|
|
Um dia
para lembrar
Formaturas
do colegial se transformam em
megaproduções e viram mania entre jovens
Sandra
Boccia
Fotos: Ricardo
Benichio
 |
 |
|
Formandos
chegam ao baile de limusine, em São
Paulo:
como
artistas de Hollywood
|
Fogos
de artifício dentro
do
salão: choro, abraços e
juras
de amizade eterna
|
Sexta-feira,
3 da manhã. No salão de festas do
Clube Paineiras do Morumby, em São Paulo,
coqueiros de plástico misturam-se a imitações
de colunas gregas. Pelo microfone, o mestre-de-cerimônias
anuncia o nome de cada um dos 134 estudantes. Eles
entram. As moças equilibrando-se sobre saltos
altos alguns altíssimos. Os rapazes,
estufando o peito, orgulhosos do smoking, dão
de ombros às piadinhas da platéia:
"E aí, pingüim?" Em poucos minutos estão
todos no meio da pista. Sobre um tablado, o animador
corta o burburinho: "Senhoras e senhores, com vocês,
os formandos de 1999". Palmas. Fogos de artifício
iluminam a escuridão. Das caixas de som,
ouve-se o hit ensurdecedor da jovem guarda: "É
preciso saber viver". Os garotos e as garotas se
abraçam. Choram. Trocam juras de amizade
eterna. Ao fundo, no telão de 200 polegadas,
está a imagem congelada de um sorriso. É
o auge da festa, planejada tintim por tintim, durante
todo o ano, pelos alunos do tradicional Colégio
Rio Branco. Adeus, escola.
 |
 |
Juliana
e o vestido alugado
por 700 reais: "Felicidade
não tem preço", diz seu pai
|
Marco
Antonio dança a valsa
com a mãe: "Uma festa para
a história da escola"
|
Até
pouco tempo atrás, megacomemorações
como a da garotada do Rio Branco estavam restritas
às formaturas universitárias. Os recém-saídos
do colegial se contentavam com um baileco no ginásio
de esportes da escola. Não mais. O que se
vê agora são produções
de fazer inveja a formandos universitários.
O orçamento da festa do paulistano Colégio
Bandeirantes supera com folga o da Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo, um dos mais
conceituados cursos de engenharia do país
328.000
reais contra 250.000.
No dia 14 de fevereiro, os 460 adolescentes receberão
suas famílias no recém-inaugurado
Credicard Hall, a maior casa de espetáculos
da América Latina. Trata-se daquela cujo
sistema de som tanto irritou o compositor João
Gilberto. A colação de grau é
apenas o começo. Quatro dias depois, 7.000
pessoas estão convidadas para um baile com
direito a canhão a laser, cascata de fogos,
telão de última geração
e bateria de escola de samba. "A onda hoje em dia
é fugir dos enlatados convencionais e realizar
um evento personalizado", teoriza Marcelo Baracat,
dono da empresa responsável pela festança.
|
|
Joel
Rocha
 |
A
atriz Mariana Ximenes
(no alto, à dir.): chuva de balões
e boas lembranças |
Maira
em busca do vestido ideal em Curitiba: preparativos
para o grande
dia
|
As
formaturas colegiais ganham pompa e circunstância
que, em outros tempos, eram reservadas a comemorações
de 15 anos. Como festa de debutante virou sinônimo
de cafonice, a de formatura surgiu para, de certa
forma, preencher o vácuo. Há quem
torça o nariz e veja no fenômeno a
rendição juvenil aos modismos do mercado.
"Hoje, o único papel reconhecido pela sociedade
para o adolescente é o de consumidor", opina
a psicóloga Rosely Sayão. "Promovendo
essas superproduções, ele cumpre a
sua função." Na verdade, a garotada
se diverte. As megacerimônias de formatura
popularizaram-se nesta década, sobretudo
em São Paulo. Criou-se um mercado milionário,
movido por duas centenas de empresas especializadas,
além de bandas musicais, gráficas,
agências de seguranças e modelos, floriculturas,
decoradores, fotógrafos, cinegrafistas e
por aí vai, até onde a imaginação
dos jovens alcança e a carteira dos pais
agüenta.
Não
se sofisticaram apenas as festas. No rastro das
megaproduções surgiu uma infinidade
de produtos sob medida para os formandos. De álbuns
de couro legítimo a alfinetes de lapela com
acabamento de ouro, há de tudo (veja
quadro).
Até CD-ROM com uma réplica do convite,
nome e endereço dos colegas, os melhores
momentos da festa, entre outras recordações.
O preço é salgado: 60 reais cada um,
em média. Para a garotada é a glória.
Os meninos e meninas sentem-se tão glamourosos
quanto um artista de Hollywood em noite de entrega
de Oscar. Alguns chegam à solenidade a bordo
de limusine geralmente cortesia das empresas
para a comissão organizadora.
Aos
17 anos, Marco Antonio da Rocha Costa Filho estava
todo prosa ao descer com quatro amigos de um desses
carrões na porta do Clube Paineiras. Tudo
bem que a limusine cor de chumbo, ano 90, tinha
balde de gelo sem gelo. Que o telefone não
funcionava ou que o estofado cheirava a mofo. "Não
faz mal", deu de ombros. "Queríamos fazer
uma festa que entrasse para a história da
escola." Para a história de toda a família
também. Cada aluno do Rio Branco tinha direito
a seis convites. Era pouco para a família
de Marco Antonio. Pelos quinze convidados extras,
seus pais desembolsaram 525 reais. Uma bagatela
perto dos gastos da colega Juliana Hubner Yamana.
Só o aluguel de um longo pink enfeitado com
canutilhos e miçangas ("Assinado por Gai
Mattiolo, um estilista italiano famosíssimo...",
frisa Juliana) custou perto de 700 reais. O investimento
valeu a pena? O engenheiro Celestino Hissao Yamana,
pai da garota, responde, taxativo: "Felicidade não
tem preço".
A
suntuosidade das festas de formatura é nova
e surpreendente. Nada disso existia no tempo dos
pais dos atuais formandos. Os estudantes brasileiros
costumam encarar o término do colegial apenas
como o primeiro passo de um longo caminho. Logo
em seguida vem o duríssimo desafio do vestibular.
Talvez por isso até pouco tempo atrás
as comemorações eram discretas, bem
diferentes da tradicional festa realizada nos Estados
Unidos e que todo mundo conhece dos seriados de
televisão. Lá, o fim do ensino médio
equivale a um rito de passagem para a vida adulta.
Significa para o jovem abandonar a casa dos pais
e ir para uma universidade distante, deixando os
amigos de infância para trás. Apesar
das diferenças óbvias, o jeito americano
de fazer as coisas começa a ser copiado por
aqui. Há três anos, o Colégio
Sete de Setembro, de Fortaleza, resolveu fazer seu
próprio Year
Book, o
célebre livro comemorativo dos estudantes
americanos, com as fotos de cada um da turma. De
capa dura e papel cuchê fosco, a publicação
conta com o patrocínio de bancos e seguradoras
de saúde, o que reduziu os custos à
metade. Ainda assim, representa uma despesa extra
de 45 reais per capita.
Há
formaturas de todo tipo. Além da festa, muitas
turmas fazem uma viagem. O destino preferido de
sete em cada dez é Porto Seguro, na Bahia.
Os 143 formandos do Colégio Marista Santa
Maria, de Curitiba, decidiram ir para Florianópolis,
bem mais perto. Já estão de volta
e se preparam para o baile no Clube do Círculo
Militar, na próxima semana. Eufórica,
Maira Rodrigues da Costa Teixeira dedicou uma tarde
inteira de sábado à caça de
um vestido. Ela está "contando os segundos"
para o grande dia. "É a primeira vez que
o colégio faz uma superprodução.
Tenho certeza de que será inesquecível",
entusiasma-se. A festa terá um túnel
de balões coloridos pelo qual passarão
os formandos e também um estúdio completo
para as fotos.
Há
quem ache tudo isso muito brega. Os estudantes não
estão nem aí. O que conta para eles
é a sensação de que estão
virando gente grande e que isso se dê
no melhor estilo. Na formatura da atriz global Mariana
Ximenes, no Colégio Arquidiocesano de São
Paulo, no ano passado, despencaram sobre os convidados
2.000
balões em formato de coração.
Pais e mães caíram no choro. Mariana
guarda boas lembranças da comemoração:
"Foi muito engraçado ver os meninos parecendo
pingüinzinhos e as meninas como uns repolhinhos",
relembra. "Ali eu percebi que a festa seria um momento
singular para o resto de nossas vidas." Um dia para
lembrar.
Recordações
de luxo
|
 |
 |
 |
|
Estatueta
de latão fundido
em três tamanhos.
Preço:
50 reais,
o maior
|
Alfinetes
de lapela com acabamento
de ouro. Preço:
12 reais
|
Álbum
de couro
legítimo.
Preço:
até 150 reais (sem as fotos)
|
|