Edição 1 627 - 8/12/1999

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O mal da idade

Lente descartável substitui o interminável
tira-põe dos óculos para vista cansada

Aida Veiga

Ricardo Benichio
Paulo Jares
Hirsch: colecionador dos óculos que Sara (à dir.) abandonou

Só quem chegou aos 40 conhece o drama. Vai ler, põe os óculos. Vai falar com alguém, tira os óculos. Vai ver o preço de um objeto, põe os óculos. Vai até o balcão pagar, tira os óculos. Vai preencher o cheque, põe os óculos. E por aí segue nessa irritante rotina, que ainda por cima reflete como um luminoso o inequívoco sinal de que a idade chegou. Isso, como se sabe, ocorre com quem sofre da chamada "vista cansada", aquela que só enxerga bem o que está longe – cada vez mais longe. De olho nessa legião de descontentes, a Johnson & Johnson acaba de lançar no Brasil uma lente de contato, Acuvue Bifocal, capaz de corrigir a visão de perto. É colocar, usar e trocar a cada duas semanas ou a cada semana, no caso dos mais preguiçosos, que optam por dormir com ela. "Foi a minha alforria", conta Sara Sambursky, 52 anos, gerente de loja no Rio de Janeiro, uma das primeiras a experimentar a novidade. Sara usa a lente há quinze dias, ainda está em fase de adaptação, mas já se sente outra pessoa. "É como se eu tivesse rejuvenescido anos."

A vista cansada, ou presbiopia, seu nome científico, é uma praga da qual ninguém escapa, e o culpado é o músculo que movimenta o cristalino, uma espécie de "lente" natural dentro do olho (veja ilustração). Para ver de longe, o músculo relaxa, diminuindo a curvatura do cristalino. Para ver de perto, o mesmo músculo tem de se contrair, e é aí (até aí!) que a inexorável lei da gravidade se faz sentir. "Tudo cai, até o músculo dos olhos", compara o oftalmologista paulista Marcelo Cunha. O próprio cristalino, conforme a idade avança, vai perdendo a elasticidade. O resultado de tudo isso é a dificuldade de ver de perto, que começa por volta dos 40 anos e atinge seu máximo de perda aos 55, estacionando no limite de 3 graus. "É a conhecida sensação de que os braços ficaram muito curtos", brinca o empresário Heriberto Hirsch, 63 anos, que, para se livrar da depressão de ter de usar óculos, optou por tornar-se colecionador: tem seis pares do tipo antigo (veja quadro ao lado), sem aro nem haste, comprados em antiquários.
 
Preço alto – As lentes que estão sendo lançadas no Brasil são dotadas de cinco anéis invisíveis e concêntricos que focam os objetos de perto e de longe ao mesmo tempo, sem distorções. São muito mais eficientes e sua adaptação é infinitamente mais fácil que um par de lentes convencionais, em que o grau de perto e o de longe ficam na mesma área, dificultando a função do cérebro de selecionar uma imagem. Ganham ainda em praticidade, por ser descartáveis. Em compensação, paga-se bem: uma caixa com três pares, que dura de três a seis semanas, custa 100 reais, enquanto as convencionais não saem por menos de 500 reais e duram um ano. "Mas vale a pena o investimento", afirma a advogada Anita Landecker, 51 anos. Anita, que também tem miopia e usa um segundo par de óculos para longe, tentou lentes bifocais convencionais, mas não se adaptou. Nem lhe passou pela cabeça a cirurgia – as técnicas existentes de recuperação do cristalino são experimentais e seus resultados, controvertidos. Agora está felicíssima com a chegada das lentes descartáveis. "Enfim vou poder aposentar esses óculos, que só uso porque não agüentava mais pedir para meu marido ler o cardápio no restaurante", conta.