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O poder dos barões do tráfico
Depois da máfia colombiana,
o submundo do comércio de
cocaína começa a conhecer a máfia
brasileira
Alexandre Secco
Por
muito tempo, o Brasil apenas servia de corredor
para o tráfico de drogas. Era um país
que a máfia colombiana percorria para fazer
o transporte do pó até a Europa ou
os Estados Unidos. Esse Brasil da rota internacional
continua a existir, mas o submundo da cocaína
produziu uma novidade assustadora. Sem que ninguém
se desse conta, o país desenvolveu sua primeira
geração de narcotraficantes. Brasileiros
que trabalhavam para bandidos colombianos decidiram
montar as próprias máfias para comandar
uma fatia do negócio mais rentável
do planeta. De acordo com a última pesquisa
da Organização das Nações
Unidas, ONU, o comércio mundial de drogas
movimenta 400 bilhões de dólares por
ano. No Brasil, fala-se em cerca de 10 bilhões
de dólares. A pasta da coca, cotada a 1 000
dólares o quilo nos locais de produção,
transformada em cocaína pode ser vendida
nas grandes cidades brasileiras a 10 000 dólares.
Nos Estados Unidos, por 40 000. E, no Japão,
por 100 000. Nenhum outro negócio, lícito
ou ilícito, dá uma taxa de retorno
de até 10 000%.
"As
transformações no tráfico estão
ocorrendo muito rapidamente. Precisamos ficar atentos
para propor outras formas de combater o problema",
diz o general Alberto Cardoso, que tem sob sua direção
a Secretaria Nacional Antidrogas, Senad. "As novas
organizações são eficientes
porque aliam informações adquiridas
em anos de convívio com os colombianos ao
fato de conhecerem profundamente a realidade brasileira",
diz o delegado federal Mauro Spósito, chefe
da repressão ao narcotráfico na Região
Norte. As máfias 100% nacionais montaram
uma estrutura fenomenal. Mantêm policiais,
juízes e políticos em suas folhas
de pagamento, possuem um arsenal que chega ao cúmulo
de contar com mísseis antiaéreos e
resolvem seus assuntos naquela base conhecida. Quem
abrir a boca, morre. Se, apesar da corrupção,
são presos, um parente próximo ou
um braço direito continua a tocar os negócios
de forma que a polícia nunca extermina
o mal, apenas tira o gângster de circulação.
A
força dos novos traficantes advém
do crescimento das vendas de drogas no país.
Como se trata de comércio ilegal, todos os
números a seu respeito são obtidos
com base em estimativas, muitas delas precárias.
Há um estudo aparentemente bem-feito que
se destaca dos demais. Ele foi preparado pelo professor
Argemiro Procópio, da Universidade de Brasília,
que tem dez anos de pesquisa na área e três
livros publicados sobre o assunto. Segundo ele,
o Brasil já estaria disputando o segundo
lugar entre os maiores consumidores de drogas no
mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Seu
levantamento foi apresentado à Delegacia
de Repressão a Entorpecentes da PF e ao Gabinete
Militar. Os dois departamentos elogiaram a qualidade
do trabalho. A quantidade de drogas vendida em solo
nacional vem aumentando ano a ano e o grande impulso
foi dado pela chegada do crack, uma variação
grosseira da cocaína, misturada a produtos
químicos mais fortes. O crack, comercializado
na forma de pequenas pedras, vende bastante porque
é barato. Com 5 reais, compra-se uma pedra
suficiente para enlouquecer três crianças,
vítimas freqüentes da droga.
Muita
gente associa o narcotráfico à figura
do inesquecível Pablo Escobar, morto pela
polícia em 1993. Ele era o homem mais poderoso
da Colômbia e, segundo a revista Forbes,
amealhou uma fortuna de 2 bilhões de dólares.
Comparados a ele, os traficantes brasileiros chefiam
operações limitadas. O fazendeiro
goiano Leonardo Dias é acusado de liderar
uma organização que controla 24 aeronaves
empregadas no transporte de drogas. A esquadrilha
seria a responsável pelo grosso da remessa
de cocaína entre a Colômbia e o Suriname.
Suspeita-se ainda que o grupo fornecia a droga para
oito Estados brasileiros. Há um ano, uma
mulher acusada de pertencer ao grupo foi presa no
Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro carregando
2 milhões de dólares em dinheiro.
Ninguém é capaz de calcular o faturamento
de uma organização desse porte. Mas
é possível ter uma idéia. De
acordo com a polícia, apenas a droga apreendida
com comparsas seus valeria 100 milhões de
dólares se entrasse no mercado internacional.
Policiais experientes afirmam que, para cada quilo
de pó apreendido, outros 9 conseguem passar.
Outra maneira de avaliar o tamanho de uma organização
criminosa são as empresas montadas para dar
um aspecto legal ao negócio. Quando o faturamento
é baixo, basta uma pequena firma para esquentar
o rendimento ilegal. Quando a operação
cresce muito, é preciso abrir várias
empresas. Leonardo Dias controla dezessete empresas,
entre elas três construtoras de médio
porte e uma companhia de táxi aéreo.
O
surgimento dos barões do pó no Brasil
acontece num momento em que o perfil do comércio
da droga está mudando em todo o mundo. A
fase em que Escobar e meia dúzia de cartéis
comandavam o tráfico internacional está
encerrada, afirmam as principais autoridades no
assunto. Na Colômbia, a força dos megacartéis
acabou após uma série de prisões
ocorridas em 1996. No México, as máfias
vêm sofrendo golpes sucessivos. O resultado
é que os cartéis se dividiram. "O
negócio do tráfico trocou as grandes
organizações por grupos mais enxutos",
afirma o diplomata brasileiro Carlos Milani, que
dirige uma pesquisa da ONU sobre a influência
das drogas na economia mundial. Onde havia uma máfia
grande, surgiram cinqüenta máfias menores.
Individualmente, elas têm menos poder. O conjunto,
no entanto, continua mais forte do que nunca. O
volume de cocaína traficada não diminuiu.
Ao contrário, aumentou. A rede de distribuição
da droga continua eficiente, lucrativa e ágil,
fazendo a miséria de pobres e ricos.
Uma
característica dessa nova época é
a incrível agilidade com que as máfias
se constroem. Preso em outubro, o piloto amazonense
Elvis Moreira é apontado como um típico
chefão emergente. Como a quadrilha dele,
a polícia acredita haver uma ou duas dúzias
em atividade. Durante dez anos, Moreira trabalhou
para traficantes colombianos, transportando cerca
de 1 tonelada de cocaína ao ano. Por baixo,
no mercado nacional, essa droga pode ter girado
algo em torno de 400 milhões de dólares
algo como um ano inteiro de lucro do Bradesco,
o maior banco privado brasileiro. Na condição
de empregado, o piloto ganhava em média 15.000
dólares por viagem. Ao se tornar "empresário",
um ano atrás, Moreira mudou de vida. Ganhou
um contrato para transportar 2 toneladas de pó
e pretendia faturar mais de 2 milhões de
dólares no negócio. Seu monomotor
sofreu uma pane nas primeiras viagens, o contrato
foi cumprido parcialmente e Moreira recebeu "apenas"
250.000
dólares. Sua frota aérea foi incrementada
com a chegada de um bimotor Carajás, equipado
para voar à noite. Munido de um tanque extra
e de algumas outras modificações,
a aeronave tem autonomia para atravessar o Brasil
de leste a oeste, sem fazer escalas. Quando o avião
foi detido pela polícia, levava a bordo metade
da carga de 849 quilos de cocaína pura que
seria exportada.
Hotel
cinco-estrelas As
quadrilhas são sempre muito numerosas, envolvendo
pelo menos cinqüenta pessoas, umas trabalhando
no tráfico em tempo integral, outras fazendo
"bicos". No caso da quadrilha de Moreira, entre as
pessoas que faziam bico estavam três comissárias
de vôo da empresa aérea colombiana Avianca.
Elas eram encarregadas de receber dinheiro na Colômbia
e levá-lo até Moreira. Costumavam transportar
até meio milhão de dólares por
viagem entre Bogotá e o Rio de Janeiro. O dinheiro
era entregue a um intermediário do traficante
que se hospedava no hotel Sheraton, um dos cinco-estrelas
da cidade. Com os dólares na mão, o
traficante mantinha seu negócio e esquentava
as transações. Quando comprou o bimotor,
a empresa que o vendeu emitiu uma nota com valor equivalente
a 25% da transação real em nome de um
mecânico que morava na periferia de Goiânia.
No final de setembro, quando o avião estava
pronto para entrar no tráfico, estima-se que
os preparativos para a operação tenham
custado quase 1,5 milhão de reais. Mal comparando,
Moreira gastou numa única compra de avião
o equivalente a 3 meses de faturamento de um morro
controlado pelo grupo do carioca Fernandinho Beira-Mar,
erroneamente apontado como o maior traficante do Brasil.
É
impressionante o que a investigação
em torno dessas quadrilhas desvenda sobre o nível
de organização econômica e o
poder atingido pelo narcotráfico no Brasil.
Em Rondônia, a prisão de uma traficante
revelou a existência de uma quadrilha com
mais de 100 integrantes trabalhando no abastecimento
de cocaína produzida na Bolívia e
vendida no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Estima-se que trinta representantes da gangue já
estejam presos em quatro Estados. Além de
grande, o grupo era bem equipado. Só a frota
de carros ultrapassava cinqüenta veículos
mais do que possuem no conjunto todas as
delegacias especiais de repressão ao narcotráfico
no Brasil inteiro. No Pará, a polícia
descobriu em junho um laboratório em fase
final de instalação. Quando estivesse
pronto, teria capacidade de processar até
10 toneladas de cocaína por mês. Para
um país recém-chegado ao narcotráfico,
é uma quantidade absurda. A título
de comparação, se o laboratório
funcionasse por um ano, daria conta de metade da
demanda dos Estados Unidos, maior consumidor do
mundo.
As
quadrilhas brasileiras se dedicam basicamente ao
transporte da droga, mas a polícia identificou
o surgimento de grupos especializados na montagem
de laboratórios para a transformação
da pasta de coca em cocaína. O domínio
sobre as zonas de refino é o que mais enriquece
o traficante. Quando esse processo passa a ser comandado
também por brasileiros, isso significa que
a força do tráfico no país
está mudando de patamar. Para refinar a pasta
de coca é preciso comprar grandes quantidades
de produtos químicos. Duas empresas de São
Paulo foram identificadas como fornecedoras desse
material, algo como 50.000
litros e 190 toneladas de químicos sólidos.
Um dos acusados pela polícia de comandar
a operação, Celso Gomes, foi fotografado
escoltando uma carga de químicos. Detalhe:
ele estava acompanhado da mulher, grávida
de oito meses. A polícia descobriu que a
quadrilha mantinha encontros freqüentes em
vários lugares do Brasil. Os pontos de encontro
preferidos eram o luxuoso condomínio Praia
Guinle, no Rio de Janeiro, e o hotel Pousada do
Rio Quente, em Goiás.
Quando
os policiais chegaram ao megalaboratório
do Pará ficaram espantados. Na fazenda foram
encontradas dez pessoas, entre elas um químico
colombiano. O investimento para erguer o negócio
chegou a 2 milhões de reais. A polícia
descobriu o envolvimento de outras 35, entre colombianos,
brasileiros, guianenses, um paraguaio e um canadense.
De acordo com a investigação feita
pela polícia, os laboratórios vieram
para o Brasil porque as guerrilhas colombianas decidiram
aumentar o preço dos "pedágios"
o valor cobrado para dar cobertura aos criminosos.
A migração dos laboratórios
para o país produziu um impacto tremendo
na economia das cidades vizinhas. Um trabalho célebre
da professora Lia Osório Machado, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, revelou há dois
anos que a rede bancária das pequenas cidades
de fronteira na Região Norte movimentam mais
dinheiro do que a de algumas cidades grandes. "O
motivo é o tráfico", diz ela. A CPI
do Narcotráfico começou a compreender
esse mecanismo. Dezenas de casas de câmbio
surgem, suspeitas de movimentar milhões,
talvez bilhões de dólares. Uma única,
nos confins do Rio Grande do Norte, pinçada
ao acaso entre os papéis em poder da CPI,
movimentou 20 milhões de reais em dois meses.
"Dispostos
a tudo" A
nacionalização da máfia do
pó é uma notícia ruim porque
isso dificulta o trabalho da polícia. Quando
os chefes eram só colombianos, a presença
deles no Brasil era rastreável. Eles são
fisicamente diferentes dos brasileiros, falam outra
língua e têm uma dificuldade natural
em fazer "amigos" num país estrangeiro. De
mais a mais, as autoridades estranham quando gente
que fala castelhano começa a fazer fortuna
e aparecer nas colunas sociais. Se os marginais
são brasileiros, a investigação
é mais complexa. Há dois anos, a Polícia
Federal vem rastreando os novos chefões,
e as primeiras prisões foram feitas nos últimos
seis meses. Fora de seus redutos, são rostos
completamente desconhecidos.
As
famílias dos chefões colombianos têm
uma tradição de 100 anos no negócio
de contrabando e tráfico. Os barões
do pó no Brasil são novos-ricos. Há
pecuaristas, comerciantes e pequenos empresários
que decidiram abandonar delitos fiscais de pouco
valor e fazer fortuna a jato. Há os bandidos
com outras "especializações" que resolveram
subir ao mais alto ponto da escala social da criminalidade
e há também toda sorte de aventureiros
que viviam na Região Norte do país
nos anos 90 quando o garimpo entrou em decadência.
"Centenas de pilotos se alistaram no tráfico
porque tinham experiência com o contrabando
de cassiterita e ouro e também porque estavam
dispostos a tudo", diz o delegado Mauro Spósito,
da Polícia Federal. Simples pilotos fizeram
fortunas incalculáveis. Antonio Mota Graça
é um deles. Aliou-se ao filho de um poderoso
chefão colombiano, Vicente Rivera, e acabou
preso com 7,5 toneladas de cocaína. Está
detido em um presídio de segurança
máxima em São Paulo. Graça
chegou a controlar empresas de táxi e, segundo
a Procuradoria Geral da República, era ligado
aos governadores do Acre. Herança do garimpo,
restaram ainda milhares de pistas clandestinas na
região amazônica. Calcula-se que 200
aeronaves estejam a serviço do transporte
de cocaína na região. Não existe
nenhum tipo de controle sobre elas. Um dono de avião
nem sequer precisa apresentar a aeronave para uma
inspeção anual, como acontece com
os donos de carro. Nessas condições,
perseguir os traficantes aéreos é
muito difícil.
Míssil
antitanque Já
se escreveu que o narcotráfico é o
negócio mais sólido do mundo. Nunca
vai quebrar. A cocaína não se importa
com design (alguém já ouviu falar
de pó modelo 95?), o bandido não se
importa com novas fórmulas gerenciais (as
diferenças continuam a ser resolvidas a bala)
e existe um mercado consumidor cativo. Para facilitar,
há as autoridades corruptas e o pavor dos
colegas não corruptos em denunciá-las.
Parece incrível, mas da lista dos maiores
tubarões do pó já presos todos
estiveram atrás das grades antes e conseguiram
fugir. (Os cinco chefões cujas fotografias
estão no começo desta reportagem permaneciam
na cadeia até a sexta-feira da semana passada.)
Há histórias interessantíssimas
de juízes experientes que, de uma hora para
outra, se comportam de forma a impressionar os colegas.
Em agosto deste ano, foram presos em flagrante dois
homens que pousaram no Pará com um avião
carregado de metralhadoras, quilos de munição
fabricada na Líbia e dois mísseis
um antiaéreo e um antitanque. A polícia
pediu a prisão em flagrante. O juiz Rubens
Rollo, de Santarém, entendeu que era um caso
de contrabando simples, sem agravantes, exatamente
o mesmo daquele mochileiro do Paraguai que traz
bugigangas eletrônicas pela Ponte da Amizade.
Além disso deu uma lição no
advogado dos contrabandistas: "o advogado (dos
contrabandistas) requereu a fiança, embora
de forma tímida, concedo liberdade provisória
que arbitro em 200 reais", sentenciou. Os bandidos
pagaram a fiança e voltaram para casa.
Há
centenas de casos semelhantes. Em Rondônia,
há dois meses foi preso um fazendeiro, Roque
Cardoso, suspeito de ter comprado trinta fazendas
com dinheiro de cocaína. Um de seus melhores
amigos era um delegado de polícia que foi
preso transportando 15 quilos de cocaína
na viatura oficial. Na Bahia, um desembargador acusou
dois colegas também desembargadores e um
deputado estadual de pressioná-lo a emitir
habeas-corpus em favor de um preso acusado de integrar
quadrilhas investigadas pela CPI do Narcotráfico
(veja
reportagem).
No Acre, o esquema do pó teria o envolvimento
de dois ex-governadores, dois secretários
de Estado e três dos sete desembargadores
do Tribunal de Justiça de Rio Branco, conforme
um relatório da Procuradoria da República
no Estado. No Piauí, a CPI revelou que quarenta
prefeituras participam do esquema de lavagem de
dinheiro do tráfico. Outras quarenta prefeituras
no sul do Pará são suspeitas do mesmo
crime em um relatório da Polícia Federal.
Para
piorar, além da corrupção existente
na polícia e no sistema judiciário,
há um grupo de políticos que acoberta
o tráfico. É gente que usa o cargo
para aprovar projetos de interesse dos bandidos,
para pressionar autoridades locais a não
investigar os amigos e depois se beneficiar da imunidade
parlamentar. Esse era o principal assunto da última
reunião de um grupo de trabalho da Organização
das Nações Unidas, ONU, sobre as drogas,
realizada na Índia. Em todos os lugares do
mundo em que já se investigou o narcotráfico
em profundidade surgiram os nomes de caciques políticos:
na Colômbia, descobriu-se o envolvimento do
presidente; no México, o irmão do
presidente; na Itália, o líder do
partido do governo. No Brasil, essas relações
também começam a ser desvendadas.
A dúvida é saber se a fatia corrupta
se restringe a uma meia dúzia de Hildebrandos
ou se a força do pó pode vir a montar
uma estrutura maior e mais deletéria ainda
para o país.
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