Com
apenas 28 anos de vida independente, Bangladesh
coleciona uma impressionante série de tragédias.
Sua própria criação foi precedida
de uma guerra entre Índia e Paquistão.
Nasceu miserável, e as mazelas se multiplicam
periodicamente pelo efeito de enchentes e ciclones.
Como de hábito, a pobreza propicia terreno
fértil para o fanatismo religioso, neste
caso o dos grupos muçulmanos que fazem uma
leitura primitiva do Corão.
A mistura viciosa se estampa no rosto das mulheres
atacadas com jatos de ácido, um crime cada
vez mais comum em Bangladesh. As vítimas
são quase sempre garotas pobres que recusaram
casamentos arranjados, investidas sexuais ou a clausura
que lhes querem impor os pais ou maridos.
Pelo
equivalente a 60 centavos de dólar, qualquer
homem contrariado em seu machismo ou em sua visão
tacanha de mundo pode comprar ácido sulfúrico.
A substância corrói a pele e os músculos
das vítimas. As queimaduras causam a morte
de algumas. Muitas ficam cegas ou surdas. E quase
todas acabam rejeitadas pelas próprias famílias
desfiguradas, dificilmente se casarão.
Calcula-se que entre um terço e a metade
dos 127 milhões de habitantes de Bangladesh
faz apenas uma refeição por dia. Dote
e herança da família do noivo habitam
os sonhos da maioria dos pais de meninas, sobretudo
nas áreas rurais. As mulheres são,
nesses meios, vistas como mercadoria, com poucas
perspectivas de trabalho ou estudo. O índice
de analfabetismo, que entre os homens já
é grande, 50%, chega a 74% entre as mulheres.
Plástica
no exterior Não
bastasse o trauma psicológico e a dor física,
o destino mais provável das vítimas
do ácido é a mendicância e o
ocultamento do rosto pelo resto da vida. A vergonha
e o medo de represália inibem muitas dessas
mulheres de prestar queixa à polícia
ou buscar ajuda. Com isso, a barbárie tende
a crescer. No ano passado, houve mais de 200 ataques
registrados, setenta a mais do que em 1997. A impunidade
contribui para que a prática se perpetue.
Mesmo com a adoção, há quatro
anos, de uma lei mais rigorosa, apenas dez criminosos
foram presos. Ignorado durante muito tempo, o problema
só agora começa a ser conhecido no
exterior. Em maio, a Organização das
Nações Unidas, ONU, criou um programa
em Bangladesh com o fim específico de socorrer
as mulheres desfiguradas por ácido. Hospitais
americanos e europeus também lhes vêm
dando assistência gratuita. Em julho, um grupo
de seis moças retornou ao país depois
de nove meses de tratamento intensivo na Espanha
com cirurgias plásticas que, se não
lhes puderam devolver as feições,
pelo menos mitigaram seu sofrimento.
Ao
contrário de países como o Afeganistão
ou o Irã, Bangladesh não adota o islamismo
como ideário político. Se o sexo feminino
é oficialmente marginalizado naqueles países,
em Bangladesh mulheres ocupam o cargo de primeiro-ministro
e o posto de líder da oposição.
Os sucessivos governos, no entanto, não têm
conseguido melhorar a qualidade de vida da imensa
maioria da população. Somem-se a isso
as recorrentes suspeitas de corrupção
e fica explicada a desconfiança crescente
com que os políticos são vistos. Paralelamente,
o fundamentalismo muçulmano retira sua força
das raízes da sociedade, principalmente as
mais atrasadas. Graças a programas de desenvolvimento
criados pelo governo e apoiados por organizações
humanitárias estrangeiras, nos últimos
anos as mulheres vêm conquistando mais empregos
e uma pequena parcela já não tem no
casamento a única chance de sobrevivência
econômica. Esse avanço provoca a fúria
dos homens que teimam em vê-las como servas.
Sinal de que as mudanças precisam começar
do berço.