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Final trágico
Um
dos maiores banqueiros do mundo,
Edmond Safra morre asfixiado num assalto
Eliana
Simonetti
Foto divulgação
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| Edmond Safra: violência e morte num
dos países mais seguros do mundo |
Uma
tragédia atingiu o clã dos Safra na
semana passada. O mais velho dos irmãos banqueiros,
Edmond Safra, um brasileiro naturalizado, de 68
anos, foi vítima de um assalto em seu apartamento
na cidade de Monte Carlo, no principado de Mônaco.
Conforme se divulgou, dois homens armados com facas
invadiram o prédio na madrugada da última
sexta-feira e esfaquearam um enfermeiro do banqueiro.
O alarme tocou, Safra acionou uma porta blindada
e refugiou-se, com sua enfermeira Viviane Torrent,
no banheiro. Sua mulher, Lily, e Adriana, filha
do primeiro casamento de Lily, ficaram num dos quartos.
Os invasores, aparentemente na tentativa de desalojar
a família dos cômodos, puseram fogo
na cobertura do edifício. Os bombeiros demoraram
três horas para apagar o incêndio. Edmond
e a enfermeira morreram asfixiados pela fumaça.
Sua mulher e a filha escaparam ilesas.
As
razões do ataque estavam sendo investigadas
pela polícia francesa e monegasca no final
da semana. Para todos os que entraram em contato
com o caso, parecia impossível que assaltantes
comuns armados apenas de facas e de uma caixa de
fósforos tivessem conseguido desafiar a fortaleza
de Safra, um dos maiores banqueiros do mundo, conhecido
por seu poder econômico e político,
com influência nos Estados Unidos, no Brasil
e em Israel. Ou que tivessem o objetivo único
de assaltar a casa. Pior, que o atentado acontecesse
justamente em Mônaco, país conhecido
pela segurança que oferece a seus habitantes.
Lá há um policial para cada grupo
de 100 pessoas. Há também um sistema
de câmaras de vídeo, que cobre toda
a superfície do principado de Rainier Grimaldi,
ligado a uma central de segurança. Qualquer
pessoa que se sente na calçada para descansar
é abordada por um policial. Parece exagero,
mas isso é possível porque o país
é um paraíso de riqueza com menos
de 2 quilômetros quadrados de área
(um sétimo do aeroporto internacional de
São Paulo, em Guarulhos). Era sabido que
Edmond Safra vinha recebendo ameaças de morte
havia alguns anos e isso era informado às
autoridades , mas a polícia de Mônaco,
conhecida por ser a mais moderna e eficiente da
Europa, falhou.
O
mistério está aí, à
espera de ser desvendado, e a história é
terrível sob vários aspectos. Edmond
Safra, um dos 200 homens mais ricos do mundo, era
dono de uma fortuna calculada em 2,5 bilhões
de dólares. Judeu de origem libanesa, ele
viveu alguns tempos no Brasil, transferiu-se para
a Europa, depois para os Estados Unidos, aumentando
incessantemente sua fortuna no processo de abrir
e expandir bancos. Trabalhou duro desde os 16 anos
de idade. Mal pôde estudar. Cuidou da família
e do pai doente. Casou-se apenas em 1976, aos 45
anos. Não teve filhos. Quando se casou, decidiu
vender o banco que tinha na Suíça,
manter apenas as operações do Republic
National Bank of New York (seu banco nos Estados
Unidos) e divertir-se um pouco. Mas não conseguiu
relaxar. Foi vítima de uma campanha de difamação,
movida pelos dirigentes do American Express, grupo
americano que comprou seu banco. Notícias
falsas plantadas em pequenos jornais do mundo todo
davam indicações de que Edmond tinha
ligações com o tráfico de drogas.
Ele não agüentou. Fora de si, ligou
para o irmão Joseph, que vive no Brasil.
"Joe, eu prometo, vou lutar contra isso até
a última gota do meu sangue", disse. E lutou
por dez anos. Contratou detetives e advogados e
dedicou-se a perseguir os boateiros até provar
sua inocência e forçar, na Justiça,
a retratação dos executivos do American
Express, que ainda foram condenados a doar 8 milhões
de dólares a instituições de
caridade.
Resolvido
esse problema, Edmond retomou sua vida de banqueiro
bem-sucedido. Montou instituições
financeiras na Europa, nas Américas e no
Oriente Médio. Deu uma festa espetacular,
de dois dias, para comemorar sua volta aos negócios
na Europa, numa vila que tem na Riviera Francesa
chamada La Leopolda. À mansão cercada
por um bosque de laranjeiras, oliveiras e roseirais
com vista para o mar compareceram reis, nobres,
milionários, políticos, empresários
e artistas de todo o mundo. Depois, Edmond fechou-se
em copas. Sentia-se perseguido. Supersticioso, sempre
carregava uma pedra azul no bolso, para afastar
o mau-olhado. Seus carros tinham placas com o número
cinco, considerado por ele de sorte. E raramente
saía de casa. Tanto nos Estados Unidos como
na Suíça e em Mônaco, morava
no topo do prédio onde funcionava a agência
central de seus bancos. Eram casulos blindados para
a segurança do magnata e de seus familiares.
Foi justamente num desses casulos, a pequena distância
do palácio dos Grimaldi, que Edmond morreu
asfixiado. O apartamento de Monte Carlo, um dúplex,
dava vista para o Mar Mediterrâneo.
Fenovil
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A
vila de La Leopolda, na Riviera Francesa,
onde Edmond deu uma festa de dois dias para
comemorar sua volta aos negócios, após
a briga
com o American Express: depois dela, o banqueiro
retirou-se
da vida social
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Sommer Andrey
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Joseph
(à esq.) e Moise Safra:
os banqueiros brasileiros encarregados de manter
a tradição do clã dos Safra
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Os Safra compõem uma família de banqueiros
desde o século XIX. Nos mercados de Aleppo,
uma cidade síria que fica a 50 quilômetros
da fronteira turca, era possível encontrar
no século passado não só o
que havia de mais fino em especiarias, tecidos e
metais preciosos, mas também os melhores
homens de negócios, muitos deles membros
de uma das mais renomadas classes mercantis do Oriente
Médio: os judeus halabim. Eles formavam uma
comunidade fechada e unida de comerciantes e empresários
de outros ramos. Os primeiros Safra de que se tem
notícia são dessa época. Os
bisavós de Edmond Safra já eram trocadores
de dinheiro e fornecedores de crédito nesse
mercado. O pai de Edmond, Jacob Safra, fundou o
primeiro banco em 1920, em Beirute. Casou-se com
uma prima, Esther, e teve oito filhos: quatro homens,
Elie, Edmond, Joseph e Moise, e quatro mulheres,
uma delas, Evelyn, mãe do antigo dono do
banco Excel Econômico, brasileiro, Ezequiel
Nasser. As outras três são Gabi, Arlette
e Ughette.
Edmond,
Joseph e Moise seguiram a tradição
familiar. Naturalizados brasileiros, tornaram-se
banqueiros de renome internacional, conhecidos pela
forma extremamente conservadora de administrar os
negócios. Eles sempre privilegiaram os depósitos
e as aplicações seguras, fugindo dos
empréstimos e das operações
arriscadas em bolsas de valores. O conceito de segurança,
para os Safra, consistiu sempre em ter muito dinheiro
disponível no cofre e pouquíssima
papelada.
Os
Safra chegaram ao Brasil em 1951, em busca de um
território tranqüilo. Por essa época,
os problemas sangrentos do Oriente Médio
já começavam a pipocar. O capital
que trouxeram não era pouco, mas a quantia
exata até hoje é um segredo. Eis outra
característica da família: ela sempre
defendeu sua intimidade com unhas e dentes. Os Safra
começaram a vida com um negócio de
importação de materiais de construção.
Depois, montaram uma casa de crédito. Negociaram
títulos cambiais, uma novidade no Brasil
daquela época, até que compraram um
banco, na cidade de Santos, litoral de São
Paulo, e partiram para o que sabiam fazer bem: operar
no mercado financeiro e administrar a fortuna de
patrícios residentes no Brasil. "Patrícios"
é o termo que até hoje Joseph Safra
usa para definir os clientes cujas famílias
têm raízes no Oriente Médio.
Edmond
viveu pouco tempo no Brasil. Logo se mudou para
a Suíça, onde montou seu primeiro
banco, e depois expandiu os negócios para
os Estados Unidos, enquanto os irmãos continuaram
no Brasil, com o Banco Safra. Quando se fala do
conservadorismo dos Safra, pode-se ter a idéia
de que eles são pouco criativos em matéria
de negócios. A idéia é errada.
Para entrar no fechado mercado americano, Edmond
usou um artifício que impressionou os concorrentes.
O ano era 1966. Ele reformara um antigo prédio,
onde funcionava uma loja de chapéus, na Quinta
Avenida, para instalar a sede do Republic Bank of
New York. Conseguiu que o senador Robert Kennedy
cortasse a fita de inauguração do
prédio, mas tinha de encontrar uma forma
de atrair clientes. O que fez? Ofereceu um televisor
em cores a todos os que abrissem uma conta de poupança
em seu banco com pelo menos 10.000
dólares. Em pouco tempo, tornou-se o maior
distribuidor de aparelhos de televisão dos
Estados Unidos. Seu banco ganhou o apelido de "TV
bank". A operação foi bem-sucedida,
mas depois dessa Edmond desistiu de misturar banco
e comércio.
Sua
especialidade sempre foi o ouro. Sabia tanto sobre
o assunto que os bancos do mundo todo nunca abriam
os negócios com o metal antes de consultar
a cotação do dia de Safra. Ele próprio
aplicava em ouro. E seu banco era considerado uma
fortaleza tão segura que instituições
de porte, como o Citibank, deixavam o ouro que tinham
custodiado nos cofres subterrâneos do Republic.
Há
dez anos os médicos descobriram que Edmond
sofria de mal de Parkinson, uma doença degenerativa
do cérebro que, aos poucos, foi provocando
seu afastamento das decisões do banco. A
doença foi um golpe terrível para
a família. Os Safra são muito unidos
e Edmond era tratado como o patriarca do clã.
O problema chegou ao ápice neste ano. Edmond
tinha longos períodos de inconsciência.
Quando voltava a si, conversava com a família
e sofria muito ao perceber seu estado. No início
do ano ele admitiu não ter mais condições
de trabalhar ativamente e decidiu vender suas empresas
ao banco inglês HSBC.
O
negócio foi anunciado como um dos maiores
da história bancária mundial. O Republic
foi vendido por 12,3 bilhões de dólares
com a ressalva de que, durante algum tempo, Edmond
ficaria ligado ao HSBC, para não espantar
os clientes acostumados a seu modo de operar. A
venda foi anunciada em maio. Desde então,
o HSBC ganhou muitos clientes e, claro, perdeu alguns,
leais à família Safra, que preferiram
transferir seu dinheiro para o banco do irmão
de Edmond, Joseph, em Nova York. Tudo parecia correr
bem, mas ainda não havia chegado o momento
em que Edmond seria deixado em paz. Meses depois,
descobriu-se que um gerente de uma pequena agência
da Filadélfia, no interior dos Estados Unidos,
havia dado um golpe pouco antes da venda do Republic.
Alterando extratos de clientes japoneses, ele causou
um prejuízo de 650 milhões de dólares
ao Republic. Ao descobrir a tramóia, o HSBC
reclamou e quis desfazer o negócio. No mês
passado, os irmãos Safra e o banco inglês
entraram num acordo. Edmond abriu mão de
450 milhões de dólares da parte que
lhe cabia na transação para que os
acionistas minoritários do banco não
fossem prejudicados. O restante do rombo foi coberto
pelo seguro.
O
acerto confirmou a fama de correção
e honestidade de Edmond e de seus irmãos.
Religiosos praticantes, eles têm uma linha
moral muito firme. Caminham nessa linha em seu trabalho.
Também são conhecidos por seu trabalho
filantrópico. São responsáveis
pela construção de sinagogas, escolas,
centros comunitários e hospitais por todo
o mundo: Brasil, Grécia, Israel e Estados
Unidos entre eles. São eles os principais
financiadores de uma megaexposição
de arte barroca brasileira que atualmente, em Paris,
comemora os 500 anos do descobrimento do Brasil.
É
possível que a invasão do apartamento
de Safra e sua morte dêem muito trabalho para
a polícia. Há a suspeita de que os
invasores desejavam seqüestrá-lo. Por
isso teriam incendiado a casa, tentando fazer com
que a família saísse. Há outras
suspeitas, como a de que os bandidos pertenceriam
a alguma das máfias que operam na Rússia.
Também é estranho que não houvesse
guardas protegendo Edmond. No momento do ataque,
seu guarda-costas estava ausente. Assim como é
reclusa, a família Safra é preocupadíssima
com sua segurança, o que é compreensível.
Joseph e Moise, os Safra que moram em São
Paulo, são donos do quinto maior banco brasileiro
e assumiram a liderança da família
quando Edmond ficou doente, cercam-se de um pelotão
de agentes afiados. No início, o grupo foi
treinado por agentes do Mossad, o serviço
secreto de Israel. E ainda mantém o mesmo
padrão.
Luiz Claudio Ribeiro
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| Lily
Monteverde Safra, a brasileira mulher de Edmond
que escapou do atentado: a polícia ainda
nao tem pistas dos criminosos |
Isso
não tem evitado que os Safra sejam atacados.
Em 1994, o sobrinho de Edmond e José, Ezequiel
Nasser, foi seqüestrado e permaneceu 75 dias
em cativeiro. No final dos anos 70, o próprio
Edmond passou por apuros. Uma vez, ele e sua mulher,
Lily, foram visitar o gigantesco galpão-sede
da rede de lojas Ponto Frio, no Rio de Janeiro,
da qual Lily é a maior acionista. No meio
da visita, o galpão foi invadido por assaltantes.
Edmond trancou-se na sala de Simon Aluan, o principal
executivo do Ponto Frio, que estava ausente, em
viagem ao Uruguai. De lá, ligou para Aluan.
"E agora, o que eu faço?", perguntou. Aluan
recomendou que ele ficasse quieto, fechado na sala.
Os assaltantes entraram, limparam os cofres do Ponto
Frio e jamais souberam que um dos homens mais ricos
do mundo estava ao alcance de suas mãos.
Isso foi quase vinte anos atrás. Os Safra
ainda não eram tão ricos e o mundo
ainda não tinha se tornado um ambiente tão
arriscado para os bem-sucedidos. Desde aquela época,
o aparato de segurança dos Safra tornou-se
muito sofisticado. Ninguém poderia esperar
que um atentado como o que tirou a vida de Edmond
pudesse vir a ocorrer.
A
morte de Edmond restringe o clã dos Safra
a Joseph, que tem dois filhos homens, um deles trabalhando
em seu banco nos Estados Unidos, e Moise, cujos
dois filhos já trabalham na administração
dos bens da família. Em todos eles corre
o sangue de banqueiro que fez Jacob Safra, o pai
de todos, famoso no Líbano. Jacob conseguia
calcular de cabeça o câmbio das dezenas
de moedas que circulavam na cidade. E tinha um ótimo
tino para aplicações financeiras.
Os olhos dos Safra são como aparelhos de
raio X. Eles não abrem mão de uma
análise convencional da credibilidade do
cliente, mas só confiam mesmo na avaliação
que fazem depois de uma conversa cara a cara, olho
no olho. Pela história de seriedade da família,
a morte de Edmond provavelmente não acarretará
nenhuma ruptura na trajetória de prosperidade
dos Safra. Eles são donos do Safra brasileiro,
de bancos nos Estados Unidos, em Luxemburgo e nas
Bahamas, de uma empresa de telefonia celular em
Israel e de outra em São Paulo (a BCP), de
uma indústria têxtil, de fazendas de
criação de gado e de 28% da Aracruz,
uma das maiores fabricantes de celulose do país.
Terminaram a semana muito abalados, mas têm
ânimo para continuar na batalha.
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