Edição 1 627 - 8/12/1999

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Por onde andamos

Pesquisa genética mostra que o homem também
deixou a África acompanhando o litoral asiático

Os primeiros homens que deixaram a África, continente no qual surgiu o Homo sapiens, seguiram uma rota já mapeada pelos cientistas nos anos 60. Eles cruzaram a península do Sinai e se espalharam pela Europa e pela Ásia. Na semana passada anunciou-se a localização de um segundo caminho, distante do primeiro. Essa onda migratória saiu do nordeste da África há 65.000 anos e seguiu pelo litoral até alcançar a Índia. Dali, especula-se, cruzou o oceano e atingiu a Austrália, 15.000 anos mais tarde. Uma novidade é como se chegou a essa descoberta, revelada num artigo publicado na prestigiada revista Nature Genetics: a análise genética. Um grupo de geneticistas e matemáticos italianos e alemães analisou o DNA de habitantes modernos da Índia, da África, do Tibete e da Mongólia – e encontrou uma assinatura genética comum. Ou seja, uma seqüência de mutações genéticas característica de certas populações, conhecida como haplogrupo M. Bastante comum em indianos e etíopes, a assinatura é virtualmente inexistente no Oriente Médio, por onde passaram outras correntes migratórias. A pesquisa concluiu que a assinatura genética surgiu na África Oriental e de lá migrou em direção à Ásia.

O trabalho dos cientistas pode ser a solução de dois enigmas. O primeiro era genético. Durante muito tempo se achava que o haplogrupo M era uma característica de antigas populações asiáticas. Como, então, explicar sua difusão entre os etíopes? O segundo problema era arqueológico e dizia respeito à chegada do homem à Austrália. Utilizando a chamada evidência fóssil, isso é, ossadas, ferramentas e pinturas em cavernas, os cientistas tinham identificado uma primeira rota de dispersão para fora da África, a que cruzou pela península do Sinai em direção ao Oriente Médio. Acredita-se que tenha sido usada em dois momentos. O primeiro há 100.000 anos. Acompanhando a expansão dos climas tropicais, nossos ancestrais deixaram a África pela primeira vez. Ao que parece, não foram além do Oriente Médio. Alguns cientistas acreditam que o resfriamento da região, 30.000 anos depois, os tenha feito retornar à África. Uma segunda expansão, dessa vez definitiva, teria ocorrido por volta de 50.000 anos atrás. Seguindo a mesma rota, os homens percorreram o Oriente Médio em direção ao norte, dispersando-se em vários sentidos, atingindo tanto a Europa Ocidental como o interior da Ásia, aonde chegaram entre 10.000 e 15.000 anos depois. Nessa segunda migração os homens já possuíam ferramentas mais aperfeiçoadas e melhores condições de enfrentar as adversidades de uma jornada tão longa.

O problema é que há vestígios da presença de Homo sapiens na Austrália datados de 50.000 anos. Ou seja, contemporâneos ao momento em que a segunda expansão para fora da África estaria se iniciando pelo Sinai. Para solucionar a questão, a paleoantropóloga brasileira Marta Lahr propôs há cinco anos a hipótese da rota pelo sul da Ásia. O problema era a falta de um único osso para corroborar a teoria. A genética trouxe a resposta. No artigo da Nature, os autores da pesquisa reconhecem que os resultados reforçam a hipótese de Marta.

 

Foto de Vandermeersch