Governo
reunindo católicos e protestantes
leva esperança de paz à região
conturbada
Será
que desta vez vai? O processo de paz na Irlanda
do Norte deu um salto histórico na semana
passada. O novo governo autônomo da província,
que tomou posse na quinta-feira, não apenas
mistura os arquiinimigos católicos e protestantes.
Também inclui guerrilheiros empedernidos,
como o ex-comandante do Exército Republicano
Irlandês, o IRA, Martin McGuiness, na qualidade
de ministro da Educação, e o reverendo
Ian Paisley, líder unionista que até
outro dia denunciava o acordo de paz como uma rendição
ao terrorismo. Está se repetindo em Belfast
o fenômeno dos acordos que transformam terroristas
em políticos.
As
negociações para a formação
do governo que põe fim a 27 anos sob
a administração direta de Londres
estavam no limbo desde o ano passado. Isso
porque os protestantes, defensores da permanência
da província no Reino Unido (que reúne
também a Inglaterra, a Escócia e o
País de Gales), se recusavam a indicar seus
representantes se o IRA não se desarmasse.
O acordo renasceu com a promessa do grupo de entregar
suas armas até fevereiro do ano que vem.
Numa região fragmentada em linhas confessionais
há séculos e em guerra aberta há
três décadas, ainda é difícil
de acreditar. A surpresa é que os 800 anos
de conflitos tenham terminado não com a expulsão
dos ingleses, como queriam os nacionalistas do IRA,
mas com um acordo irlandês-britânico.
A Inglaterra protestante invadiu a ilha na Idade
Média. O catolicismo serviu como catalisador
da identidade nacional irlandesa e da resistência
contra a ocupação. A ilha foi partilhada
em duas em 1921, com a maior porção
transformando-se em República da Irlanda,
independente e catolicíssima. Alguns condados
do norte, de maioria protestante, se mantiveram
como parte integrante da Grã-Bretanha
é o chamado Ulster ou Irlanda do Norte. Nos
últimos trinta anos, confinadas em bairros
separados por muros e cercas de arame farpado, as
duas comunidades trocaram tiros e bombas, com mais
de 3.500
mortos.
Num
tratado assinado em abril de 1998 (apelidado de
Acordo da Sexta-Feira Santa), Londres aceitou um
governo autônomo na província. A República
da Irlanda, em contrapartida, retirou de sua Constituição
o dever de anexar o norte protestante. Ficou acertado
também o governo partilhado. Pelo acordo,
qualquer nova decisão sobre a soberania na
Irlanda do Norte precisaria ser submetida a plebiscito.
O católico John Hume e o protestante David
Trimble, dois líderes moderados signatários
do acordo, até dividiram o Prêmio Nobel
da Paz. Em agosto, uma bomba reivindicada por uma
facção radical do IRA deixou 28 mortos
numa cidadezinha norte-irlandesa. E quase que tudo
desanda. É aí que mora o perigo. Para
que a paz seja duradoura, não basta que o
acordo seja seguido à risca pelos políticos.
Em um ambiente de ódios profundos, uns poucos
atos de sabotagem são suficientes para pôr
tudo a perder. Para complicar, o pacto na Irlanda
do Norte não resolve o cerne do conflito
a maioria dos católicos (que representam
38% da população) continua desejando
uma Irlanda unida, e a maior parte dos protestantes
ainda prefere continuar cidadãos da Grã-Bretanha.