Edição 1 627 - 8/12/1999

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Vencida pela dor

Vítima do massacre físico das quadras,
a atacante Ana Moser abandona o vôlei

Sérgio Ruiz Luz

O massacrante esforço físico exigido pelo esporte de alto nível transformou os joelhos no calcanhar-de-aquiles dos atletas. Duas modalidades, em especial, cobram um preço alto dessa parte do corpo. Uma é o futebol, com os constantes giros e mudanças bruscas de direção realizados pelos craques. O outro destruidor de articulações é o vôlei, com os saltos repetitivos que jogam uma sobrecarga excessiva sobre as pernas dos jogadores. Na semana passada surgiram duas novas vítimas desse processo. O atacante Ronaldinho, da Inter de Milão, submeteu-se a uma cirurgia no tendão patelar de seu joelho direito, afetado durante um jogo do campeonato italiano. Deve ficar fora dos campos por cinco meses. Mais dramática é a situação da atacante de vôlei Ana Moser, que anunciou sua aposentadoria aos 31 anos de idade. Para se transformar na única brasileira citada na galeria dos maiores nomes de todos os tempos do vôlei feminino, a atacante sacrificou os dois joelhos, submetidos a quatro cirurgias em dezesseis anos de carreira. "Estava cansada de conviver com a dor", afirma Ana. "Cheguei ao meu limite."

 

A via-crúcis de Ana Moser começou aos 16 anos, quando foi obrigada a retirar um menisco do joelho esquerdo. Era apenas o início de uma incrível sucessão de problemas. Para amenizar o sofrimento, tomou doses diárias de antiinflamatórios nos últimos quatro anos. Fez acupuntura, aderiu aos exercícios de correção postural da técnica RPG e freqüentou centros espíritas no interior de São Paulo. Nos últimos tempos, jogar era um sacrifício terrível. Uma leve flexão das pernas provocava dores. Como não podia correr nos treinos, mantinha o preparo físico com sessões de hidroginástica e exercitava-se num colchão especial, que carregava debaixo do braço em suas viagens. "Ela sempre foi nota máxima em tudo, até na resistência à dor", diz Sérgio Xavier, médico da atleta há dez anos. Só conseguiu entrar em quadra para jogar seu último torneio, a Copa do Mundo no Japão, depois de tomar três injeções de proteína no joelho esquerdo. Mesmo assim, atuou apenas em seis das onze partidas da campanha. Na volta para o Brasil, ainda no avião, comunicou ao técnico Bernardinho seu afastamento.

Na terça-feira dia 30, ela acertou os detalhes da rescisão de contrato com seu time, o BCN, que lhe pagava um salário de 21 000 reais. "Não tenho mágoas, pois fiz um sacrifício que me trouxe muitas alegrias", conta a atacante, que chegou à seleção brasileira com 17 anos. Com a seleção foi campeã mundial juvenil, medalha de bronze olímpica e vencedora do Grand Prix mundial. Por duas vezes foi eleita a melhor jogadora do mundo. Ana ainda não sabe o que vai fazer fora das quadras. No momento, está envolvida em dois projetos. Um deles é uma escola de vôlei para crianças. O outro é Pelas Minhas Mãos, o livro autobiográfico que pretende lançar em março. Num dos capítulos, escreveu: "É difícil falar de dor, pois ela é minha e de mais ninguém. A dor nos joelhos só me abandona quando estou em férias. Mas basta voltar a pisar numa quadra, fazer uma postura de manchete ou dar um salto para ela aparecer."