Edição 1 627 - 8/12/1999

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Roupas preciosas

Os preços estratosféricos das coleções
de verão que chegam às lojas

Marcelo Camacho

 

Fotos Eduardo Pozella
Q
uando desfilou para a grife Ellus no último MorumbiFashion, em julho passado, a top model inglesa Kate Moss envergou na passarela uma blusinha curta de organza, sem mangas, com um babado na frente. Uma peça sensual, que ilustra um editorial de moda da edição de dezembro da badalada revista americana Harper's Bazaar. Seu preço: 129 reais. Cara, sem dúvida, mas aos olhos das consumidoras, imperdível – a blusa virou objeto de desejo e sumiu das prateleiras. "É um dos itens mais vendidos de toda a história da loja", diz Marcelo Sebá, gerente de comunicação da grife. Não se trata de um comportamento típico, nem é de roupas carésimas que vivem as grifes de luxo. O grosso de seu faturamento está mesmo nos jeans, camisetas e nas sainhas básicas. Mas, entra estação, sai estação, cada uma põe na vitrine seu lote de roupas a preços estratosféricos. Quem vê de fora e não entende nada de moda pensa que ninguém vai pagar tanto por tão pouco. Engano. Seja porque o material é de primeira, seja porque a produção é pequena, seja porque a consumidora quer algo diferente, ou por todas essas coisas juntas, o estoque de um vestidinho beirando os 1.000 reais sempre acaba. E no verão que agora começa a história não é diferente.

A grife paulista Forum, por exemplo, tem à venda um vestido curto de crepe georgette com a estampa da Praia de Ipanema. A peça leve, ideal para ser usada durante o dia, custa 600 reais. Tem saída? Ora, se tem. Da mesma forma, nas lojas da estilista Andrea Saletto, as roupas mais caras acabam primeiro. Neste verão, sua arara exibe um vestido de crepe georgette, estampado com tule bordado a mão, de 1.620 reais. Tem também uma blusa de jérsei, sem mangas, de 720 reais e uma calça de crepe de 840 reais. Todos os tecidos são importados. "A mulher que compra lá entende que os tecidos das roupas também estão nas vitrines das melhores grifes européias", justifica a consultora de moda da marca, Hiluz Del Priori. "De fato, o tecido faz a diferença no preço das roupas", confirma a estilista Maria Cândida Sarmento, dona da Maria Bonita, onde um vestido pode custar até 2.800 reais. "Minhas clientes não precisam de roupas. Já têm muita coisa. Elas vêm aqui atrás de peças diferentes. Quando encontram, pagam o preço", diz.

Exclusividade – Além do tecido, da publicidade, da loja bem decorada, uma ou outra pequena bossa às vezes acrescenta reais ao preço final. A grife Zoomp tem uma camiseta feminina de algodão fininho toda bordada com canutilhos reluzentes. Preço: 201 reais. "É um trabalho feito a mão, que leva muito tempo para ser confeccionado. Jamais poderia produzir essas peças em escala industrial", afirma o empresário Renato Kherlakian, dono da marca. A estilista Lenny Niemeyer, dona da grife de moda de praia Lenny, adota o mesmo lema. "Não vou baratear uma peça e perder a oportunidade de fazer um biquíni que provoque impacto e desperte a fantasia das minhas clientes", diz ela, que tem à venda em suas lojas um biquíni bordado de 107 reais. Lenny só faz 300 desses biquínis por mês. E garante: tem fila de espera.

É caro? Pois pode ser mais ainda. A Rosa Chá oferece um biquíni todo enfeitado de bordados cheios que custa 152 reais. A Salinas tem outro, bordado a mão com pedrinhas coloridas, que custa 98 reais. Claro que, quanto mais alto o preço, menor a quantidade de peças produzidas. Enquanto a Salinas faz, por mês, 2.000 unidades dos modelos mais acessíveis, só fabrica 300 do modelo mais caro. "A cliente que paga caro quer certa exclusividade", diz Jacqueline De Biase, dona da grife. A tal blusinha com a qual Kate Moss desfilou vendeu toda a produção inicial e boa parte da segunda fornada. Agora, está virando artigo raro, e a Ellus não pretende mais produzi-la – justamente para que não se torne uma peça banal. "Se estivéssemos só preocupados em ganhar dinheiro, estaríamos produzindo essa blusa loucamente. Mas nossas clientes não merecem isso", observa Marcelo Sebá. Pelo preço que pagam, não mesmo.

 

Não é bem assim

Luís Gomes
Xales de pashmina: sem novidade

Ao longo de todo este ano, festa chique de verdade – aqui, na Europa, nos Estados Unidos – contou com a leveza, o colorido e o charme dos xales de pashmina. O tecido indiano invadiu o vocabulário da moda, indicando uma lã finíssima, macia como nenhuma outra. Como se chegava a tal primor? Usando, na sua confecção, apenas a penugem recolhida da barriga e do pescoço de filhotinhos de certas cabras do Himalaia. Muito delicado, mas falso. Um professor de ciências têxteis da Universidade de Massachusetts, Kenneth Langley, pôs um pedaço de pashmina no microscópio e decretou: "É cashmere". Nada gravíssimo, visto que cashmere também é uma lã nobre feita de pêlos de cabras do Himalaia. Só que, primeiro, não é novidade – dela vem a casimira dos ternos dos nossos bisavós. Segundo, também é cara, mas não tão cara. Nas butiques brasileiras, enquanto um xale de pashmina custa entre 800 e 1 600 reais, um parecido de cashmere sai pela metade.

Pashmina, tal como é anunciada, é pura jogada de marketing. Langley ri da história dos pescocinhos e barriguinhas doadores. Os indianos, diz ele à revista Newsweek, "recolhem as fibras com um pente quando as cabras trocam de pêlo. Pegam tudo o que podem, e não escolhem lugar". A costumeira mistura da lã com seda nas pashminas, consideram especialistas, pouco acrescenta à sofisticação do xale. Ele fica mais leve, é fato. Mas custa menos para ser produzido, e o lucro do fabricante é maior ainda.