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A
CPI do Narcotráfico fez um sucesso tão
espetacular que está mudando a vida de alguns
dos seus integrantes. Dos dezenove membros da CPI,
dez já anunciaram que pretendem candidatar-se
a prefeito nas próximas eleições.
Embalados pela repercussão de suas investigações,
os membros da comissão vêm cometendo
alguns excessos que em nada comprometem o resultado
positivo de seu trabalho. Diante do que descobriram,
o Brasil se pergunta agora onde estavam a polícia
e a Justiça enquanto os quadrilheiros do
narcotráfico agiam com total desenvoltura
em todo o país.
Presenteados
pela súbita popularidade, os deputados
da CPI estão arregaçando as mangas
para disputar cargos melhores nas próximas
eleições. O deputado Lino Rossi,
do PSDB de Mato Grosso, por exemplo, já
pretendia concorrer à prefeitura de Várzea
Grande, cidade próxima a Cuiabá.
As pesquisas, porém, não o incentivavam.
Depois de aparecer em todos os telejornais interrogando
Augusto Farias, irmão de PC Farias, sua
popularidade deu um salto. A mais recente pesquisa
encomendada pelo deputado mostra que, depois do
episódio, ele pulou de 12% para 24% das
intenções de voto em sua região.
Indicado
por seu partido, o PPB, como um dos integrantes
da comissão, no início o deputado
paulista Celso Russomanno nem sequer aparecia
nas reuniões da CPI. Só foi dar
as caras quando ela explodiu na mídia.
Seu entusiasmo cresceu a tal ponto que ele resolveu
transferir seu domicílio eleitoral de São
Paulo para Santo André, onde pretende candidatar-se
à prefeitura. Os outros integrantes da
CPI também já perceberam a repercussão
política do que fazem. O depoimento da
namorada de Fernandinho Beira-Mar, Alda Inês,
deu-lhes uma oportunidade de aparecer por meio
da grosseria. Alda Inês, uma mulher bonita,
sensual, sorridente, respondia a perguntas incisivas
sobre seu relacionamento amoroso com o traficante
feitas pelo deputado Reginaldo Germano, do PFL
da Bahia. O deputado Magno Malta, do PTB do Espírito
Santo, presidente da CPI, pediu um aparte. "Quero
informar que a CNN está transmitindo ao
vivo o depoimento da testemunha". Houve alguns
segundos de silêncio. Alguns aproveitaram
para arrumar a gravata. Em tom mais solene, o
deputado Reginaldo Germano, que é pastor
da Igreja Universal e sonha com a prefeitura de
Itabuna, na Bahia, continuou o interrogatório:
"A senhora teve uma noite de amor naquele dia
com o Fernandinho?" Inês já tinha
sofrido outra investida sobre suas relações
amorosas, feita pela deputada Laura Carneiro,
do PFL do Rio de Janeiro. Ao contar que esteve
no Paraguai com o namorado, mas que não
conversava sobre assuntos profissionais, Alda
Inês tirou a deputada do sério: "Então
vocês iam a um hotel e só namoravam
por dez minutos sem conversar?" Inês disse
que não era bem assim. A deputada concluiu:
"Ah! Então não era uma rapidinha".
O
relator da CPI, deputado Moroni Torgan, está
à vontade na CPI. Fez carreira investigando
suspeitos. Antes de ser deputado, era delegado da
Polícia Federal. Talvez essa experiência
seja responsável pelo seu ar calmo de autoridade
que não tem pressa porque sabe que vai conseguir
espremer o interrogado. Para ajudar Moroni Torgan,
um deputado amigo fez a sugestão de levar
a CPI a Fortaleza. Recentemente, Moroni trocou o
PSDB pelo PFL atraído pela possibilidade
de disputar a prefeitura de Fortaleza. Problema:
até agora não surgiram ramificações
criminosas que justificassem uma incursão
ao Ceará. Como relator, ele já foi
obrigado a dar um puxão de orelha no deputado
Pompeo de Mattos, do PDT do Rio Grande do Sul, um
dos mais exaltados durante as sessões. Conhecido
por ter sete anões em seu gabinete, Pompeo
anunciou que a CPI pediria intervenção
em São Paulo. Foi obrigado a desmentir. O
presidente Magno Malta acha que deve haver um pouco
mais de ponderação, mas entende a
posição de alguns colegas. Ele mesmo
já pensa na hipótese de se lançar
à prefeitura de Vila Velha, no Espírito
Santo. "Qualquer um de nós, se for candidato,
será eleito para o que quiser", repete aos
colegas. Não é bem assim. Há
outros que sonham alto mas ainda não se tornaram
tão conhecidos, como a peemedebista Elcione
Barbalho, que deseja a prefeitura de Belém,
e o petista Fernando Ferro, candidato a prefeito
do Recife. Um detalhe que Malta se esqueceu de dizer
aos colegas. Não era a rede americana CNN
que estava transmitindo o depoimento. Era a rádio
CBN.
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