Edição 1 627 - 8/12/1999

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Montanha que anda

Com novos aparelhos de medição, cientistas
descobrem que o Everest cresceu e se move

 

Vinte satélites a postos, dezenas de sensores eletrônicos e câmaras à disposição de seis pesquisadores para ajudar a responder à questão: qual a altura real do mais alto ponto da Terra? A compilação dos dados recolhidos pela Expedição Milênio no Monte Everest, no Nepal, durou seis meses. Os equipamentos sofisticados utilizados desta vez permitiram descobrir que o teto do mundo tem 2 metros a mais do que a altitude medida por geógrafos indianos em 1954 e utilizada oficialmente desde então. Os alpinistas que se aventurarem agora no Everest enfrentarão uma escalada de 8.850 metros até o cume. Além de descobrir o aumento na altura, a missão chefiada pelo cientista Bradford Washburn, um veterano de 89 anos, produziu uma revelação surpreendente. A gigantesca formação rochosa move-se 6 centímetros por ano no sentido nordeste. Parece incrível pensar que o Everest, maior do que se imaginava, está se movendo. É isso mesmo. "Nada é fixo naquela região", explica o professor Vladimir Shukowsky, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo, USP. "A montanha cresce e avança porque uma falha nas placas tectônicas puxa vagarosamente a Índia em direção ao Nepal e à China."

Três outras missões de pesquisadores escalaram o Everest desde 1995 financiados pela Expedição Milênio. Os cientistas posicionaram equipamentos de medição em pontos-chave da montanha para coletar informações que foram transmitidas à frota de satélites do sistema de posicionamento global, GPS. Essa tarefa durou meses até que os primeiros números fossem compilados. O resultado da expedição subverte toda a geografia daqui para a frente. A National Geographic Society, dona de conceituadíssimo departamento cartográfico, informou que revisará todos os novos mapas e globos por causa do que foi descoberto pela equipe de Bradford Washburn. "Foi a mais sofisticada análise sobre a altura do ponto mais alto da Terra", avalia Allen Carroll, cartógrafo-chefe da Geographic. Uma pesquisa semelhante à do Everest foi realizada recentemente no norte da Tanzânia, na África. O GPS ajudou a mensurar a altura real do topo do Kilimanjaro, a maior montanha africana. Sabe-se agora que ela mede 5.891 metros, cerca de 3 a menos do que a altura oficial. O Kilimanjaro não se moveu ou encolheu. Havia um erro de medição. Pelo que se sabe, só o Everest se move. Enquanto continuar a acomodação das placas tectônicas, dificilmente o pico do mundo estará estável. "Neste momento o Everest já pode ser um pouco mais alto e ligeiramente mais a nordeste em relação à posição determinada agora", diz Bradford Washburn.