Edição 1 627 - 8/12/1999

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Surpresa na festa

Quem comprar espumante brasileiro não vai
fazer feio neste réveillon. É bom e barato

Rodrigo Vieira da Cunha


Clicio
Brinde nacional:
crescimento de quase
50% nas vendas


À
s vésperas do réveillon do milênio, os brasileiros estão descobrindo uma novidade. Os vinhos espumantes da Serra Gaúcha são uma opção respeitável para quem não quer comprometer o orçamento comprando um champanhe francês. A produção desse tipo de bebida aumentou muito na região nos últimos anos, e sua qualidade tem conquistado cada vez mais apreciadores. Os números comprovam o sucesso. No ano passado, as vinícolas brasileiras produziram 3,2 milhões de litros de espumante. Neste ano, a União Brasileira de Vitivinicultura, Uvibra, estima um crescimento de quase 50%. Praticamente todas as vinícolas lançaram alguma garrafa diferente para comemorar a virada do milênio. E a produção está se esgotando. Mesmo a Georges Aubert, que aumentou a produção em 220% em relação ao ano passado, já está com todo o estoque encomendado. "O que havia de espumante brut e demi-sec em nossos tonéis se esgotou há duas semanas", diz Ivo Fontana, sócio da vinícola. Já a Miolo, que vende quase exclusivamente para empresas, limitou o número de caixas que cada cliente pode pedir, para não faltar com nenhum. "Nossa produção deve acabar nesta semana", prevê Adriano Miolo. "Tudo que foi produzido está encomendado."

 


Georges Aubert
Investiu no gosto
brasileiro e lançou
cinco variedades,
entre elas a rosé

Embora o réveillon seja a grande festa do espumante, os produtores já estavam comemorando antes. "No primeiro semestre deste ano, as vendas chegaram ao dobro das do ano passado", afirma Jaime Milan, presidente da Uvibra. "Isso revela que os brasileiros não estão mais consumindo espumante apenas em dezembro." Neste ano, as vinícolas Georges Aubert e M. Chandon lançaram a primeira garrafa com 185 mililitros, para quem quer beber apenas uma taça. Com a nova versão, a bebida ganhou a noite. Agora é possível ver, em bares e danceterias, pessoas bebendo espumante de canudinho. Algumas casas começaram a oferecer uma taça de espumante como aperitivo. A indústria nacional se diversificou. Antes só fabricava as variedades brut e demi-sec, os tipos mais comuns. Agora existem outras opções. A Georges Aubert chegou a lançar cinco tipos, como o tinto e o rosé. Neste ano, a pequena vinícola Don Laurindo, seguindo o exemplo da Miolo e da Peterlongo, lançou garrafas produzidas pelo método champenoise, usado na região de origem da bebida, a Champagne, na França. O líquido fermenta na garrafa e não nas autoclaves. Segundo os especialistas, o processo dá à bebida um sabor superior.
 

Salton
Uma das marcas nacionais mais
baratas, tornou-se líder de mercado
no ano passado

Borbulhante – A rigor, apenas as bebidas produzidas na região francesa podem ser chamadas de champanhe. As outras são simplesmente vinhos espumantes. Assim, a bebida foi rebatizada em cada país onde é fabricada. Os espanhóis chamam seu vinho borbulhante de cava, os italianos, argentinos e portugueses, de espumante mesmo. No Brasil, algumas vinícolas do Sul arriscam grafar, irregularmente, champanhe no rótulo. Em todos os casos, o processo de fabricação é o mesmo: as uvas são selecionadas e passam por duas fermentações naturais, a primeira nos tonéis de madeira e a segunda nas garrafas ou grandes cubas de aço, chamadas autoclaves. As uvas colhidas no Rio Grande do Sul são mais ácidas, em virtude das condições gerais do solo e do clima local. Justamente por isso, elas fazem com que o vinho nacional perca em qualidade, mas favorecem a produção dos espumantes. "Experientes enólogos franceses dizem que os brasileiros deveriam desistir do vinho e investir mais no espumante", lembra o chef gaúcho José Antônio Pinheiro Machado.


Chandon
Marca mais conhecida no país. Não confundir com a Moët & Chandon francesa

"Comparado a espumantes italianos, como o asti e prosecco, o brasileiro não fica devendo nada", garante Isolda Paes, integrante da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, que viaja todos os anos à Europa para apreciar vinhos. "Numa degustação às cegas, os brasileiros não perdem para os do resto do mundo e, em alguns casos, são até melhores", julga o presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, Mário Telles Junior. A última degustação feita pela Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, por exemplo, reuniu 45 pessoas que pagaram 120 reais para experimentar seis tipos de espumante, brasileiros inclusive. "Pela primeira vez, tivemos de criar uma lista de espera", diz Agnaldo Albert, presidente da associação. O interesse pela bebida é tanto que a vinícola Georges Aubert resolveu inaugurar em junho passado um museu do champanhe, na cidade de Garibaldi, a 129 quilômetros de Porto Alegre. Já recebe 5 000 visitantes por mês.

Com reportagem de Anna Paula Buchalla