Edição 1 627 - 8/12/1999

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Inferno na Chechênia

Com bombardeios sem dó,
a Rússia
tenta mostrar que seu Exército
ainda
merece respeito

 

As tropas russas conquistaram outra importante cidade da Chechênia, Argun, na sexta-feira passada. Depois de três dias de intensos combates, os milicianos chechenos fugiram, e os tanques russos puderam tomar posse do que sobrou. Ainda remoendo a humilhação nas mãos dos rebeldes na guerra de 1994 a 1996, o Exército russo não está para brincadeira. Usando uma tática similar à empregada pelos americanos na Guerra do Golfo, seus quase 100.000 soldados só colocam o pé para fora das trincheiras depois de a artilharia e os ataques aéreos reduzirem o inimigo a pó – sem ligarem a mínima se a população civil está sendo igualmente triturada.

"Na última guerra, um guerrilheiro checheno era morto para cada 170 civis", disse Ayub Baudin, médico-chefe do hospital de Shali, a 26 quilômetros da capital Grozni, à revista Time, duas semanas atrás. "Desta vez, os guerrilheiros estão mais bem treinados e, com certeza, mais civis vão morrer." À medida que o avanço russo penetra nas áreas mais povoadas, aumenta a intensidade dos combates e o número de baixas. Na sexta-feira, o QG russo admitia a perda de 200 soldados numa emboscada perto de Argun, e a imprensa moscovita fez um escarcéu com relatos sobre jovens conscritos encontrados nos escombros com a garganta cortada.

A primeira guerra – desencadeada pela declaração de independência da Chechênia, uma república autônoma nas montanhas do Cáucaso menor que Sergipe – terminou de forma melancólica para Moscou. Incapazes de dobrar os rebeldes muçulmanos, apesar de terem reduzido Grozni a pó, os russos declararam vitória e deixaram os chechenos exercer uma independência de fato, mas não de direito. Tudo mudou neste ano, quando a guerrilha chechena, movida por fanatismo islâmico, se pôs a realizar ataques numa província vizinha e, acredita-se, explodiu uma série de prédios na Rússia, matando três centenas de pessoas. Pela primeira vez, desde o fim da União Soviética, o Exército russo está surrando alguém. Soa como música para os russos, cujos ouvidos estão cansados de más notícias sobre a decadência econômica e política do país. O primeiro-ministro Vladimir Putin, cujos 100 dias de governo coincidem com a duração da guerra, é o homem do momento. Se as eleições fossem hoje, seria escolhido presidente em lugar de Boris Ieltsin. Serão em julho, e o resultado vai depender da guerra no Cáucaso.

Ninguém sabe quantos civis foram mortos. Fala-se em mais de 4.000 só em Grozni. Pelo menos um quarto dos 800 000 habitantes da república vive como refugiado em campos onde a neve se mistura com a lama. Se fosse um conflito em qualquer outro grotão, europeus e americanos estariam alvoroçados com o drama dessa gente. A Rússia herdou, contudo, a liberdade soviética de resolver seus problemas internos sem prestar contas ao mundo externo. Há vagas pressões diplomáticas, e o Fundo Monetário Internacional, FMI, ameaça reter prometidos empréstimos. Apesar de estar de volta ao leito hospitalar (desta vez é, oficialmente, pneumonia), Boris Ieltsin segue implacável com a repressão no Cáucaso. Até outubro, as geladas montanhas eram testemunhas da fraqueza, da desorganização e da quase indigência das Forças Armadas russas. Agora, servem de advertência sobre a determinação da Rússia de abafar o separatismo.

Com ataques aéreos e muita artilharia pesada, a Rússia não deixa pedra sobre pedra. Dominado o lugar, a soldadesca saqueia o que pode, levando até televisões. Moscou tomou a metade norte da república e a segunda maior cidade chechena, Gudermes. Planeja agora atingir os guerrilheiros em seu habitat, as montanhas mais remotas. Em Grozni, pesadamente bombardeada, água, luz ou gás viraram artigos de luxo. Mas, apesar do poderio da ofensiva, estima-se que 5 000 guerrilheiros esperem pelos russos entrincheirados na capital. Poderá ser uma reedição de Stalingrado, a célebre batalha casa por casa em que os soviéticos bateram os alemães durante a II Guerra. Será, mais provavelmente, outro terrível massacre.