Edição 1 627 - 8/12/1999

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Um dia para lembrar

Formaturas do colegial se transformam em
megaproduções e viram mania entre jovens

Sandra Boccia

Fotos: Ricardo Benichio
Formandos chegam ao baile de limusine, em São Paulo:
como artistas de Hollywood
Fogos de artifício dentro
do salão: choro, abraços e
juras de amizade eterna

Sexta-feira, 3 da manhã. No salão de festas do Clube Paineiras do Morumby, em São Paulo, coqueiros de plástico misturam-se a imitações de colunas gregas. Pelo microfone, o mestre-de-cerimônias anuncia o nome de cada um dos 134 estudantes. Eles entram. As moças equilibrando-se sobre saltos altos – alguns altíssimos. Os rapazes, estufando o peito, orgulhosos do smoking, dão de ombros às piadinhas da platéia: "E aí, pingüim?" Em poucos minutos estão todos no meio da pista. Sobre um tablado, o animador corta o burburinho: "Senhoras e senhores, com vocês, os formandos de 1999". Palmas. Fogos de artifício iluminam a escuridão. Das caixas de som, ouve-se o hit ensurdecedor da jovem guarda: "É preciso saber viver". Os garotos e as garotas se abraçam. Choram. Trocam juras de amizade eterna. Ao fundo, no telão de 200 polegadas, está a imagem congelada de um sorriso. É o auge da festa, planejada tintim por tintim, durante todo o ano, pelos alunos do tradicional Colégio Rio Branco. Adeus, escola.

Juliana e o vestido alugado
por 700 reais: "Felicidade
não tem preço", diz seu pai
Marco Antonio dança a valsa
com a mãe: "Uma festa para
a história da escola"

Até pouco tempo atrás, megacomemorações como a da garotada do Rio Branco estavam restritas às formaturas universitárias. Os recém-saídos do colegial se contentavam com um baileco no ginásio de esportes da escola. Não mais. O que se vê agora são produções de fazer inveja a formandos universitários. O orçamento da festa do paulistano Colégio Bandeirantes supera com folga o da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, um dos mais conceituados cursos de engenharia do país – 328.000 reais contra 250.000. No dia 14 de fevereiro, os 460 adolescentes receberão suas famílias no recém-inaugurado Credicard Hall, a maior casa de espetáculos da América Latina. Trata-se daquela cujo sistema de som tanto irritou o compositor João Gilberto. A colação de grau é apenas o começo. Quatro dias depois, 7.000 pessoas estão convidadas para um baile com direito a canhão a laser, cascata de fogos, telão de última geração e bateria de escola de samba. "A onda hoje em dia é fugir dos enlatados convencionais e realizar um evento personalizado", teoriza Marcelo Baracat, dono da empresa responsável pela festança.


Joel Rocha
A atriz Mariana Ximenes
(no alto, à dir.): chuva de balões e boas lembranças
Maira em busca do vestido ideal em Curitiba: preparativos para o grande dia

As formaturas colegiais ganham pompa e circunstância que, em outros tempos, eram reservadas a comemorações de 15 anos. Como festa de debutante virou sinônimo de cafonice, a de formatura surgiu para, de certa forma, preencher o vácuo. Há quem torça o nariz e veja no fenômeno a rendição juvenil aos modismos do mercado. "Hoje, o único papel reconhecido pela sociedade para o adolescente é o de consumidor", opina a psicóloga Rosely Sayão. "Promovendo essas superproduções, ele cumpre a sua função." Na verdade, a garotada se diverte. As megacerimônias de formatura popularizaram-se nesta década, sobretudo em São Paulo. Criou-se um mercado milionário, movido por duas centenas de empresas especializadas, além de bandas musicais, gráficas, agências de seguranças e modelos, floriculturas, decoradores, fotógrafos, cinegrafistas e por aí vai, até onde a imaginação dos jovens alcança e a carteira dos pais agüenta.

Não se sofisticaram apenas as festas. No rastro das megaproduções surgiu uma infinidade de produtos sob medida para os formandos. De álbuns de couro legítimo a alfinetes de lapela com acabamento de ouro, há de tudo (veja quadro). Até CD-ROM com uma réplica do convite, nome e endereço dos colegas, os melhores momentos da festa, entre outras recordações. O preço é salgado: 60 reais cada um, em média. Para a garotada é a glória. Os meninos e meninas sentem-se tão glamourosos quanto um artista de Hollywood em noite de entrega de Oscar. Alguns chegam à solenidade a bordo de limusine – geralmente cortesia das empresas para a comissão organizadora.

Aos 17 anos, Marco Antonio da Rocha Costa Filho estava todo prosa ao descer com quatro amigos de um desses carrões na porta do Clube Paineiras. Tudo bem que a limusine cor de chumbo, ano 90, tinha balde de gelo sem gelo. Que o telefone não funcionava ou que o estofado cheirava a mofo. "Não faz mal", deu de ombros. "Queríamos fazer uma festa que entrasse para a história da escola." Para a história de toda a família também. Cada aluno do Rio Branco tinha direito a seis convites. Era pouco para a família de Marco Antonio. Pelos quinze convidados extras, seus pais desembolsaram 525 reais. Uma bagatela perto dos gastos da colega Juliana Hubner Yamana. Só o aluguel de um longo pink enfeitado com canutilhos e miçangas ("Assinado por Gai Mattiolo, um estilista italiano famosíssimo...", frisa Juliana) custou perto de 700 reais. O investimento valeu a pena? O engenheiro Celestino Hissao Yamana, pai da garota, responde, taxativo: "Felicidade não tem preço".

A suntuosidade das festas de formatura é nova e surpreendente. Nada disso existia no tempo dos pais dos atuais formandos. Os estudantes brasileiros costumam encarar o término do colegial apenas como o primeiro passo de um longo caminho. Logo em seguida vem o duríssimo desafio do vestibular. Talvez por isso até pouco tempo atrás as comemorações eram discretas, bem diferentes da tradicional festa realizada nos Estados Unidos e que todo mundo conhece dos seriados de televisão. Lá, o fim do ensino médio equivale a um rito de passagem para a vida adulta. Significa para o jovem abandonar a casa dos pais e ir para uma universidade distante, deixando os amigos de infância para trás. Apesar das diferenças óbvias, o jeito americano de fazer as coisas começa a ser copiado por aqui. Há três anos, o Colégio Sete de Setembro, de Fortaleza, resolveu fazer seu próprio Year Book, o célebre livro comemorativo dos estudantes americanos, com as fotos de cada um da turma. De capa dura e papel cuchê fosco, a publicação conta com o patrocínio de bancos e seguradoras de saúde, o que reduziu os custos à metade. Ainda assim, representa uma despesa extra de 45 reais per capita.

Há formaturas de todo tipo. Além da festa, muitas turmas fazem uma viagem. O destino preferido de sete em cada dez é Porto Seguro, na Bahia. Os 143 formandos do Colégio Marista Santa Maria, de Curitiba, decidiram ir para Florianópolis, bem mais perto. Já estão de volta e se preparam para o baile no Clube do Círculo Militar, na próxima semana. Eufórica, Maira Rodrigues da Costa Teixeira dedicou uma tarde inteira de sábado à caça de um vestido. Ela está "contando os segundos" para o grande dia. "É a primeira vez que o colégio faz uma superprodução. Tenho certeza de que será inesquecível", entusiasma-se. A festa terá um túnel de balões coloridos pelo qual passarão os formandos e também um estúdio completo para as fotos.

Há quem ache tudo isso muito brega. Os estudantes não estão nem aí. O que conta para eles é a sensação de que estão virando gente grande – e que isso se dê no melhor estilo. Na formatura da atriz global Mariana Ximenes, no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, no ano passado, despencaram sobre os convidados 2.000 balões em formato de coração. Pais e mães caíram no choro. Mariana guarda boas lembranças da comemoração: "Foi muito engraçado ver os meninos parecendo pingüinzinhos e as meninas como uns repolhinhos", relembra. "Ali eu percebi que a festa seria um momento singular para o resto de nossas vidas." Um dia para lembrar.

 

Recordações de luxo

Estatueta de latão fundido em três tamanhos.
Preço: 50 reais,
o maior
Alfinetes de lapela com acabamento de ouro. Preço: 12 reais
Álbum de couro
legítimo.
Preço: até 150 reais (sem as fotos)