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Bronze
fácil e perigoso
Com
a chegada do verão,
médicos alertam para os riscos
das camas de bronzeamento
Gisela
Sekeff
Fotos: Ricardo Benichio
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Joana
Prado, a
Feiticeira:
"Não
posso ficar
branca
porque
meu personagem
não
permite"
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Verão,
temporada de corpos bronzeados, certo? Erradíssimo.
Foi-se o tempo em que a época de pernas,
barriga e ombros dourados pelo sol ia apenas de
dezembro a março. Nas ruas das grandes
cidades, o desfile dos bronzeados é cenário
típico da primavera, do outono e até
do mais gélido dos invernos. Sol para que,
se dez minutos dentro de uma câmara de bronzeamento
artificial equivalem a uma hora estatelado na
praia? Por ano, quase 2 milhões de brasileiros
se rendem às facilidades do sol artificial.
Ele está disponível em qualquer
esquina, dos centros especializados ao salão
de cabeleireiro do bairro. É um tratamento
muito prático e não custa caro,
uma sessão pode variar de 10 a 25 reais.
Mas é bem arriscado. Tanto é assim
que, nos Estados Unidos, a rigorosa agência
de controle de alimentos e remédios, o
FDA, além de fiscalizar as câmaras,
obriga as clínicas a advertir a clientela
de que o bronzeamento artificial pode causar envelhecimento
precoce e câncer de pele. No Brasil não
há legislação que regulamente
a venda e o uso dessas máquinas
e, obviamente, ninguém é alertado
sobre os riscos envolvidos. "A radiação
presente nas câmaras de bronzeamento é
tão nociva quanto a exposição
descontrolada ao sol", avisa o cancerologista
Ivan de Oliveira Santos, chefe do setor de tumores
da disciplina de cirurgia plástica da Universidade
Federal de São Paulo, a Unifesp.
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Daniela
Camargo: advertência
da dermatologista
afastou
a
apresentadora
do
sol artificial
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Os
donos das câmaras sempre propagandearam
as vantagens do bronzeamento artificial sobre
o natural. Argumentam que 95% dos raios emitidos
são do tipo UVA. Os responsáveis
pelo vermelhão na praia são de outra
espécie, UVB. "A radiação
nessas camas equivale ao sol das primeiras horas
da manhã e do final da tarde", garante
Cyril Harari, dono do Centro Sun Point, uma das
maiores clínicas de bronzeamento de São
Paulo. Desde o início dos anos 90, contudo,
sabe-se que a radiação UVA é
igualmente danosa para a saúde. "Esses
raios têm o poder de atingir as camadas
mais profundas da pele", explica o professor de
dermatologia da Universidade de São Paulo
Ciro Festa Neto. Isso aumenta o risco de envelhecimento
precoce e de surgimento do mais letal câncer
de pele, o melanoma. Segundo o doutor Oliveira
Santos a doença atinge dois entre 1.000
brasileiros. O melanoma é responsável
por seis de cada sete mortes causadas por câncer
de pele. A doença não é provocada
somente pela exposição à
radiação solar, evidentemente tem
de haver uma forte predisposição
genética. Quem já viu uma clínica
de bronzeamento artificial perguntar ao freguês
se há casos da doença na família?
Sem
óculos De
pele alvíssima, cabelos loiros e olhos
castanho-claros, a estudante de direito Patrícia
Gabriel, de 22 anos, habituou-se a ter o corpo
bronzeado o ano inteiro na época em que
morou no Rio de Janeiro. De
volta à capital paulista, em 1993, ela
encontrou nas camas de bronzeamento a solução
para manter a cor. Exceto no verão, Patrícia
não abre mão do sol artificial diariamente,
em sessões de quinze minutos. "Nunca quiseram
saber se na minha família havia casos de
câncer", conta. O salão onde ela
se bronzeia carece de cuidados elementares, como
óculos protetores. "Nessas condições,
os riscos de queimadura de córnea e de
catarata a longo prazo são enormes", adverte
o cirurgião plástico Rogério
Izar Neves, chefe do Departamento de Oncologia
Cutânea do Hospital do Câncer de São
Paulo (veja
quadro ao lado).
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A
estudante Patrícia
Gabriel:
sessões diárias mesmo
sem a
proteção dos
óculos
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Nove
entre dez pessoas que se deitam nessas camas têm
o biotipo de Patrícia, exatamente aquele
com menor defesa diante dos efeitos nocivos do
sol. "É gente que nunca deveria submeter-se
a banho de luz", diz Maurício Alchorne,
presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Vários fatores contribuem para desaconselhar
o bronzeamento artificial. Dentro das câmaras,
os raios incidem diretamente sobre o corpo. Mesmo
aquelas pessoas que não vão à
praia sem proteção máxima
relaxam nos cuidados quando se deitam nas câmaras.
"Usar protetor não faz sentido, pois a
luz é do tipo que não queima", afirma
Paulo Ribeiro Júnior, presidente da Associação
Brasileira de Bronzeamento Artificial. Não
é bem assim. Ao ar livre, a luz solar é
filtrada pela atmosfera. Dentro das cabines, não
há barreira alguma nem para os raios
UVA nem para os UVB. Estes são os responsáveis
pela fixação do bronzeado e, em
excesso, respondem pela maioria das espécies
de câncer de pele. A vermelhidão
é um aviso do organismo contra o abuso.
Como as máquinas emitem pouco UVB, as pessoas
nem sequer podem contar com o alerta do próprio
corpo de que é hora de parar. Vão
para casa contentes com o bronze, ainda que todas
fiquem com a mesma cor algo mais para o marrom-acinzentado,
e não o dourado que se obtém na
areia da praia.
Tudo
isso torna o sol artificial mais perigoso e agressivo
do que o de verdade. "A intensidade das luzes é
duas a três vezes maior que a radiação
solar", diz a dermatologista Sílvia Pereira
Marcondes. Estima-se que morram 1.000
brasileiros por ano vítimas do câncer
de pele. Por
volta de 100.000
novos casos surgem anualmente. "Da forma como estão
usando o bronzeamento artificial, provavelmente
essas estatísticas devem registrar aumento
nos próximos anos", preocupa-se o médico
Marcus Maia, coordenador-geral do Programa Nacional
de Controle do Câncer de Pele. Quando a dermatologista
da apresentadora de televisão Daniela Camargo,
de 30 anos, soube que sua paciente tinha feito uma
única sessão de quinze minutos lhe
passou um grande pito. "Ela disse que não
era saudável e tinha efeito muito pior que
o do sol. Como sou muito branquinha, fiquei assustada",
conta. Depois disso, cabine de bronzeamento nunca
mais. "Acho o dourado natural muito mais bonito
do que aquela cor marrom falsa."
Sangue
na blusa O
bronzeado artificial entrou na moda depois que
vários artistas apareceram, em pleno inverno,
com cor de recém-saídos do mais
tórrido verão (veja
depoimentos).
A moda pegou. Para quem vive da imagem, manter
um bronzeado permanente é garantia de aparecer
bem na televisão e nas fotos. "Eu não
posso ficar branca porque minha personagem não
permite", diz a atriz Joana Prado, a Feiticeira.
Ela
se submete a sessões semanais de quinze
minutos cada uma. "Sei que dá câncer,
mas tento me proteger ao máximo." Joana
não se deita sem filtro solar fator 8,
óculos e toalhas no rosto e no cabelo.
Os médicos são unânimes: precauções
como as da Feiticeira são melhores do que
nada, mas não afastam os riscos.
É
na filosofia do "eu-sei-que-faz-mal-mas-pago-o-preço"
que os donos das máquinas e importadores
fazem a festa. De 1998 para 1999, o número
de camas bronzeadoras pulou de 1.500
para 3.000.
"O mercado tem potencial para 10.000",
entusiasma-se Paulo Ribeiro Júnior, que
com enorme senso de oportunidade pretende instalar
uma fábrica de câmaras no Brasil.
A cada dia, nos meses que antecedem o verão,
pelo menos 20.000
brasileiros trocam o sol verdadeiro pelas camas
de tostar e para atendê-los existem mais
de 2.000
clínicas de bronzeamento. A relações-públicas
paulista Ana Paula Marangon, 25 anos, era "neurótica
por uma corzinha", como ela diz. Sabia do perigo
do sol artificial, mas mesmo assim começou
a fazer o bronzeamento em 1994. "Durante quatro
meses cheguei a ir a duas sessões todos
os dias", lembra. Certa vez, ao tirar a blusa,
percebeu a mancha de sangue. Era uma pinta que
sangrava. Submetida a uma biópsia, veio
o diagnóstico médico: melanoma.
Ana Paula fez duas cirurgias para eliminar o tumor
e uma operação reparadora, porque
foi preciso retirar-lhe 5 centímetros de
pele. Nunca mais enfrentou uma cabine bronzeadora
e se expõe ao sol com moderação.
"Tenho certeza de que o bronzeamento artificial
contribuiu para o surgimento do melanoma", conclui.
Descendente de imigrantes poloneses e italianos,
cabelos e olhos castanho-claros, pele branca com
sardas e pintas, Ana Paula jamais deveria ter
recorrido ao sol artificial. "Eu sei que errei,
mas nunca pensei que fosse acontecer comigo",
afirma. "É preferível aceitar a
própria cor. Se é inverno, assuma,
se for outono também. Não adianta
forçar a natureza." Ana Paula está
coberta de razão.
João Raposo

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Antonio Milena

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"Quando
estou bronzeada
fico com
a aparência
mais
saudável. Viver
na sombra é uma
chatice."
apresentadora
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"Há
quatro meses
parei com o
bronzeamento artificial. Só faço
em casos de emergência
para
o trabalho."
apresentadora
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