Edição 1 627 - 8/12/1999

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Mulheres que se rebelam têm o rosto desfigurado

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Bangladesh

Punição: ácido no rosto

Muçulmanas que ousam se rebelar
contra
as tradições têm as feições desfiguradas

 

Com apenas 28 anos de vida independente, Bangladesh coleciona uma impressionante série de tragédias. Sua própria criação foi precedida de uma guerra entre Índia e Paquistão. Nasceu miserável, e as mazelas se multiplicam periodicamente pelo efeito de enchentes e ciclones. Como de hábito, a pobreza propicia terreno fértil para o fanatismo religioso, neste caso o dos grupos muçulmanos que fazem uma leitura primitiva do Corão. A mistura viciosa se estampa no rosto das mulheres atacadas com jatos de ácido, um crime cada vez mais comum em Bangladesh. As vítimas são quase sempre garotas pobres que recusaram casamentos arranjados, investidas sexuais ou a clausura que lhes querem impor os pais ou maridos.

Pelo equivalente a 60 centavos de dólar, qualquer homem contrariado em seu machismo ou em sua visão tacanha de mundo pode comprar ácido sulfúrico. A substância corrói a pele e os músculos das vítimas. As queimaduras causam a morte de algumas. Muitas ficam cegas ou surdas. E quase todas acabam rejeitadas pelas próprias famílias – desfiguradas, dificilmente se casarão. Calcula-se que entre um terço e a metade dos 127 milhões de habitantes de Bangladesh faz apenas uma refeição por dia. Dote e herança da família do noivo habitam os sonhos da maioria dos pais de meninas, sobretudo nas áreas rurais. As mulheres são, nesses meios, vistas como mercadoria, com poucas perspectivas de trabalho ou estudo. O índice de analfabetismo, que entre os homens já é grande, 50%, chega a 74% entre as mulheres.  

Plástica no exterior – Não bastasse o trauma psicológico e a dor física, o destino mais provável das vítimas do ácido é a mendicância e o ocultamento do rosto pelo resto da vida. A vergonha e o medo de represália inibem muitas dessas mulheres de prestar queixa à polícia ou buscar ajuda. Com isso, a barbárie tende a crescer. No ano passado, houve mais de 200 ataques registrados, setenta a mais do que em 1997. A impunidade contribui para que a prática se perpetue. Mesmo com a adoção, há quatro anos, de uma lei mais rigorosa, apenas dez criminosos foram presos. Ignorado durante muito tempo, o problema só agora começa a ser conhecido no exterior. Em maio, a Organização das Nações Unidas, ONU, criou um programa em Bangladesh com o fim específico de socorrer as mulheres desfiguradas por ácido. Hospitais americanos e europeus também lhes vêm dando assistência gratuita. Em julho, um grupo de seis moças retornou ao país depois de nove meses de tratamento intensivo na Espanha com cirurgias plásticas que, se não lhes puderam devolver as feições, pelo menos mitigaram seu sofrimento.

Ao contrário de países como o Afeganistão ou o Irã, Bangladesh não adota o islamismo como ideário político. Se o sexo feminino é oficialmente marginalizado naqueles países, em Bangladesh mulheres ocupam o cargo de primeiro-ministro e o posto de líder da oposição. Os sucessivos governos, no entanto, não têm conseguido melhorar a qualidade de vida da imensa maioria da população. Somem-se a isso as recorrentes suspeitas de corrupção e fica explicada a desconfiança crescente com que os políticos são vistos. Paralelamente, o fundamentalismo muçulmano retira sua força das raízes da sociedade, principalmente as mais atrasadas. Graças a programas de desenvolvimento criados pelo governo e apoiados por organizações humanitárias estrangeiras, nos últimos anos as mulheres vêm conquistando mais empregos e uma pequena parcela já não tem no casamento a única chance de sobrevivência econômica. Esse avanço provoca a fúria dos homens que teimam em vê-las como servas. Sinal de que as mudanças precisam começar do berço.