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Vencida
pela dor
Vítima
do massacre físico das quadras,
a atacante Ana Moser abandona o vôlei
Sérgio
Ruiz Luz
O
massacrante esforço físico exigido
pelo esporte de alto nível transformou os
joelhos no calcanhar-de-aquiles dos atletas. Duas
modalidades, em especial, cobram um preço
alto dessa parte do corpo. Uma é o futebol,
com os constantes giros e mudanças bruscas
de direção realizados pelos craques.
O outro destruidor de articulações
é o vôlei, com os saltos repetitivos
que jogam uma sobrecarga excessiva sobre as pernas
dos jogadores. Na semana passada surgiram duas novas
vítimas desse processo. O atacante Ronaldinho,
da Inter de Milão, submeteu-se a uma cirurgia
no tendão patelar de seu joelho direito,
afetado durante um jogo do campeonato italiano.
Deve ficar fora dos campos por cinco meses. Mais
dramática é a situação
da atacante de vôlei Ana Moser, que anunciou
sua aposentadoria aos 31 anos de idade. Para se
transformar na única brasileira citada na
galeria dos maiores nomes de todos os tempos do
vôlei feminino, a atacante sacrificou os dois
joelhos, submetidos a quatro cirurgias em dezesseis
anos de carreira. "Estava cansada de conviver com
a dor", afirma Ana. "Cheguei ao meu limite."
A
via-crúcis de Ana Moser começou aos
16 anos, quando foi obrigada a retirar um menisco
do joelho esquerdo. Era apenas o início de
uma incrível sucessão de problemas.
Para amenizar o sofrimento, tomou doses diárias
de antiinflamatórios nos últimos quatro
anos. Fez acupuntura, aderiu aos exercícios
de correção postural da técnica
RPG e freqüentou centros espíritas no
interior de São Paulo. Nos últimos
tempos, jogar era um sacrifício terrível.
Uma leve flexão das pernas provocava dores.
Como não podia correr nos treinos, mantinha
o preparo físico com sessões de hidroginástica
e exercitava-se num colchão especial, que
carregava debaixo do braço em suas viagens.
"Ela sempre foi nota máxima em tudo, até
na resistência à dor", diz Sérgio
Xavier, médico da atleta há dez anos.
Só conseguiu entrar em quadra para jogar
seu último torneio, a Copa do Mundo no Japão,
depois de tomar três injeções
de proteína no joelho esquerdo. Mesmo assim,
atuou apenas em seis das onze partidas da campanha.
Na volta para o Brasil, ainda no avião, comunicou
ao técnico Bernardinho seu afastamento.
Na
terça-feira dia 30, ela acertou os detalhes
da rescisão de contrato com seu time, o BCN,
que lhe pagava um salário de 21 000 reais.
"Não tenho mágoas, pois fiz um sacrifício
que me trouxe muitas alegrias", conta a atacante,
que chegou à seleção brasileira
com 17 anos. Com a seleção foi campeã
mundial juvenil, medalha de bronze olímpica
e vencedora do Grand Prix mundial. Por duas vezes
foi eleita a melhor jogadora do mundo. Ana ainda
não sabe o que vai fazer fora das quadras.
No momento, está envolvida em dois projetos.
Um deles é uma escola de vôlei para
crianças. O outro é Pelas
Minhas Mãos, o
livro autobiográfico que pretende lançar
em março. Num dos capítulos, escreveu:
"É difícil falar de dor, pois ela
é minha e de mais ninguém. A dor nos
joelhos só me abandona quando estou em férias.
Mas basta voltar a pisar numa quadra, fazer uma
postura de manchete ou dar um salto para ela aparecer."
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