal e já têm mecanismos para extirpá-la antes mesmo que ela provoque doenças. Estão disponíveis atualmente nos melhores laboratórios brasileiros testes para rastrear nas células sinais genéticos de que as pessoas podem vir a ter infarto, desenvolver câncer de mama ou da tireóide. Um simples exame do DNA mostra se elas têm propensão para sofrer algumas doenças degenerativas dos rins ou mesmo ter trombose. Ao todo são mais de três dezenas de exames que custam entre 200 a 2.780 reais e levam pouco mais de vinte dias para ficar prontos. De posse do resultado, os médicos podem tomar decisões sobre o tratamento com muito mais precisão. Isso nunca ocorreu antes na história da medicina. Tratar doenças anos, até décadas, antes que seus primeiros sinais apareçam é um procedimento inédito. Graças aos formidáveis mecanismos de intercâmbio entre os grandes hospitais dos países industrializados e os centros de excelência da medicina brasileira, esses exames e tratamentos ficam à disposição de pacientes brasileiros quase ao mesmo tempo que são desenvolvidos no exterior.

Apesar de algumas polêmicas que ainda existem entre os cientistas a respeito de sua utilização em larga escala, os testes são uma unanimidade quanto ao poder que têm de prevenir doenças graves. "Estamos evoluindo para uma era em que as doenças serão tratadas antes de eclodirem no organismo ", explica o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. "Não temos ainda idéia completa do impacto que isso terá na sociedade", avalia ele. A preocupação de Pena e de vários colegas se prende a uma questão extremamente delicada, que pode ser resumida na indagação seguinte: vale a pena detectar a semente genética de uma doença grave e incurável que vai atacar alguém daqui a dez ou vinte anos? Alguns pacientes, como vai se ver mais à frente, querem saber se carregam essa espécie de bomba-relógio no coração de suas células mesmo que a doença não tenha perspectiva de cura. Eles querem se preparar.

Sabe-se com certeza hoje que cerca de 1.200 doenças têm causa predominantemente genética. Algumas delas, as que se desenvolvem a partir de mutações em um único gene, têm endereço certo dentro do genoma humano. É o caso de um tipo pouco comum de câncer chamado polipose adenomatosa familiar. Essa doença mortal que ataca o intestino mora num lugar que os cientistas definiram como um conjunto de números e letras racionalmente ordenado. Para achá-la é só seguir em direção ao ponto 5q21/q22, ou cromossomo número 5, trechos q21 e q22. Parece absurdo? Para os cientistas é mais fácil que passear pelo Plano Piloto de Brasília com um guia nas mãos. Lá está o gene APC, cujas mutações levam ao desenvolvimento de células destruidoras na região colo-retal, em velocidade assustadora. É o tumor provocado por uma falha na receita do DNA. Como só acontecia nos filmes de ficção científica, a dona de casa Sônia Derigi, da cidade paulista de São Carlos, convenceu seus médicos a escarafunchar o núcleo de suas células à caça das mutações desse gene. Utilizando os laboratórios do Hospital do Câncer de São Paulo, depois de um ano de pesquisas, os médicos acharam a semente do mal. Eles pesquisaram as vizinhanças do endereço cromossômico mapeado anteriormente.

Liane Neves
A mãe, duas irmãs e a sobrinha
da gaúcha Janete Couto
tiveram câncer de mama.
Ela agora faz testes para saber
se pode desenvolver a doença
Ricardo Benichio
O garoto Lucas Santana teve
o
diagnóstico de distrofia
muscular
de Duchenne
confirmado por teste
genético.
Ele faz fisioterapia para
deter o avanço da doença


Ao saber do resultado do teste, quase igual àquele que os colegas de Uma Thurman usam no filme
Gattaca para selecionar seus pretendentes, Sônia Derigi tomou uma decisão crucial: não teria filhos. A dona de casa do interior, ex-funcionária pública, resolveu não passar para as gerações futuras o câncer que herdou do pai e a levou a remover parte do intestino. "Um filho meu teria 50% de probabilidade de ter a doença. Decidi não arriscar, e minha irmã tomou a mesma atitude", conta Sônia. Na família Derigi, sete pessoas morreram com a doença e outras oito precisaram fazer cirurgias para remover tumores. Se conhecesse as sutilezas de seu código genético há mais tempo, Elecy Avelino Melo Santana, administradora de uma pequena creche na periferia de São Paulo, também teria optado por não ter filhos. Ela só descobriu que era portadora de um defeito genético grave transmitido da mãe para os filhos do sexo masculino quando Lucas, seu filho, começou a desenvolver os primeiros sintomas de um mal irreversível e debilitante chamado distrofia muscular de Duchenne. "Com o resultado do teste na mão, passei a achar que tinha alguma coisa estragada dentro de mim e que acabei passando para outras pessoas", relembra Elecy. "Foi horrível, senti uma culpa enorme." Por enquanto, Lucas só pode contar com as sessões de fisioterapia que freqüenta na Associação Brasileira de Distrofia Muscular, o principal centro especializado nesse tipo de doença no país. "Nossa única expectativa é de que seja criado um remédio para curar esse problema genético", diz a mãe. Deve ser uma espera de pelo menos quinze anos, até que os cientistas tenham dominado uma das várias técnicas para trocar códigos genéticos defeituosos dentro das células.

 

Alexandre Tokitaka
Quatro dos membros da família Derigi que encontraram em suas células o gene responsável por um tipo de câncer de intestino. Sônia
(à direita)
optou por não ter filhos para não transmitir a
doença a gerações futuras


Para diminuir os problemas sofridos por pessoas como Elecy e Sônia, uma nova categoria de médicos começa a ocupar os consultórios acanhados dos grandes centros de pesquisa brasileiros. São os conselheiros genéticos, profissionais especialmente preparados para recomendar exames de DNA e avaliar seus resultados oferecendo apoio ao paciente e sua família. Uma consulta com esse profissional é bastante diferente. Primeiro ele pergunta sobre sinais de doenças nos avós, pais, tios e primos. Depois desenha uma árvore genealógica repleta de sinais como bolinhas, quadradinhos e triângulos na frente de cada nome. Só depois de analisar cuidadosamente seu trabalho, decide se encaminha ou não o paciente ao exame de sangue no qual procurará vínculos genéticos com a doença. Há poucas semanas o estudante Rodrigo de Campos Macedo, de 16 anos, submeteu-se ao exame de DNA no Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo. Ele tem sofrido de dores fortes nas pernas que os médicos acreditam possam ser sinais de algum tipo de distrofia originada numa alteração genética. "Pelo menos não dói tanto quanto as eletromiografias", resume ele, referindo-se ao exame clínico que dá choques na musculatura. Os pais e dois irmãos de Rodrigo também estão sendo testados para identificar a origem das dores e da perda de reflexo que ele vem sofrendo. "Para nós isso é pura novidade", afirma o pai do estudante, Walter Macedo, surpreso com o detalhamento e a abrangência dos exames da USP. Além das análises clínicas e genéticas, os conselheiros se municiam ainda de altas doses de psicologia para dar notícias nem sempre agradáveis. Uma das realidades mais duras que esses especialistas são obrigados a enfrentar é quando não há nada a fazer pelo paciente.

 

Antonio Milena
O estudante Rodrigo, na USP: exames
de DNA para encontrar a origem
das dores nas pernas

Nos Estados Unidos, o país onde mais se avança nas pesquisas genéticas, esse tipo de problema é uma chaga aberta. Presidente de um grupo de apoio a portadores do mal de Alzheimer em Long Island, Janet Walsh ganhou notoriedade e foi parar nas páginas do The New York Times no ano passado. Ela viu seu pai morrer da doença e quis saber se também poderia vir a sofrer desse mal irreversível, que destrói as células do cérebro e leva à demência. Quando quis fazer um teste, durante um estudo clínico na Universidade Duke, na Carolina do Norte, foi preterida porque os responsáveis pela pesquisa se recusavam a aceitar pacientes que ainda não haviam desenvolvido os sintomas. Eles não achavam justo que uma pessoa soubesse antecipadamente que desenvolverá uma doença que os médicos não têm como controlar. Ela insistiu e conseguiu ser aceita como voluntária numa pesquisa do Instituto Nacional de Saúde e do Centro Médico Cornell, em Nova York. Descobriu, aos 42 anos, que tem probabilidade quinze vezes maior do que uma pessoa comum de desenvolver mal de Alzheimer. Ela tem uma mutação no gene APOE4 e já sabe que ao chegar à velhice terá 90% de possibilidade de apresentar sinais de degeneração cerebral. "O resultado foi devastador, mas acabei superando", disse Janet na entrevista ao Times. "Acredito que tenho mais controle sobre minha própria vida e estou muito bem informada sobre todos os avanços no tratamento da doença", afirmou.

Situação inversa vivem as mulheres que querem diagnosticar o câncer de mama. Uma vez detectada a existência da probabilidade genética, é possível se partir para terapias preventivas radicais como as cirurgias ou o uso de drogas recentes como o tamoxifeno, que se tem mostrado eficaz como medicamento preventivo. Nos Estados Unidos, 20% das mulheres que descobrem a mutação nos dois genes relacionados a esse tipo de câncer decidem-se pela cirurgia de extirpação total dos seios. Desde que foram descobertos os genes BRCA1 e BRCA2, há cinco anos, o uso desses testes tem-se popularizado em centros médicos e de pesquisas como a Clínica Mayo, nos Estados Unidos. No entanto, os médicos fazem questão de esclarecer que a cirurgia não significa que o tumor não aparecerá. Também alertam que nem sempre uma paciente que tenha a alteração em apenas um dos genes vai desenvolver a doença. Há pelo menos 15% de chance de que isso não aconteça. "Muitos tipos de câncer ainda não tiveram seus mecanismos decifrados e mesmo o câncer de mama pode ter outros genes envolvidos além do BRCA1 ou do BRCA2", afirma o oncologista Arthur Katz, do Hospital Albert Einstein em São Paulo. "Menos de 10% dos casos de câncer de mama estão ligados a esses genes", diz.

Em Porto Alegre, a oncologista especializada em câncer de mama Maira Caleffi acompanha a evolução dessa doença em oito mulheres de uma mesma família. Curiosamente, apesar de contar com casos gravíssimos da doença em três gerações sucessivas, os especialistas não encontraram mutações no gene BRCA1 de nenhuma das pacientes analisadas. Os estudos começaram a partir do interesse da dona de casa Janete Couto, de 52 anos, pelo teste. Ela nunca teve câncer, mas viu as duas irmãs, a mãe e uma sobrinha sofrer com a doença. Incentivadas pela médica, todas elas fizeram o teste. Agora o grupo se prepara para se submeter ao exame de BRCA2. Terezinha, uma das irmãs de Janete que desenvolveram a doença, tenta convencer suas filhas de 24 e 29 anos a também procurar pelas mutações genéticas, mas elas ainda relutam. "Pelo menos aceitam adotar um padrão de vida mais saudável, com alimentação balanceada e exercícios físicos", conforma-se Terezinha. "Já é alguma coisa."

A engenharia genética cresce em progressão geométrica. As principais revistas relacionadas ao assunto publicam a seqüência completa de pelo menos quatro novos genes a cada mês. Descobre-se gene ligado a praticamente tudo: predisposição para Aids, obesidade, diabetes, olhos castanhos e até mesmo homossexualismo. "É como se tivéssemos na mão a pedra de Rosetta; o que precisamos agora é decifrar os hieróglifos", afirma Andrew Simpson, do Instituto Ludwig de pesquisa sobre o câncer. Na semana passada uma novidade na genética se destacou das demais. Uma equipe de mais de uma centena de pesquisadores publicou na revista Nature um artigo científico sobre o primeiro seqüenciamento completo de um cromossomo humano. Um marco do Projeto Genoma Humano, em que os cientistas conseguiram decifrar a localização exata de 545 genes distribuídos dentro do cromossomo 22.

Esse cromossomo é apenas um dos 23 que existem no núcleo de nossas células e que têm sido exaustivamente estudados por cientistas do mundo inteiro. Analisando-os e decifrando-os, os geneticistas estão conseguindo encontrar as primeiras chaves que regulam complexas reações químicas dentro de nosso corpo. Cada uma dessas estruturas contém uma espécie de receita escrita numa longa fita, o DNA, que regula todo o comportamento das células. Ali estão previstos quais substâncias devem produzir, seus mecanismos de reprodução e como elas vão atuar dentro de cada órgão de nosso corpo. Desde que o genoma humano começou a ser pesquisado, já foram completamente seqüenciados aproximadamente 10.000 genes, ou 10% do total de trechos de DNA com alguma função no corpo humano. Ou seja, conhece-se agora um em cada dez genes. É um número pequeno. Mas quando se leva em conta que o processo apenas engatinha, os resultados preliminares dessa busca são impressionantes.

 

Com reportagem de Rodrigo Vieira da Cunha, de Porto Alegre,
e
José Edward, de Belo Horizonte