Edição 1 627 - 8/12/1999

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Planetas em penca

Descobertos seis corpos celestes
em constelações distantes anos-luz da Terra

 

Em uma só tacada, astrônomos americanos aumentaram em 25% o número de planetas extra-solares conhecidos. Na semana passada, uma equipe de astrônomos de três universidades americanas e inglesas anunciou a descoberta de seis planetas fora do sistema solar. Eles orbitam em torno de estrelas semelhantes ao nosso Sol em seis diferentes e distantes constelações. São agora 28 planetas catalogados, 24 dos quais descobertos pelo mesmo time de astrônomos. Todos os novos planetas têm padrão de massa e tamanho comparáveis aos de Júpiter, o maior de nosso sistema solar. A composição é basicamente a mesma: hélio e hidrogênio. O que chama a atenção é o fato de que cinco desses planetas orbitam entre 83 milhões e 345 milhões de quilômetros de seu respectivo sol. É a posição ideal para a existência de água e talvez de alguma forma de vida, mesmo que sejam primitivas bactérias. A maior parte dos demais planetas extra-solares está muito perto ou muito longe de suas estrelas, o que significa temperaturas extremamente quentes ou frias. Isso torna impossível a existência de água na forma líquida. E, portanto, elimina a possibilidade de vida do jeito que nós a conhecemos.

Os planetas foram descobertos a partir de observações feitas nos últimos três anos no Observatório Keck, no Havaí. As pesquisas fazem parte de um programa da agência espacial americana, a Nasa, que investiga 500 estrelas. Ainda não batizados, os corpos são identificados pelos nomes das estrelas que orbitam: HD 10697 na constelação de Peixes; HD 37124, em Touro; HD 134987, em Libra; HD 177830, de Vulpecula; HD 192263, em Aquila; e HD 2222582, em Aquário. Mesmo que a natureza gasosa desses astros seja um empecilho natural à vida, os astrônomos acreditam que eles possam ter luas sólidas, bem mais acolhedoras. A inspiração vem de nosso próprio sistema, cujos gigantes Saturno e Júpiter possuem, respectivamente, dezoito e dezesseis luas.

Duas delas, pela avaliação da Nasa, teriam condições de abrigar vida em nosso próprio sistema solar.

Até cinco anos atrás, os cientistas achavam que a existência de planetas gigantes devia ser muito rara. Hoje, estão se revelando a regra. Mesmo assim, com todo o seu tamanho, até 2.020 vezes maiores que a Terra, não podem ser diretamente vistos nem mesmo por potentes telescópios. Eles não emitem luz, e a distância não permite que a luz da estrela refletida sobre a superfície deles chegue até nós. Para constatar a existência desses corpos siderais, os cientistas recorrem a métodos indiretos. A técnica mais moderna se baseia na influência da gravidade do planeta sobre a luz que sua estrela emite. Da mesma maneira que são atraídos pelas estrelas, os planetas as atraem, como se fosse um cabo-de-guerra. Isso faz com que as estrelas descrevam pequenos círculos, que acompanham a órbita do satélite. À medida que se movimentam, o espectro da luz que emitem sofre uma variação muito sutil, mas detectável pelos instrumentos terrestres. É por meio dessa variação que os cientistas identificam a presença de um "companheiro" nas proximidades do astro. Alguns críticos desse método argumentavam que a variação poderia ser um fenômeno ligado à própria natureza da estrela, e que talvez não existisse nenhum planeta extra-solar.

Há apenas três semanas os cientistas obtiveram a confirmação de que o método realmente funciona. Uma observação telescópica flagrou um eclipse causado por um planeta que orbita a estrela HD 209458, na constelação de Pégaso. Esse eclipse havia sido previsto pela mesma equipe que anunciou a descoberta dos seis planetas e foi considerado a comprovação definitiva de que o sistema indireto realmente funciona. Devido a isso, o anúncio dos novos planetas foi recebido sem as polêmicas que costumavam acompanhar cada descoberta do grupo anglo-americano. A especulação agora é se as estrelas HD 217107 e HD 187123, junto às quais se encontraram planetas, serão ou não o centro de uma espécie de sistema solar, semelhante ao identificado no início do ano na estrela de Upsilon Andrômeda. "Vamos levar ainda alguns anos para calcular a massa e a órbita desses outros planetas", diz o astrônomo Steven Vogt, membro do grupo. "Mas tudo indica que devem existir inúmeras formações do tipo sistema solar espalhadas pelo espaço."

Encontrar planetas fora de nosso sistema solar é um sonho antigo dos astrônomos que só se tornou realidade nos últimos anos. Sempre se acreditou que pudessem existir sistemas extra-solares, mas faltavam provas. O raciocínio que levava a essa suposição era simples. O sol de nosso sistema é uma estrela absolutamente comum – estima-se que só na Via Láctea existam 65 bilhões de astros similares. Pelo menos algumas delas deveriam possuir corpos celestes orbitando a seu redor. Curiosamente, a pesquisa de planetas extra-solares tem mostrado que nosso sistema é mais especial do que pensávamos. Até agora, a maior parte dos planetas encontrados percorre órbitas ovaladas e estranhas, enquanto a Terra e seus vizinhos descrevem círculos quase perfeitos ao redor do Sol. Outra diferença importante é o período orbital, que é o tempo que um planeta demora para completar uma volta. Enquanto Mercúrio leva 88 dias para dar seu giro completo em torno do Sol, lá fora há planetas que fazem o mesmo em três dias e meio.