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Tesouros
preservados
Paixão
por carros antigos cria legião
de colecionadores e restauradores no país
Marcos
Gusmão
Fotos:
Marcelo Spatafora
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Jaguar
XK 120, uma jóia da década
de
50: três anos
de reformas para devolver
beleza e potência
a um antigo
campeão de velocidade
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O
prazer de ter um carro com mais de trinta anos,
de marca famosa e em bom estado de conservação
nunca foi compartilhado por tantos brasileiros.
No início dos anos 90 existiam pouco mais
de 2.000
diligentes donos de carangos que marcaram época.
O número triplicou de lá para cá.
Atualmente, os colecionadores estão em torno
de 6.000,
de acordo com um levantamento da Fundação
Memória do Transporte, sediada em Brasília.
As jóias mais fulgurantes do mundo dos automóveis
antigos são os modelos de luxo, alguns deles
importados antes que a indústria nacional
apertasse os parafusos de seu primeiro veículo.
As coleções não vivem, contudo,
apenas de preciosidades estrangeiras. O número
de colecionadores explodiu, em parte, porque aumentou
a procura por carros nacionais das décadas
de 50 e 60. É fácil entender por que
isso ocorreu. Muitos ferros-velhos ainda têm
peças dos modelos mais antigos fabricados
no Brasil, o que barateia os preços. Daí
por que ganharam importância coleções
como do popular Fusca, que já reúne
cerca de 1 000 colecionadores em todo o país.
"O colecionador deixou de ser um milionário
excêntrico", diz Roberto Nasser, presidente
da fundação. "O perfil atual é
de quem herdou um carro da família, restaurou-o
e criou gosto por esse hobby." Recuperar a aparência
original de uma sucata está longe de ser
um passatempo barato. Para quem gosta compensa.
Depois de restaurados, a beleza dos carros antigos
salta aos olhos.
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| Mercedes-Benz
roadster 1958: oferta de 250 000 reais recusada
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O
Jaguar XK 120, dos anos 50, que ficou pronto na
semana passada numa oficina em São Paulo
é um desses de tirar o fôlego. Passou
três anos na R&E Restaurações,
onde os funileiros refizeram o capô todo de
alumínio, como o original, fabricaram portas
novas e colocaram um novo estofamento de couro.
O motor foi regulado e tudo indica que voltou a
ter fôlego de zero-quilômetro. Há
trinta anos, o modelo XK 120 quebrou o recorde em
um teste de carro de linha mais rápido do
planeta, com 214 quilômetros por hora. A marca
foi superada, mas o XK 120 entrou para a história.
"O carro parece um torpedo", orgulha-se o industrial
Bené Rosseti, dono do possante. Não
se fala em preço, sobretudo porque o carro
não está à venda. Nos Estados
Unidos, onde há maior oferta desse modelo,
custa em torno de 65.000
dólares. Rosseti dificilmente veria seu Jaguar
funcionando novamente e com a carroceria preta reluzindo
como nova se não tivesse entregado o serviço
a uma oficina especializada em restauração
de automóveis antigos. Aliás, chamar
de oficina o local de trabalho desse pessoal não
dá a dimensão exata da operação
refinada que se faz ali.
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Restauração
de um Rolls-Royce: estrutura de madeira
sob chapa de aço |
Contam-se
nos dedos de uma só mão as firmas
capazes de reconstruir corretamente partes das carrocerias
que não são mais encontradas no mercado.
Na R&E, onde o Jaguar foi restaurado, os funileiros
estão há mais de seis meses trabalhando
na reconstrução de um Rolls-Royce.
A estrutura da carroceria é toda de madeira
revestida de chapas de aço. O estofamento
será refeito para ficar igual ao do modelo
original, obedecendo até ao tamanho dos gomos
do banco e do encosto, seguindo o tipo de costura
dos anos 50. Nas oficinas também se retifica
o motor. O tempo é o que menos importa nesse
trabalho. Em média, uma restauração
demora um ano. Mas há casos de carros que
ficam três anos nas mãos dos mecânicos.
"O trabalho é delicado, cada detalhe é
pesquisado em catálogos da época e
um protótipo é feito no computador
para servir de modelo", explica Richard Flynn, sócio
da R&E. "Cuidar de um carro antigo requer dedicação
e paciência", ensina ele.
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| Ford
T, 1919: remanescente das primeiras levas de
carros que chegaram ao país
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Os
colecionadores de carros antigos vivem num mundo
à parte. Com regras próprias. A maioria
deles, por exemplo, não conta à mulher
quanto precisou torrar na última reforma
completa do carango que estava empacado na garagem.
Os donos de automóveis antigos também
não gostam de dizer o custo de sua coleção.
Sabe-se que grande parte deles gasta uma verdadeira
fortuna. Quanto só se pode estimar. Um Chrysler
300G, da década de 60, é oferecido
nos Estados Unidos por 20.000
dólares. Aqui nem sequer há preço
de mercado para tal preciosidade. Bené Rosseti
recebeu uma proposta aparentemente irrecusável
por sua Mercedes-Benz SL 190, ano 1958. Um outro
colecionador quis pagar 250.000
reais, mas ele não aceitou. "Gosto muito
do carro", resumiu Rosseti. Para quem não
é do ramo é muito difícil compreender
o que leva alguém a querer dar tanto dinheiro
por um carro velho. "Na prática, o preço
é muito pessoal", diz Henrique Erwenne, presidente
do Clube do Karmann-Ghia e diretor do Clube do Fusca.
"Um modelo pode custar 10.000
reais no mercado, mas o dono só o vende pelo
triplo."
A
entrada de novos colecionadores tem contribuído
para fomentar o crescimento de clubes de automóveis
antigos em todos os Estados. Em 1991 havia somente
55 deles, a maior parte concentrada nas capitais
do Sudeste e do Sul. Atualmente somam cerca de 120
organizações espalhadas pelo país
e responsáveis pela preservação
de pelo menos 15 000 veículos. Essas entidades
são importantes porque ajudam a encontrar
as peças e os acessórios necessários
para as restaurações. É muito
difícil para qualquer pessoa encontrar o
farol de um Ford 1919 um dos primeiros automóveis
que a montadora americana trouxe para o Brasil.
Procurar
em ferros-velhos é geralmente perda de tempo.
Tentar buscar sozinho em outro país custa
muito dinheiro e não há garantia de
encontrar o que se quer. Ou, pior, existe o risco
de comprar uma peça falsificada ou de má
qualidade. Qual a saída? "Recorrer ao clube,
onde os sócios mais experientes conhecem
todos os truques para localizar raridades do setor
automobilístico", aconselha o publicitário
Mauro Salles, dono de uma pequena coleção
de oito carros, entre eles um Ford 1910, que só
foi recuperado graças à ajuda de amigos
que indicaram o caminho das peças que faltavam.
Os modelos nacionais dos anos 60 têm um atrativo
especial para os colecionadores. São de uma
época em que o veículo era tido como
membro da família. Como em outros tipos de
hobby, a carga afetiva pesa muito na hora de optar
por esse ou aquele modelo. Muitos colecionadores
de Aero-Willys, Brasinca (o primeiro carro nacional
a atingir os 200 quilômetros por hora) e Simca
Jangada (do qual só resta um exemplar em
bom estado) aprenderam a dirigir nesses automóveis.
Por isso gastam prazerosamente suas economias para
colocá-los em ordem.
Relíquias brasileiras
Carros nacionais dos anos 60
são a nova mania dos colecionadores
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