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Fiquem no
escuro
Ecologistas
do Primeiro Mundo não querem
que a China e a Índia construam megausinas
Duas
das maiores obras de engenharia em andamento no mundo
podem estar ameaçadas por causa da pressão
dos ambientalistas. Um dos megaprojetos fica na China.
Projetada para ser a maior hidrelétrica do
mundo em capacidade de geração de energia
elétrica, a Barragem de Três Gargantas
prevê a formação de um lago com
600 quilômetros de extensão. Ela ocupará
uma área equivalente a três quartos de
Itaipu, mas irá gerar 50% mais de eletricidade.
Seu custo é calculado oficialmente em 30 bilhões
de dólares. Estimativas fora da China elevam
a cifra a 75 bilhões. É a maior obra
feita no país desde a Grande Muralha, há
2.500
anos. Os que se opõem a sua construção
a definem como uma tragédia ambiental e humana.
Cerca de 1,3 milhão de pessoas terão
de ser deslocadas até o término das
obras, em 2009. Quando o lago estiver cheio, florestas
inteiras e alguns dos mais importantes sítios
arqueológicos da China terão sido destruídos.
Como se não bastasse, geógrafos americanos
afirmam que a região está sujeita a
abalos sísmicos, o que poderia colocar a barragem
em risco. Em resposta ao lobby ambientalista, o governo
dos Estados Unidos decidiu bloquear empréstimos
a empresas que tivessem participação
nessa construção. O Banco Mundial não
se envolveu na controvérsia, mas ficou de fora
do projeto. Restou ao governo chinês passar
o chapéu pelo mundo em busca de recursos. Enquanto
isso, a obra teve seu ritmo diminuído.
A outra
obra que enfrenta a pressão verde está
localizada na Índia. Há catorze anos,
ambientalistas tentam interromper o projeto de construção
de um conjunto de trinta barragens na região
de Narmada, que começou a ser erguido na década
de 60. A mais importante delas é a Represa
de Sardar Sarovar, orçada em quase 2 bilhões
de dólares. A escritora indiana Arundhati Roy,
conhecida no mundo todo desde o sucesso do romance
O Deus
das Pequenas Coisas,
engajou-se na campanha anti-hidrelétrica. Os
manifestantes dizem que o benefício para a
população da região é
questionável e que o saldo será um inútil
deslocamento de 320.000
pessoas. O Banco Mundial chegou a colaborar com a
empreitada, na qual injetou 450 milhões de
dólares, mas achou melhor tirar o time de campo
diante das reações contrárias.
Os ecologistas conseguiram levar a discussão
para a Suprema Corte indiana, onde a questão
desceu ao campo da centimetragem. Dos previstos 136,5
metros, a altura da barragem hoje está estipulada
pela Justiça em 88 metros.
Os
governos da China e da Índia decidiram construir
suas barragens a partir de uma necessidade indiscutível.
Os dois países estão crescendo muito
e precisam arranjar novas fontes de energia para movimentar
a indústria. Nos últimos dez anos, o
produto interno bruto chinês saltou da casa
dos 200 bilhões de dólares para 900
bilhões. As exportações cresceram
52% ao ano, em média. Quando a represa estiver
pronta, vai aumentar em 10% a produção
chinesa de energia. Alavancado por uma taxa de crescimento
industrial superior a 8%, o PIB indiano também
cresceu em boa velocidade nos últimos anos.
Além da necessidade de luz, as barragens desempenharão
funções extras. A chinesa irá
operar como um dique antienchente. Há quatro
meses, o transbordamento do Rio Yang Tsé, onde
está sendo feita a hidrelétrica, cobrou
sua cota anual de vidas na China. Dois milhões
de moradores ficaram desabrigados. O governo da Índia
considera seu complexo hidrelétrico obra indispensável,
pois ele prevê um sistema de irrigação
que atingirá 1,8 milhão de hectares
da região de Gujarat. Espera-se que, assim,
a atividade rural se torne uma real alternativa de
sobrevivência onde hoje só há
aridez. Enquanto boa parte da população
americana consome o dobro da quantidade de calorias
que uma pessoa normal necessita para viver, há
milhões de famintos vivendo com menos de um
quarto disso na Índia.
Quase
toda a eletricidade usada pelos chineses é
gerada em usinas a carvão, altamente poluidoras.
Isso faz da China um dos maiores emissores mundiais
de CO2.
As hidrelétricas produzirão energia
limpa, capaz de sustentar a arrancada econômica
dos dois países. Para os ecochatos, toda intervenção
do homem que afeta uma área maior que um estádio
de futebol representa um impacto gigantesco e inaceitável.
Como as represas em questão são muito
maiores que isso, os ambientalistas querem a interferência
da comunidade financeira e política mundial
para embargar as obras. A alternativa que oferecem
é aquela lengalenga de sempre. China e Índia
poderiam adotar fontes de energia alternativas como
a obtida dos raios do sol e da força dos ventos.
Os ecologistas se entusiasmam com essas opções,
mas não se importam com os custos. Gerar 1
quilowatt de energia a partir de sol ou vento é
mais caro do que fazer isso pela força das
águas.
É
bom lembrar que a China, que acumula cinqüenta
anos de arbitrariedades sob o regime comunista, não
é país de colocar os direitos humanos
entre suas prioridades. Evidentemente, a sociedade não
foi chamada a discutir a construção
nem mesmo aqueles que terão a vida totalmente
alterada pela barragem. Entre os que serão desalojados,
ninguém sabe para onde pode ser levado. Na Índia,
por sua vez, o governo evita discutir valores das indenizações.
Boa parte da opinião pública da Europa
e dos Estados Unidos, que já desfruta os confortos
da civilização, deseja que as grandes
intervenções no meio ambiente fiquem confinadas
ao passado. Mas, enquanto a economia do Primeiro Mundo
está cada vez mais virtual, China e Índia
ainda vivem dramas do século XIX. Lá,
onde o rio mata e a energia é insuficiente, as
necessidades mais prementes também são
outras.
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