Edição 1 627 - 8/12/1999

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Tesouros preservados

Paixão por carros antigos cria legião
de colecionadores e restauradores no país

Marcos Gusmão

Fotos: Marcelo Spatafora

Jaguar XK 120, uma jóia da década de 50: três anos
de reformas para
devolver beleza e potência
a um
antigo campeão de velocidade

O prazer de ter um carro com mais de trinta anos, de marca famosa e em bom estado de conservação nunca foi compartilhado por tantos brasileiros. No início dos anos 90 existiam pouco mais de 2.000 diligentes donos de carangos que marcaram época. O número triplicou de lá para cá. Atualmente, os colecionadores estão em torno de 6.000, de acordo com um levantamento da Fundação Memória do Transporte, sediada em Brasília. As jóias mais fulgurantes do mundo dos automóveis antigos são os modelos de luxo, alguns deles importados antes que a indústria nacional apertasse os parafusos de seu primeiro veículo. As coleções não vivem, contudo, apenas de preciosidades estrangeiras. O número de colecionadores explodiu, em parte, porque aumentou a procura por carros nacionais das décadas de 50 e 60. É fácil entender por que isso ocorreu. Muitos ferros-velhos ainda têm peças dos modelos mais antigos fabricados no Brasil, o que barateia os preços. Daí por que ganharam importância coleções como do popular Fusca, que já reúne cerca de 1 000 colecionadores em todo o país. "O colecionador deixou de ser um milionário excêntrico", diz Roberto Nasser, presidente da fundação. "O perfil atual é de quem herdou um carro da família, restaurou-o e criou gosto por esse hobby." Recuperar a aparência original de uma sucata está longe de ser um passatempo barato. Para quem gosta compensa. Depois de restaurados, a beleza dos carros antigos salta aos olhos.

 

Mercedes-Benz roadster 1958: oferta de 250 000 reais recusada

O Jaguar XK 120, dos anos 50, que ficou pronto na semana passada numa oficina em São Paulo é um desses de tirar o fôlego. Passou três anos na R&E Restaurações, onde os funileiros refizeram o capô todo de alumínio, como o original, fabricaram portas novas e colocaram um novo estofamento de couro. O motor foi regulado e tudo indica que voltou a ter fôlego de zero-quilômetro. Há trinta anos, o modelo XK 120 quebrou o recorde em um teste de carro de linha mais rápido do planeta, com 214 quilômetros por hora. A marca foi superada, mas o XK 120 entrou para a história. "O carro parece um torpedo", orgulha-se o industrial Bené Rosseti, dono do possante. Não se fala em preço, sobretudo porque o carro não está à venda. Nos Estados Unidos, onde há maior oferta desse modelo, custa em torno de 65.000 dólares. Rosseti dificilmente veria seu Jaguar funcionando novamente e com a carroceria preta reluzindo como nova se não tivesse entregado o serviço a uma oficina especializada em restauração de automóveis antigos. Aliás, chamar de oficina o local de trabalho desse pessoal não dá a dimensão exata da operação refinada que se faz ali.


Restauração de um Rolls-Royce: estrutura de madeira
sob chapa de aço

Contam-se nos dedos de uma só mão as firmas capazes de reconstruir corretamente partes das carrocerias que não são mais encontradas no mercado. Na R&E, onde o Jaguar foi restaurado, os funileiros estão há mais de seis meses trabalhando na reconstrução de um Rolls-Royce. A estrutura da carroceria é toda de madeira revestida de chapas de aço. O estofamento será refeito para ficar igual ao do modelo original, obedecendo até ao tamanho dos gomos do banco e do encosto, seguindo o tipo de costura dos anos 50. Nas oficinas também se retifica o motor. O tempo é o que menos importa nesse trabalho. Em média, uma restauração demora um ano. Mas há casos de carros que ficam três anos nas mãos dos mecânicos. "O trabalho é delicado, cada detalhe é pesquisado em catálogos da época e um protótipo é feito no computador para servir de modelo", explica Richard Flynn, sócio da R&E. "Cuidar de um carro antigo requer dedicação e paciência", ensina ele.

 

Ford T, 1919: remanescente das primeiras levas de carros que chegaram ao país

Os colecionadores de carros antigos vivem num mundo à parte. Com regras próprias. A maioria deles, por exemplo, não conta à mulher quanto precisou torrar na última reforma completa do carango que estava empacado na garagem. Os donos de automóveis antigos também não gostam de dizer o custo de sua coleção. Sabe-se que grande parte deles gasta uma verdadeira fortuna. Quanto só se pode estimar. Um Chrysler 300G, da década de 60, é oferecido nos Estados Unidos por 20.000 dólares. Aqui nem sequer há preço de mercado para tal preciosidade. Bené Rosseti recebeu uma proposta aparentemente irrecusável por sua Mercedes-Benz SL 190, ano 1958. Um outro colecionador quis pagar 250.000 reais, mas ele não aceitou. "Gosto muito do carro", resumiu Rosseti. Para quem não é do ramo é muito difícil compreender o que leva alguém a querer dar tanto dinheiro por um carro velho. "Na prática, o preço é muito pessoal", diz Henrique Erwenne, presidente do Clube do Karmann-Ghia e diretor do Clube do Fusca. "Um modelo pode custar 10.000 reais no mercado, mas o dono só o vende pelo triplo."

A entrada de novos colecionadores tem contribuído para fomentar o crescimento de clubes de automóveis antigos em todos os Estados. Em 1991 havia somente 55 deles, a maior parte concentrada nas capitais do Sudeste e do Sul. Atualmente somam cerca de 120 organizações espalhadas pelo país e responsáveis pela preservação de pelo menos 15 000 veículos. Essas entidades são importantes porque ajudam a encontrar as peças e os acessórios necessários para as restaurações. É muito difícil para qualquer pessoa encontrar o farol de um Ford 1919 – um dos primeiros automóveis que a montadora americana trouxe para o Brasil.

Procurar em ferros-velhos é geralmente perda de tempo. Tentar buscar sozinho em outro país custa muito dinheiro e não há garantia de encontrar o que se quer. Ou, pior, existe o risco de comprar uma peça falsificada ou de má qualidade. Qual a saída? "Recorrer ao clube, onde os sócios mais experientes conhecem todos os truques para localizar raridades do setor automobilístico", aconselha o publicitário Mauro Salles, dono de uma pequena coleção de oito carros, entre eles um Ford 1910, que só foi recuperado graças à ajuda de amigos que indicaram o caminho das peças que faltavam. Os modelos nacionais dos anos 60 têm um atrativo especial para os colecionadores. São de uma época em que o veículo era tido como membro da família. Como em outros tipos de hobby, a carga afetiva pesa muito na hora de optar por esse ou aquele modelo. Muitos colecionadores de Aero-Willys, Brasinca (o primeiro carro nacional a atingir os 200 quilômetros por hora) e Simca Jangada (do qual só resta um exemplar em bom estado) aprenderam a dirigir nesses automóveis. Por isso gastam prazerosamente suas economias para colocá-los em ordem.

 

Relíquias brasileiras

Carros nacionais dos anos 60
são a nova mania dos colecionadores

Ana Araujo

Aero-Willys 1962: último modelo da série com desenho arredondado
Brasinca 1965: primeiro carro brasileiro a atingir os 200 quilômetros por hora
Ana Araujo
Simca Jangada 1967: só resta este exemplar em bom estado do modelo que vendeu pouco