Edição 1 627 - 8/12/1999

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Sol barato em Cuba

Com bons hotéis e preços em conta, a ilha
oferece oportunidade de ver outro mundo

Juliana De Mari


Ronaldo Ribeiro
Cuba: 300 praias de areias brancas
e mar cristalino


Q
uem deixou para programar a viagem de réveillon na última hora pode voltar a sonhar com as paisagens paradisíacas do Caribe. Dessa vez, porém, a mistura explosiva de sol e tequila passa longe da badalação de Cancún, Aruba ou das Bahamas. A oportunidade, quem diria, é Cuba. É possível encontrar um pacote para o Ano-Novo na ensolarada ilha de Fidel Castro por 965 dólares por pessoa, enquanto para outros balneários caribenhos a tarifa chega a quase 5.000 dólares. Cuba tem a seu favor mais de 300 praias de areia branca e mar cristalino e infra-estrutura hoteleira com resorts de nível internacional. O charme adicional da visita a Cuba fica por conta da condição insólita do país – um derradeiro dinossauro comunista, arredio a reformas econômicas e à abertura política, mas que ninguém sabe até quando resistirá.

A temporada de fim de ano em Cuba reserva várias tentações. A primeira é a queda em bloco das tarifas nos hotéis do país. A hotelaria cubana, que normalmente já é a mais barata do Caribe, resolveu caprichar nos descontos. Ressabiada com os encalhes nos quatro cantos do mundo, cortou as diárias em até 30% bem antes da febre de descontos que começa a pipocar no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Outra boa notícia é que, ditadura à parte, o investimento de cadeias internacionais em acomodações de luxo no país nunca esteve tão acelerado. Nos últimos dois anos, foram inaugurados treze hotéis de quatro e cinco estrelas. A maior parte deles na península de Varadero, a 140 quilômetros de Havana, onde estão as praias mais cobiçadas da ilha. À beira-mar de Varadero o turista pode hospedar-se num legítimo Club Med. Comparado aos que funcionam no Brasil – em Itaparica, na Bahia, e Rio das Pedras, no Rio de Janeiro – , leva enorme vantagem no quesito preço. Em Cuba, o réveillon no resort sai por 1.498 dólares por pessoa. Na Bahia, 4.436 reais.

O que transformou Cuba na meca do turismo barato é a fragilidade da economia pós-União Soviética. Fidel Castro faz qualquer negócio para atrair turistas e levantar alguns trocados em moeda forte. O país entrou em colapso em 1993, depois que a Rússia, livre do comunismo, cortou a mesada que sustentava o regime. Fidel reagiu com uma discreta abertura ao capital estrangeiro e a economia dá sinais de recuperação, sobretudo graças ao turismo. Mas está longe de saudável. Cuba atraiu menos de 3 bilhões de dólares de investimentos estrangeiros nos anos 90 – e a culpa é inteiramente do ditador, visceralmente contra maior abertura ao capital privado. Hotéis luxuosos a preços convidativos são o remédio à mão para reforçar o caixa. De 1987 até o ano passado, o número de visitantes cresceu cerca de cinco vezes e a quantidade de dinheiro deixada no país por toda essa gente, quase dez (veja quadro abaixo). A grande aposta de Havana, no momento, é no fim do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos. Pela primeira vez em quase quatro décadas, há sinais sólidos de que Washington pode mudar de política.

Um número significativo de gente importante tem-se manifestado por mudanças e o movimento antiembargo atingiu uma solidez sem precedente. Longe de ser obra de esquerdistas de plantão, é tocado por empresários e políticos interessados em ganhar dinheiro e, se possível, dar uma mãozinha à democracia na ilha. O raciocínio é de que o momento é propício para invadir novamente Cuba, mas desta vez não com um exército de exilados, e sim com produtos que povoam os sonhos dos cubanos comuns: tênis da moda, MTV e McDonald's. Se os americanos fazem bons negócios com velhos inimigos, como a China e a Rússia, por que não com Cuba? Melhores relações comerciais são uma oportunidade única para ambos os lados. É bom negócio para os Estados Unidos, porque, apesar de sua pobreza, Cuba precisa comprar de tudo um pouco. É bom negócio para os cubanos, porque seu país está a apenas meia hora de vôo de Miami e poderá receber um fluxo enorme de turistas e capital americanos.

Pela manutenção do embargo está o poderoso lobby de exilados cubanos instalados em Miami e, de certa forma, o próprio regime cubano, temeroso dos efeitos do desembarque massivo de americanos. Cuba está longe de ser lugar acolhedor para negócios, como alguns países que se livraram do comunismo. Investidores espanhóis e canadenses na ilha vivem ensandecidos com os excessos da burocracia socialista. Também não se pode esperar demais da capacidade de consumo do trabalhador cubano, que sobrevive com um salário mensal médio equivalente a 15 dólares. É verdade que tudo isso pode mudar rapidamente, se Fidel permitir. Uma tímida liberação dos pequenos negócios, por exemplo, encheu o país de pizzarias e outros empreendimentos individuais.

O que os pacotes rumo à ilha têm de especial é justamente o contraste entre as novíssimas regalias oferecidas aos que chegam e a atmosfera de país parado no tempo que marca a vida de seus 11 milhões de habitantes. Num passeio pela capital, Havana, patrimônio histórico da humanidade, o turista depara numa esquina com aqueles carrões dos anos 50, que desfilam em avenidas margeadas por edifícios caindo aos pedaços, e, na outra, com a efervescência de botequins lotados de turistas dançando salsa tocada ao vivo. Por isso mesmo, quem viaja para Cuba deve levar na bagagem, além dos trajes de praia, uma boa dose de tolerância. As dificuldades podem ser sentidas na precariedade das ruas, na falta de produtos nas prateleiras ou no número reduzido de restaurantes espalhados pela ilha. Talvez esteja aí o grande glamour da viagem: a sensação de estar num lugar hoje ainda mais diferente de qualquer outro do mundo. É ver antes que acabe.