Edição 1 627 - 8/12/1999

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Guerra total na Chechênia
Uma chance à paz
Mulheres que se rebelam têm o rosto desfigurado

Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Roberto Campos
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações

Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


Irlanda do Norte

Entre inimigos

Governo reunindo católicos e protestantes
leva esperança de paz à região conturbada

 

Será que desta vez vai? O processo de paz na Irlanda do Norte deu um salto histórico na semana passada. O novo governo autônomo da província, que tomou posse na quinta-feira, não apenas mistura os arquiinimigos católicos e protestantes. Também inclui guerrilheiros empedernidos, como o ex-comandante do Exército Republicano Irlandês, o IRA, Martin McGuiness, na qualidade de ministro da Educação, e o reverendo Ian Paisley, líder unionista que até outro dia denunciava o acordo de paz como uma rendição ao terrorismo. Está se repetindo em Belfast o fenômeno dos acordos que transformam terroristas em políticos.

As negociações para a formação do governo – que põe fim a 27 anos sob a administração direta de Londres – estavam no limbo desde o ano passado. Isso porque os protestantes, defensores da permanência da província no Reino Unido (que reúne também a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales), se recusavam a indicar seus representantes se o IRA não se desarmasse. O acordo renasceu com a promessa do grupo de entregar suas armas até fevereiro do ano que vem. Numa região fragmentada em linhas confessionais há séculos e em guerra aberta há três décadas, ainda é difícil de acreditar. A surpresa é que os 800 anos de conflitos tenham terminado não com a expulsão dos ingleses, como queriam os nacionalistas do IRA, mas com um acordo irlandês-britânico. A Inglaterra protestante invadiu a ilha na Idade Média. O catolicismo serviu como catalisador da identidade nacional irlandesa e da resistência contra a ocupação. A ilha foi partilhada em duas em 1921, com a maior porção transformando-se em República da Irlanda, independente e catolicíssima. Alguns condados do norte, de maioria protestante, se mantiveram como parte integrante da Grã-Bretanha – é o chamado Ulster ou Irlanda do Norte. Nos últimos trinta anos, confinadas em bairros separados por muros e cercas de arame farpado, as duas comunidades trocaram tiros e bombas, com mais de 3.500 mortos.

Num tratado assinado em abril de 1998 (apelidado de Acordo da Sexta-Feira Santa), Londres aceitou um governo autônomo na província. A República da Irlanda, em contrapartida, retirou de sua Constituição o dever de anexar o norte protestante. Ficou acertado também o governo partilhado. Pelo acordo, qualquer nova decisão sobre a soberania na Irlanda do Norte precisaria ser submetida a plebiscito. O católico John Hume e o protestante David Trimble, dois líderes moderados signatários do acordo, até dividiram o Prêmio Nobel da Paz. Em agosto, uma bomba reivindicada por uma facção radical do IRA deixou 28 mortos numa cidadezinha norte-irlandesa. E quase que tudo desanda. É aí que mora o perigo. Para que a paz seja duradoura, não basta que o acordo seja seguido à risca pelos políticos. Em um ambiente de ódios profundos, uns poucos atos de sabotagem são suficientes para pôr tudo a perder. Para complicar, o pacto na Irlanda do Norte não resolve o cerne do conflito – a maioria dos católicos (que representam 38% da população) continua desejando uma Irlanda unida, e a maior parte dos protestantes ainda prefere continuar cidadãos da Grã-Bretanha.