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Mal cortado
pela raiz
Testes
genéticos permitem que doenças
sejam tratadas antes mesmo que apareçam
Daniel
Hessel Teich e
Pablo Nogueira
Com
a assepsia, ao reconhecer que os micróbios
existem e causam doenças e por isso é
preciso esterilizar mãos e instrumentos,
a medicina deu seu maior salto no século
passado. A anestesia, que também tem mais
de 100 anos, foi outro avanço formidável.
Hoje em dia as terapias não mais progridem
aos saltos. Os avanços são medidos,
localizados e muitas vezes passam despercebidos.
Agora a soma de centenas de pequenas descobertas
obtidas por milhares de laboratórios de primeira
linha em todo o mundo está servindo para
impulsionar a medicina pelo próximo século
com soluções ainda mais espetaculares
do que qualquer outra produzida em eras anteriores.
Ao conjunto desses avanços se dá o
nome pomposo de "medicina pós-genômica".
Não se assuste. É mais simples e eficiente
do que parece. Melhor: já chegou a um hospital,
laboratório ou clínica perto de você.
O
que o termo acima significa é que hoje
em dia, ao abordar determinadas doenças,
os médicos sabem qual é a semente
genética que pode explicar sua causa. Sabem
onde fica essa raiz do mal e já têm
mecanismos para extirpá-la antes mesmo
que ela provoque doenças. Estão
disponíveis atualmente nos melhores laboratórios
brasileiros testes para rastrear nas células
sinais genéticos de que as pessoas podem
vir a ter infarto, desenvolver câncer de
mama ou da tireóide. Um simples exame do
DNA mostra se elas têm propensão
para sofrer algumas doenças degenerativas
dos rins ou mesmo ter trombose. Ao todo são
mais de três dezenas de exames que custam
entre 200 a 2.780
reais e levam pouco mais de vinte dias para ficar
prontos. De posse do resultado, os médicos
podem tomar decisões sobre o tratamento
com muito mais precisão. Isso nunca ocorreu
antes na história da medicina. Tratar doenças
anos, até décadas, antes que seus
primeiros sinais apareçam é um procedimento
inédito. Graças aos formidáveis
mecanismos de intercâmbio entre os grandes
hospitais dos países industrializados e
os centros de excelência da medicina brasileira,
esses exames e tratamentos ficam à disposição
de pacientes brasileiros quase ao mesmo tempo
que são desenvolvidos no exterior.
Apesar
de algumas polêmicas que ainda existem entre
os cientistas a respeito de sua utilização
em larga escala, os testes são uma unanimidade
quanto ao poder que têm de prevenir doenças
graves. "Estamos evoluindo para uma era em que
as doenças serão tratadas antes
de eclodirem no organismo ", explica o geneticista
Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal
de Minas Gerais. "Não temos ainda idéia
completa do impacto que isso terá na sociedade",
avalia ele. A preocupação de Pena
e de vários colegas se prende a uma questão
extremamente delicada, que pode ser resumida na
indagação seguinte: vale a pena
detectar a semente genética de uma doença
grave e incurável que vai atacar alguém
daqui a dez ou vinte anos? Alguns pacientes, como
vai se ver mais à frente, querem saber
se carregam essa espécie de bomba-relógio
no coração de suas células
mesmo que a doença não tenha perspectiva
de cura. Eles querem se preparar.
Sabe-se
com certeza hoje que cerca de 1.200
doenças têm causa predominantemente
genética. Algumas delas, as que se desenvolvem
a partir de mutações em um único
gene, têm endereço certo dentro do
genoma humano. É o caso de um tipo pouco
comum de câncer chamado polipose adenomatosa
familiar. Essa doença mortal que ataca
o intestino mora num lugar que os cientistas definiram
como um conjunto de números e letras racionalmente
ordenado. Para achá-la é só
seguir em direção ao ponto 5q21/q22,
ou cromossomo número 5, trechos q21 e q22.
Parece absurdo? Para os cientistas é mais
fácil que passear pelo Plano Piloto de
Brasília com um guia nas mãos. Lá
está o gene APC, cujas mutações
levam ao desenvolvimento de células destruidoras
na região colo-retal, em velocidade assustadora.
É o tumor provocado por uma falha na receita
do DNA. Como só acontecia nos filmes de
ficção científica, a dona
de casa Sônia Derigi, da cidade paulista
de São Carlos, convenceu seus médicos
a escarafunchar o núcleo de suas células
à caça das mutações
desse gene. Utilizando os laboratórios
do Hospital do Câncer de São Paulo,
depois de um ano de pesquisas, os médicos
acharam a semente do mal. Eles pesquisaram as
vizinhanças do endereço cromossômico
mapeado anteriormente.
Liane Neves
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A
mãe, duas irmãs e a sobrinha
da gaúcha Janete Couto
tiveram câncer de mama.
Ela agora faz testes para saber
se pode desenvolver a doença
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Ricardo
Benichio
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O
garoto Lucas Santana teve
o diagnóstico
de distrofia
muscular de
Duchenne
confirmado por teste genético.
Ele faz fisioterapia para
deter
o avanço da doença
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Ao saber do resultado do teste, quase igual àquele
que os colegas de Uma Thurman usam no filme Gattaca
para selecionar seus pretendentes, Sônia
Derigi tomou uma decisão crucial: não
teria filhos. A dona de casa do interior, ex-funcionária
pública, resolveu não passar para
as gerações futuras o câncer
que herdou do pai e a levou a remover parte do
intestino. "Um filho meu teria 50% de probabilidade
de ter a doença. Decidi não arriscar,
e minha irmã tomou a mesma atitude", conta
Sônia. Na família Derigi, sete pessoas
morreram com a doença e outras oito precisaram
fazer cirurgias para remover tumores. Se conhecesse
as sutilezas de seu código genético
há mais tempo, Elecy Avelino Melo Santana,
administradora de uma pequena creche na periferia
de São Paulo, também teria optado
por não ter filhos. Ela só descobriu
que era portadora de um defeito genético
grave transmitido da mãe para os filhos
do sexo masculino quando Lucas, seu filho, começou
a desenvolver os primeiros sintomas de um mal
irreversível e debilitante chamado distrofia
muscular de Duchenne. "Com o resultado do teste
na mão, passei a achar que tinha alguma
coisa estragada dentro de mim e que acabei passando
para outras pessoas", relembra Elecy. "Foi horrível,
senti uma culpa enorme." Por enquanto, Lucas só
pode contar com as sessões de fisioterapia
que freqüenta na Associação
Brasileira de Distrofia Muscular, o principal
centro especializado nesse tipo de doença
no país. "Nossa única expectativa
é de que seja criado um remédio
para curar esse problema genético", diz
a mãe. Deve ser uma espera de pelo menos
quinze anos, até que os cientistas tenham
dominado uma das várias técnicas
para trocar códigos genéticos defeituosos
dentro das células.
Alexandre Tokitaka
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Quatro
dos membros da família Derigi
que
encontraram em suas células o
gene
responsável por um tipo de
câncer
de intestino. Sônia
(à direita) optou
por não ter filhos para não
transmitir a
doença a gerações futuras
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Para diminuir os problemas sofridos por pessoas
como Elecy e Sônia, uma nova categoria de
médicos começa a ocupar os consultórios
acanhados dos grandes centros de pesquisa brasileiros.
São os conselheiros genéticos, profissionais
especialmente preparados para recomendar exames
de DNA e avaliar seus resultados oferecendo apoio
ao paciente e sua família. Uma consulta
com esse profissional é bastante diferente.
Primeiro ele pergunta sobre sinais de doenças
nos avós, pais, tios e primos. Depois desenha
uma árvore genealógica repleta de
sinais como bolinhas, quadradinhos e triângulos
na frente de cada nome. Só depois de analisar
cuidadosamente seu trabalho, decide se encaminha
ou não o paciente ao exame de sangue no
qual procurará vínculos genéticos
com a doença. Há poucas semanas
o estudante Rodrigo de Campos Macedo, de 16 anos,
submeteu-se ao exame de DNA no Centro de Estudos
do Genoma Humano da Universidade de São
Paulo. Ele tem sofrido de dores fortes nas pernas
que os médicos acreditam possam ser sinais
de algum tipo de distrofia originada numa alteração
genética. "Pelo menos não dói
tanto quanto as eletromiografias", resume ele,
referindo-se ao exame clínico que dá
choques na musculatura. Os pais e dois irmãos
de Rodrigo também estão sendo testados
para identificar a origem das dores e da perda
de reflexo que ele vem sofrendo. "Para nós
isso é pura novidade", afirma o pai do
estudante, Walter Macedo, surpreso com o detalhamento
e a abrangência dos exames da USP. Além
das análises clínicas e genéticas,
os conselheiros se municiam ainda de altas doses
de psicologia para dar notícias nem sempre
agradáveis. Uma das realidades mais duras
que esses especialistas são obrigados a
enfrentar é quando não há
nada a fazer pelo paciente.
Antonio Milena
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O
estudante Rodrigo, na USP: exames
de DNA para encontrar a origem
das dores nas pernas |
Nos
Estados Unidos, o país onde mais se avança
nas pesquisas genéticas, esse tipo de problema
é uma chaga aberta. Presidente de um grupo
de apoio a portadores do mal de Alzheimer em Long
Island, Janet Walsh ganhou notoriedade e foi parar
nas páginas do The
New York Times
no ano passado. Ela viu seu pai morrer da doença
e quis saber se também poderia vir a sofrer
desse mal irreversível, que destrói
as células do cérebro e leva à
demência. Quando quis fazer um teste, durante
um estudo clínico na Universidade Duke,
na Carolina do Norte, foi preterida porque os
responsáveis pela pesquisa se recusavam
a aceitar pacientes que ainda não haviam
desenvolvido os sintomas. Eles não achavam
justo que uma pessoa soubesse antecipadamente
que desenvolverá uma doença que
os médicos não têm como controlar.
Ela insistiu e conseguiu ser aceita como voluntária
numa pesquisa do Instituto Nacional de Saúde
e do Centro Médico Cornell, em Nova York.
Descobriu, aos 42 anos, que tem probabilidade
quinze vezes maior do que uma pessoa comum de
desenvolver mal de Alzheimer. Ela tem uma mutação
no gene APOE4 e já sabe que ao chegar à
velhice terá 90% de possibilidade de apresentar
sinais de degeneração cerebral.
"O resultado foi devastador, mas acabei superando",
disse Janet na entrevista ao Times.
"Acredito que tenho mais controle sobre minha
própria vida e estou muito bem informada
sobre todos os avanços no tratamento da
doença", afirmou.
Situação
inversa vivem as mulheres que querem diagnosticar
o câncer de mama. Uma vez detectada a existência
da probabilidade genética, é possível
se partir para terapias preventivas radicais como
as cirurgias ou o uso de drogas recentes como
o tamoxifeno, que se tem mostrado eficaz como
medicamento preventivo. Nos Estados Unidos, 20%
das mulheres que descobrem a mutação
nos dois genes relacionados a esse tipo de câncer
decidem-se pela cirurgia de extirpação
total dos seios. Desde que foram descobertos os
genes BRCA1 e BRCA2, há cinco anos, o uso
desses testes tem-se popularizado em centros médicos
e de pesquisas como a Clínica Mayo, nos
Estados Unidos. No entanto, os médicos
fazem questão de esclarecer que a cirurgia
não significa que o tumor não aparecerá.
Também alertam que nem sempre uma paciente
que tenha a alteração em apenas
um dos genes vai desenvolver a doença.
Há pelo menos 15% de chance de que isso
não aconteça. "Muitos tipos de câncer
ainda não tiveram seus mecanismos decifrados
e mesmo o câncer de mama pode ter outros
genes envolvidos além do BRCA1 ou do BRCA2",
afirma o oncologista Arthur Katz, do Hospital
Albert Einstein em São Paulo. "Menos de
10% dos casos de câncer de mama estão
ligados a esses genes", diz.
Em
Porto Alegre, a oncologista especializada em câncer
de mama Maira Caleffi acompanha a evolução
dessa doença em oito mulheres de uma mesma
família. Curiosamente, apesar de contar
com casos gravíssimos da doença
em três gerações sucessivas,
os especialistas não encontraram mutações
no gene BRCA1 de nenhuma das pacientes analisadas.
Os estudos começaram a partir do interesse
da dona de casa Janete Couto, de 52 anos, pelo
teste. Ela nunca teve câncer, mas viu as
duas irmãs, a mãe e uma sobrinha
sofrer com a doença. Incentivadas pela
médica, todas elas fizeram o teste. Agora
o grupo se prepara para se submeter ao exame de
BRCA2. Terezinha, uma das irmãs de Janete
que desenvolveram a doença, tenta convencer
suas filhas de 24 e 29 anos a também procurar
pelas mutações genéticas,
mas elas ainda relutam. "Pelo menos aceitam adotar
um padrão de vida mais saudável,
com alimentação balanceada e exercícios
físicos", conforma-se Terezinha. "Já
é alguma coisa."
A
engenharia genética cresce em progressão
geométrica. As principais revistas relacionadas
ao assunto publicam a seqüência completa
de pelo menos quatro novos genes a cada mês.
Descobre-se gene ligado a praticamente tudo: predisposição
para Aids, obesidade, diabetes, olhos castanhos
e até mesmo homossexualismo. "É
como se tivéssemos na mão a pedra
de Rosetta; o que precisamos agora é decifrar
os hieróglifos", afirma Andrew Simpson,
do Instituto Ludwig de pesquisa sobre o câncer.
Na semana passada uma novidade na genética
se destacou das demais. Uma equipe de mais de
uma centena de pesquisadores publicou na revista
Nature
um artigo científico sobre o primeiro seqüenciamento
completo de um cromossomo humano. Um marco do
Projeto Genoma Humano, em que os cientistas conseguiram
decifrar a localização exata de
545 genes distribuídos dentro do cromossomo
22.
Esse
cromossomo é apenas um dos 23 que existem
no núcleo de nossas células e que
têm sido exaustivamente estudados por cientistas
do mundo inteiro. Analisando-os e decifrando-os,
os geneticistas estão conseguindo encontrar
as primeiras chaves que regulam complexas reações
químicas dentro de nosso corpo. Cada uma
dessas estruturas contém uma espécie
de receita escrita numa longa fita, o DNA, que
regula todo o comportamento das células.
Ali estão previstos quais substâncias
devem produzir, seus mecanismos de reprodução
e como elas vão atuar dentro de cada órgão
de nosso corpo. Desde que o genoma humano começou
a ser pesquisado, já foram completamente
seqüenciados aproximadamente 10.000
genes, ou 10% do total de trechos de DNA com alguma
função no corpo humano. Ou seja,
conhece-se agora um em cada dez genes. É
um número pequeno. Mas quando se leva em
conta que o processo apenas engatinha, os resultados
preliminares dessa busca são impressionantes.
Com
reportagem de
Rodrigo Vieira da Cunha, de
Porto Alegre,
e
José Edward, de
Belo Horizonte
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