Edição 1 627 - 8/12/1999

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Mutreta baiana

Em Salvador, qualquer um
tira carteira de estudante

 

Edson Ruiz

Teatro Castro Alves e carteira da Ueses: ingressos mais
caros para
compensar falcatrua

As carteiras de estudante foram criadas para que crianças e jovens tenham acesso barato a espetáculos de entretenimento e cultura. De posse do documento, alunos de escolas e universidades têm desconto de 50% em cinemas, teatros e casas de show. Em Salvador, esse direito está sendo corrompido. Estima-se que existam, na capital baiana, cerca de 100.000 carteiras de estudantes nas mãos de quem há muito não senta diante de um quadro-negro. Em todo o país, a média de ingressos vendidos para estudantes em shows musicais é de 20%. Em Salvador, pula para 80%. A bagunça na emissão de carteiras está começando a tirar a cidade do roteiro dos artistas mais badalados. O cantor Chico Buarque cancelou a apresentação que faria em outubro no Teatro Castro Alves. "A praça de Salvador está desmoralizada", diz Ieda Almeida, sócia da produtora que estava preparando a visita de Chico à cidade. "Tivemos de cancelar o show, pois teríamos de cobrar 160 reais pelo ingresso para ter lucro."

Os cinemas e teatros de Salvador são obrigados por força de uma lei estadual e de um decreto municipal a aceitar carteiras de estudante emitidas por quatro entidades estudantis. Enquanto três delas expediram juntas 80.000 carteiras neste ano, a União dos Estudantes Secundaristas de Salvador, Ueses, emitiu sozinha 200.000. O sucesso de público da Ueses não se deve ao carisma de nenhum líder estudantil. As outras entidades exigem comprovante de matrícula para a confecção do documento, ao passo que a Ueses vende por 4 reais carteiras em branco para terceiros, que as repassam a quem quiser comprar, por 7 reais. Hoje, tira-se carteira de estudante em Salvador até em quiosque de chaveiro.