Montanha
que anda
Com
novos aparelhos de medição, cientistas
descobrem que o Everest cresceu e se move
Vinte
satélites a postos, dezenas de sensores eletrônicos
e câmaras à disposição
de seis pesquisadores para ajudar a responder à
questão: qual a altura real do mais alto
ponto da Terra? A compilação dos dados
recolhidos pela Expedição Milênio
no Monte Everest, no Nepal, durou seis meses. Os
equipamentos sofisticados utilizados desta vez permitiram
descobrir que o teto do mundo tem 2 metros a mais
do que a altitude medida por geógrafos indianos
em 1954 e utilizada oficialmente desde então.
Os alpinistas que se aventurarem agora no Everest
enfrentarão uma escalada de 8.850
metros até o cume. Além de descobrir
o aumento na altura, a missão chefiada pelo
cientista Bradford Washburn, um veterano de 89 anos,
produziu uma revelação surpreendente.
A gigantesca formação rochosa move-se
6 centímetros por ano no sentido nordeste.
Parece incrível pensar que o Everest, maior
do que se imaginava, está se movendo. É
isso mesmo. "Nada é fixo naquela região",
explica o professor Vladimir Shukowsky, do Instituto
Astronômico e Geofísico da Universidade
de São Paulo, USP. "A montanha cresce e avança
porque uma falha nas placas tectônicas puxa
vagarosamente a Índia em direção
ao Nepal e à China."
Três
outras missões de pesquisadores escalaram o
Everest desde 1995 financiados pela Expedição
Milênio. Os cientistas posicionaram equipamentos
de medição em pontos-chave da montanha
para coletar informações que foram transmitidas
à frota de satélites do sistema de posicionamento
global, GPS. Essa tarefa durou meses até que
os primeiros números fossem compilados. O resultado
da expedição subverte toda a geografia
daqui para a frente. A National Geographic Society,
dona de conceituadíssimo departamento cartográfico,
informou que revisará todos os novos mapas
e globos por causa do que foi descoberto pela equipe
de Bradford Washburn. "Foi a mais sofisticada análise
sobre a altura do ponto mais alto da Terra", avalia
Allen Carroll, cartógrafo-chefe da Geographic.
Uma pesquisa semelhante à do Everest foi realizada
recentemente no norte da Tanzânia, na África.
O GPS ajudou a mensurar a altura real do topo do Kilimanjaro,
a maior montanha africana. Sabe-se agora que ela mede
5.891
metros, cerca de 3 a menos do que a altura oficial.
O Kilimanjaro não se moveu ou encolheu. Havia
um erro de medição. Pelo que se sabe,
só o Everest se move. Enquanto continuar a
acomodação das placas tectônicas,
dificilmente o pico do mundo estará estável.
"Neste momento o Everest já pode ser um pouco
mais alto e ligeiramente mais a nordeste em relação
à posição determinada agora",
diz Bradford Washburn.