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Inferno na Chechênia
Com
bombardeios sem
dó,
a Rússia tenta
mostrar que seu
Exército
ainda merece
respeito
As
tropas russas conquistaram outra importante cidade
da Chechênia, Argun, na sexta-feira passada.
Depois de três dias de intensos combates,
os milicianos chechenos fugiram, e os tanques russos
puderam tomar posse do que sobrou. Ainda remoendo
a humilhação nas mãos dos rebeldes
na guerra de 1994 a 1996, o Exército russo
não está para brincadeira. Usando
uma tática similar à empregada pelos
americanos na Guerra do Golfo, seus quase 100.000
soldados só colocam o pé para fora
das trincheiras depois de a artilharia e os ataques
aéreos reduzirem o inimigo a pó
sem ligarem a mínima se a população
civil está sendo igualmente triturada.
"Na
última guerra, um guerrilheiro checheno
era morto para cada 170 civis", disse Ayub Baudin,
médico-chefe do hospital de Shali, a 26
quilômetros da capital Grozni, à
revista Time,
duas semanas atrás. "Desta vez, os guerrilheiros
estão mais bem treinados e, com certeza,
mais civis vão morrer." À medida
que o avanço russo penetra nas áreas
mais povoadas, aumenta a intensidade dos combates
e o número de baixas. Na sexta-feira, o
QG russo admitia a perda de 200 soldados numa
emboscada perto de Argun, e a imprensa moscovita
fez um escarcéu com relatos sobre jovens
conscritos encontrados nos escombros com a garganta
cortada.
A
primeira guerra desencadeada pela declaração
de independência da Chechênia, uma
república autônoma nas montanhas
do Cáucaso menor que Sergipe terminou
de forma melancólica para Moscou. Incapazes
de dobrar os rebeldes muçulmanos, apesar
de terem reduzido Grozni a pó, os russos
declararam vitória e deixaram os chechenos
exercer uma independência de fato, mas não
de direito. Tudo mudou neste ano, quando a guerrilha
chechena, movida por fanatismo islâmico,
se pôs a realizar ataques numa província
vizinha e, acredita-se, explodiu uma série
de prédios na Rússia, matando três
centenas de pessoas. Pela primeira vez, desde
o fim da União Soviética, o Exército
russo está surrando alguém. Soa
como música para os russos, cujos ouvidos
estão cansados de más notícias
sobre a decadência econômica e política
do país. O primeiro-ministro Vladimir Putin,
cujos 100 dias de governo coincidem com a duração
da guerra, é o homem do momento. Se as
eleições fossem hoje, seria escolhido
presidente em lugar de Boris Ieltsin. Serão
em julho, e o resultado vai depender da guerra
no Cáucaso.
Ninguém
sabe quantos civis foram mortos. Fala-se em mais
de 4.000
só em Grozni. Pelo menos um quarto dos
800 000 habitantes da república vive como
refugiado em campos onde a neve se mistura com
a lama. Se fosse um conflito em qualquer outro
grotão, europeus e americanos estariam
alvoroçados com o drama dessa gente. A
Rússia herdou, contudo, a liberdade soviética
de resolver seus problemas internos sem prestar
contas ao mundo externo. Há vagas pressões
diplomáticas, e o Fundo Monetário
Internacional, FMI, ameaça reter prometidos
empréstimos. Apesar de estar de volta ao
leito hospitalar (desta vez é, oficialmente,
pneumonia), Boris Ieltsin segue implacável
com a repressão no Cáucaso. Até
outubro, as geladas montanhas eram testemunhas
da fraqueza, da desorganização e
da quase indigência das Forças Armadas
russas. Agora, servem de advertência sobre
a determinação da Rússia
de abafar o separatismo.
Com
ataques aéreos e muita artilharia pesada,
a Rússia não deixa pedra sobre pedra.
Dominado o lugar, a soldadesca saqueia o que pode,
levando até televisões. Moscou tomou
a metade norte da república e a segunda
maior cidade chechena, Gudermes. Planeja agora
atingir os guerrilheiros em seu habitat, as montanhas
mais remotas. Em Grozni, pesadamente bombardeada,
água, luz ou gás viraram artigos
de luxo. Mas, apesar do poderio da ofensiva, estima-se
que 5 000 guerrilheiros esperem pelos russos entrincheirados
na capital. Poderá ser uma reedição
de Stalingrado, a célebre batalha casa
por casa em que os soviéticos bateram os
alemães durante a II Guerra. Será,
mais provavelmente, outro terrível massacre.
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