Edição 1 627 - 8/12/1999

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Final trágico

Um dos maiores banqueiros do mundo,
Edmond Safra morre asfixiado num assalto

Eliana Simonetti

Foto divulgação
Edmond Safra: violência e morte num dos países mais seguros do mundo


U
ma tragédia atingiu o clã dos Safra na semana passada. O mais velho dos irmãos banqueiros, Edmond Safra, um brasileiro naturalizado, de 68 anos, foi vítima de um assalto em seu apartamento na cidade de Monte Carlo, no principado de Mônaco. Conforme se divulgou, dois homens armados com facas invadiram o prédio na madrugada da última sexta-feira e esfaquearam um enfermeiro do banqueiro. O alarme tocou, Safra acionou uma porta blindada e refugiou-se, com sua enfermeira Viviane Torrent, no banheiro. Sua mulher, Lily, e Adriana, filha do primeiro casamento de Lily, ficaram num dos quartos. Os invasores, aparentemente na tentativa de desalojar a família dos cômodos, puseram fogo na cobertura do edifício. Os bombeiros demoraram três horas para apagar o incêndio. Edmond e a enfermeira morreram asfixiados pela fumaça. Sua mulher e a filha escaparam ilesas.

As razões do ataque estavam sendo investigadas pela polícia francesa e monegasca no final da semana. Para todos os que entraram em contato com o caso, parecia impossível que assaltantes comuns armados apenas de facas e de uma caixa de fósforos tivessem conseguido desafiar a fortaleza de Safra, um dos maiores banqueiros do mundo, conhecido por seu poder econômico e político, com influência nos Estados Unidos, no Brasil e em Israel. Ou que tivessem o objetivo único de assaltar a casa. Pior, que o atentado acontecesse justamente em Mônaco, país conhecido pela segurança que oferece a seus habitantes. Lá há um policial para cada grupo de 100 pessoas. Há também um sistema de câmaras de vídeo, que cobre toda a superfície do principado de Rainier Grimaldi, ligado a uma central de segurança. Qualquer pessoa que se sente na calçada para descansar é abordada por um policial. Parece exagero, mas isso é possível porque o país é um paraíso de riqueza com menos de 2 quilômetros quadrados de área (um sétimo do aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos). Era sabido que Edmond Safra vinha recebendo ameaças de morte havia alguns anos – e isso era informado às autoridades – , mas a polícia de Mônaco, conhecida por ser a mais moderna e eficiente da Europa, falhou.

O mistério está aí, à espera de ser desvendado, e a história é terrível sob vários aspectos. Edmond Safra, um dos 200 homens mais ricos do mundo, era dono de uma fortuna calculada em 2,5 bilhões de dólares. Judeu de origem libanesa, ele viveu alguns tempos no Brasil, transferiu-se para a Europa, depois para os Estados Unidos, aumentando incessantemente sua fortuna no processo de abrir e expandir bancos. Trabalhou duro desde os 16 anos de idade. Mal pôde estudar. Cuidou da família e do pai doente. Casou-se apenas em 1976, aos 45 anos. Não teve filhos. Quando se casou, decidiu vender o banco que tinha na Suíça, manter apenas as operações do Republic National Bank of New York (seu banco nos Estados Unidos) e divertir-se um pouco. Mas não conseguiu relaxar. Foi vítima de uma campanha de difamação, movida pelos dirigentes do American Express, grupo americano que comprou seu banco. Notícias falsas plantadas em pequenos jornais do mundo todo davam indicações de que Edmond tinha ligações com o tráfico de drogas. Ele não agüentou. Fora de si, ligou para o irmão Joseph, que vive no Brasil. "Joe, eu prometo, vou lutar contra isso até a última gota do meu sangue", disse. E lutou por dez anos. Contratou detetives e advogados e dedicou-se a perseguir os boateiros até provar sua inocência e forçar, na Justiça, a retratação dos executivos do American Express, que ainda foram condenados a doar 8 milhões de dólares a instituições de caridade.

Resolvido esse problema, Edmond retomou sua vida de banqueiro bem-sucedido. Montou instituições financeiras na Europa, nas Américas e no Oriente Médio. Deu uma festa espetacular, de dois dias, para comemorar sua volta aos negócios na Europa, numa vila que tem na Riviera Francesa chamada La Leopolda. À mansão cercada por um bosque de laranjeiras, oliveiras e roseirais com vista para o mar compareceram reis, nobres, milionários, políticos, empresários e artistas de todo o mundo. Depois, Edmond fechou-se em copas. Sentia-se perseguido. Supersticioso, sempre carregava uma pedra azul no bolso, para afastar o mau-olhado. Seus carros tinham placas com o número cinco, considerado por ele de sorte. E raramente saía de casa. Tanto nos Estados Unidos como na Suíça e em Mônaco, morava no topo do prédio onde funcionava a agência central de seus bancos. Eram casulos blindados para a segurança do magnata e de seus familiares. Foi justamente num desses casulos, a pequena distância do palácio dos Grimaldi, que Edmond morreu asfixiado. O apartamento de Monte Carlo, um dúplex, dava vista para o Mar Mediterrâneo.

 

Fenovil
A vila de La Leopolda, na Riviera Francesa, onde Edmond deu uma festa de dois dias para comemorar sua volta aos negócios, após a briga com o American Express: depois dela, o banqueiro retirou-se da vida social

Sommer Andrey
Joseph (à esq.) e Moise Safra:
os banqueiros brasileiros encarregados de manter a tradição do clã dos Safra


Os Safra compõem uma família de banqueiros desde o século XIX. Nos mercados de Aleppo, uma cidade síria que fica a 50 quilômetros da fronteira turca, era possível encontrar no século passado não só o que havia de mais fino em especiarias, tecidos e metais preciosos, mas também os melhores homens de negócios, muitos deles membros de uma das mais renomadas classes mercantis do Oriente Médio: os judeus halabim. Eles formavam uma comunidade fechada e unida de comerciantes e empresários de outros ramos. Os primeiros Safra de que se tem notícia são dessa época. Os bisavós de Edmond Safra já eram trocadores de dinheiro e fornecedores de crédito nesse mercado. O pai de Edmond, Jacob Safra, fundou o primeiro banco em 1920, em Beirute. Casou-se com uma prima, Esther, e teve oito filhos: quatro homens, Elie, Edmond, Joseph e Moise, e quatro mulheres, uma delas, Evelyn, mãe do antigo dono do banco Excel Econômico, brasileiro, Ezequiel Nasser. As outras três são Gabi, Arlette e Ughette.

Edmond, Joseph e Moise seguiram a tradição familiar. Naturalizados brasileiros, tornaram-se banqueiros de renome internacional, conhecidos pela forma extremamente conservadora de administrar os negócios. Eles sempre privilegiaram os depósitos e as aplicações seguras, fugindo dos empréstimos e das operações arriscadas em bolsas de valores. O conceito de segurança, para os Safra, consistiu sempre em ter muito dinheiro disponível no cofre e pouquíssima papelada.

Os Safra chegaram ao Brasil em 1951, em busca de um território tranqüilo. Por essa época, os problemas sangrentos do Oriente Médio já começavam a pipocar. O capital que trouxeram não era pouco, mas a quantia exata até hoje é um segredo. Eis outra característica da família: ela sempre defendeu sua intimidade com unhas e dentes. Os Safra começaram a vida com um negócio de importação de materiais de construção. Depois, montaram uma casa de crédito. Negociaram títulos cambiais, uma novidade no Brasil daquela época, até que compraram um banco, na cidade de Santos, litoral de São Paulo, e partiram para o que sabiam fazer bem: operar no mercado financeiro e administrar a fortuna de patrícios residentes no Brasil. "Patrícios" é o termo que até hoje Joseph Safra usa para definir os clientes cujas famílias têm raízes no Oriente Médio.

Edmond viveu pouco tempo no Brasil. Logo se mudou para a Suíça, onde montou seu primeiro banco, e depois expandiu os negócios para os Estados Unidos, enquanto os irmãos continuaram no Brasil, com o Banco Safra. Quando se fala do conservadorismo dos Safra, pode-se ter a idéia de que eles são pouco criativos em matéria de negócios. A idéia é errada. Para entrar no fechado mercado americano, Edmond usou um artifício que impressionou os concorrentes. O ano era 1966. Ele reformara um antigo prédio, onde funcionava uma loja de chapéus, na Quinta Avenida, para instalar a sede do Republic Bank of New York. Conseguiu que o senador Robert Kennedy cortasse a fita de inauguração do prédio, mas tinha de encontrar uma forma de atrair clientes. O que fez? Ofereceu um televisor em cores a todos os que abrissem uma conta de poupança em seu banco com pelo menos 10.000 dólares. Em pouco tempo, tornou-se o maior distribuidor de aparelhos de televisão dos Estados Unidos. Seu banco ganhou o apelido de "TV bank". A operação foi bem-sucedida, mas depois dessa Edmond desistiu de misturar banco e comércio.

Sua especialidade sempre foi o ouro. Sabia tanto sobre o assunto que os bancos do mundo todo nunca abriam os negócios com o metal antes de consultar a cotação do dia de Safra. Ele próprio aplicava em ouro. E seu banco era considerado uma fortaleza tão segura que instituições de porte, como o Citibank, deixavam o ouro que tinham custodiado nos cofres subterrâneos do Republic.

Há dez anos os médicos descobriram que Edmond sofria de mal de Parkinson, uma doença degenerativa do cérebro que, aos poucos, foi provocando seu afastamento das decisões do banco. A doença foi um golpe terrível para a família. Os Safra são muito unidos e Edmond era tratado como o patriarca do clã. O problema chegou ao ápice neste ano. Edmond tinha longos períodos de inconsciência. Quando voltava a si, conversava com a família e sofria muito ao perceber seu estado. No início do ano ele admitiu não ter mais condições de trabalhar ativamente e decidiu vender suas empresas ao banco inglês HSBC.

O negócio foi anunciado como um dos maiores da história bancária mundial. O Republic foi vendido por 12,3 bilhões de dólares com a ressalva de que, durante algum tempo, Edmond ficaria ligado ao HSBC, para não espantar os clientes acostumados a seu modo de operar. A venda foi anunciada em maio. Desde então, o HSBC ganhou muitos clientes e, claro, perdeu alguns, leais à família Safra, que preferiram transferir seu dinheiro para o banco do irmão de Edmond, Joseph, em Nova York. Tudo parecia correr bem, mas ainda não havia chegado o momento em que Edmond seria deixado em paz. Meses depois, descobriu-se que um gerente de uma pequena agência da Filadélfia, no interior dos Estados Unidos, havia dado um golpe pouco antes da venda do Republic. Alterando extratos de clientes japoneses, ele causou um prejuízo de 650 milhões de dólares ao Republic. Ao descobrir a tramóia, o HSBC reclamou e quis desfazer o negócio. No mês passado, os irmãos Safra e o banco inglês entraram num acordo. Edmond abriu mão de 450 milhões de dólares da parte que lhe cabia na transação para que os acionistas minoritários do banco não fossem prejudicados. O restante do rombo foi coberto pelo seguro.

O acerto confirmou a fama de correção e honestidade de Edmond e de seus irmãos. Religiosos praticantes, eles têm uma linha moral muito firme. Caminham nessa linha em seu trabalho. Também são conhecidos por seu trabalho filantrópico. São responsáveis pela construção de sinagogas, escolas, centros comunitários e hospitais por todo o mundo: Brasil, Grécia, Israel e Estados Unidos entre eles. São eles os principais financiadores de uma megaexposição de arte barroca brasileira que atualmente, em Paris, comemora os 500 anos do descobrimento do Brasil.

É possível que a invasão do apartamento de Safra e sua morte dêem muito trabalho para a polícia. Há a suspeita de que os invasores desejavam seqüestrá-lo. Por isso teriam incendiado a casa, tentando fazer com que a família saísse. Há outras suspeitas, como a de que os bandidos pertenceriam a alguma das máfias que operam na Rússia. Também é estranho que não houvesse guardas protegendo Edmond. No momento do ataque, seu guarda-costas estava ausente. Assim como é reclusa, a família Safra é preocupadíssima com sua segurança, o que é compreensível. Joseph e Moise, os Safra que moram em São Paulo, são donos do quinto maior banco brasileiro e assumiram a liderança da família quando Edmond ficou doente, cercam-se de um pelotão de agentes afiados. No início, o grupo foi treinado por agentes do Mossad, o serviço secreto de Israel. E ainda mantém o mesmo padrão.


Luiz Claudio Ribeiro
Lily Monteverde Safra, a brasileira mulher de Edmond que escapou do atentado: a polícia ainda nao tem pistas dos criminosos

Isso não tem evitado que os Safra sejam atacados. Em 1994, o sobrinho de Edmond e José, Ezequiel Nasser, foi seqüestrado e permaneceu 75 dias em cativeiro. No final dos anos 70, o próprio Edmond passou por apuros. Uma vez, ele e sua mulher, Lily, foram visitar o gigantesco galpão-sede da rede de lojas Ponto Frio, no Rio de Janeiro, da qual Lily é a maior acionista. No meio da visita, o galpão foi invadido por assaltantes. Edmond trancou-se na sala de Simon Aluan, o principal executivo do Ponto Frio, que estava ausente, em viagem ao Uruguai. De lá, ligou para Aluan. "E agora, o que eu faço?", perguntou. Aluan recomendou que ele ficasse quieto, fechado na sala. Os assaltantes entraram, limparam os cofres do Ponto Frio e jamais souberam que um dos homens mais ricos do mundo estava ao alcance de suas mãos. Isso foi quase vinte anos atrás. Os Safra ainda não eram tão ricos e o mundo ainda não tinha se tornado um ambiente tão arriscado para os bem-sucedidos. Desde aquela época, o aparato de segurança dos Safra tornou-se muito sofisticado. Ninguém poderia esperar que um atentado como o que tirou a vida de Edmond pudesse vir a ocorrer.

A morte de Edmond restringe o clã dos Safra a Joseph, que tem dois filhos homens, um deles trabalhando em seu banco nos Estados Unidos, e Moise, cujos dois filhos já trabalham na administração dos bens da família. Em todos eles corre o sangue de banqueiro que fez Jacob Safra, o pai de todos, famoso no Líbano. Jacob conseguia calcular de cabeça o câmbio das dezenas de moedas que circulavam na cidade. E tinha um ótimo tino para aplicações financeiras. Os olhos dos Safra são como aparelhos de raio X. Eles não abrem mão de uma análise convencional da credibilidade do cliente, mas só confiam mesmo na avaliação que fazem depois de uma conversa cara a cara, olho no olho. Pela história de seriedade da família, a morte de Edmond provavelmente não acarretará nenhuma ruptura na trajetória de prosperidade dos Safra. Eles são donos do Safra brasileiro, de bancos nos Estados Unidos, em Luxemburgo e nas Bahamas, de uma empresa de telefonia celular em Israel e de outra em São Paulo (a BCP), de uma indústria têxtil, de fazendas de criação de gado e de 28% da Aracruz, uma das maiores fabricantes de celulose do país. Terminaram a semana muito abalados, mas têm ânimo para continuar na batalha.