Edição 1 627 - 8/12/1999

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Fiquem no escuro

Ecologistas do Primeiro Mundo não querem
que a China e a Índia construam megausinas

Duas das maiores obras de engenharia em andamento no mundo podem estar ameaçadas por causa da pressão dos ambientalistas. Um dos megaprojetos fica na China. Projetada para ser a maior hidrelétrica do mundo em capacidade de geração de energia elétrica, a Barragem de Três Gargantas prevê a formação de um lago com 600 quilômetros de extensão. Ela ocupará uma área equivalente a três quartos de Itaipu, mas irá gerar 50% mais de eletricidade. Seu custo é calculado oficialmente em 30 bilhões de dólares. Estimativas fora da China elevam a cifra a 75 bilhões. É a maior obra feita no país desde a Grande Muralha, há 2.500 anos. Os que se opõem a sua construção a definem como uma tragédia ambiental e humana. Cerca de 1,3 milhão de pessoas terão de ser deslocadas até o término das obras, em 2009. Quando o lago estiver cheio, florestas inteiras e alguns dos mais importantes sítios arqueológicos da China terão sido destruídos. Como se não bastasse, geógrafos americanos afirmam que a região está sujeita a abalos sísmicos, o que poderia colocar a barragem em risco. Em resposta ao lobby ambientalista, o governo dos Estados Unidos decidiu bloquear empréstimos a empresas que tivessem participação nessa construção. O Banco Mundial não se envolveu na controvérsia, mas ficou de fora do projeto. Restou ao governo chinês passar o chapéu pelo mundo em busca de recursos. Enquanto isso, a obra teve seu ritmo diminuído.


Gigante de concreto

A área do lago de Três Gargantas será de 1 084 quilômetros quadrados, três quartos de Itaipu
Sua capacidade de gerar energia é 50% maior que a da usina brasileira
Sua produção seria suficiente para suprir 70% do consumo de energia do Brasil

A outra obra que enfrenta a pressão verde está localizada na Índia. Há catorze anos, ambientalistas tentam interromper o projeto de construção de um conjunto de trinta barragens na região de Narmada, que começou a ser erguido na década de 60. A mais importante delas é a Represa de Sardar Sarovar, orçada em quase 2 bilhões de dólares. A escritora indiana Arundhati Roy, conhecida no mundo todo desde o sucesso do romance O Deus das Pequenas Coisas, engajou-se na campanha anti-hidrelétrica. Os manifestantes dizem que o benefício para a população da região é questionável e que o saldo será um inútil deslocamento de 320.000 pessoas. O Banco Mundial chegou a colaborar com a empreitada, na qual injetou 450 milhões de dólares, mas achou melhor tirar o time de campo diante das reações contrárias. Os ecologistas conseguiram levar a discussão para a Suprema Corte indiana, onde a questão desceu ao campo da centimetragem. Dos previstos 136,5 metros, a altura da barragem hoje está estipulada pela Justiça em 88 metros.

Os governos da China e da Índia decidiram construir suas barragens a partir de uma necessidade indiscutível. Os dois países estão crescendo muito e precisam arranjar novas fontes de energia para movimentar a indústria. Nos últimos dez anos, o produto interno bruto chinês saltou da casa dos 200 bilhões de dólares para 900 bilhões. As exportações cresceram 52% ao ano, em média. Quando a represa estiver pronta, vai aumentar em 10% a produção chinesa de energia. Alavancado por uma taxa de crescimento industrial superior a 8%, o PIB indiano também cresceu em boa velocidade nos últimos anos. Além da necessidade de luz, as barragens desempenharão funções extras. A chinesa irá operar como um dique antienchente. Há quatro meses, o transbordamento do Rio Yang Tsé, onde está sendo feita a hidrelétrica, cobrou sua cota anual de vidas na China. Dois milhões de moradores ficaram desabrigados. O governo da Índia considera seu complexo hidrelétrico obra indispensável, pois ele prevê um sistema de irrigação que atingirá 1,8 milhão de hectares da região de Gujarat. Espera-se que, assim, a atividade rural se torne uma real alternativa de sobrevivência onde hoje só há aridez. Enquanto boa parte da população americana consome o dobro da quantidade de calorias que uma pessoa normal necessita para viver, há milhões de famintos vivendo com menos de um quarto disso na Índia.

Quase toda a eletricidade usada pelos chineses é gerada em usinas a carvão, altamente poluidoras. Isso faz da China um dos maiores emissores mundiais de CO2. As hidrelétricas produzirão energia limpa, capaz de sustentar a arrancada econômica dos dois países. Para os ecochatos, toda intervenção do homem que afeta uma área maior que um estádio de futebol representa um impacto gigantesco e inaceitável. Como as represas em questão são muito maiores que isso, os ambientalistas querem a interferência da comunidade financeira e política mundial para embargar as obras. A alternativa que oferecem é aquela lengalenga de sempre. China e Índia poderiam adotar fontes de energia alternativas como a obtida dos raios do sol e da força dos ventos. Os ecologistas se entusiasmam com essas opções, mas não se importam com os custos. Gerar 1 quilowatt de energia a partir de sol ou vento é mais caro do que fazer isso pela força das águas.

É bom lembrar que a China, que acumula cinqüenta anos de arbitrariedades sob o regime comunista, não é país de colocar os direitos humanos entre suas prioridades. Evidentemente, a sociedade não foi chamada a discutir a construção – nem mesmo aqueles que terão a vida totalmente alterada pela barragem. Entre os que serão desalojados, ninguém sabe para onde pode ser levado. Na Índia, por sua vez, o governo evita discutir valores das indenizações. Boa parte da opinião pública da Europa e dos Estados Unidos, que já desfruta os confortos da civilização, deseja que as grandes intervenções no meio ambiente fiquem confinadas ao passado. Mas, enquanto a economia do Primeiro Mundo está cada vez mais virtual, China e Índia ainda vivem dramas do século XIX. Lá, onde o rio mata e a energia é insuficiente, as necessidades mais prementes também são outras.