Edição 1 627 - 8/12/1999

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Sucesso da CPI do Narcotráfico faz deputados sonharem alto
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O poder dos barões do tráfico

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Sucesso da CPI do Narcotráfico faz deputados sonharem alto (com ilustração em Flash)

Depois da máfia colombiana,
o submundo do comércio de
cocaína começa a conhecer a máfia brasileira

Alexandre Secco

 

Por muito tempo, o Brasil apenas servia de corredor para o tráfico de drogas. Era um país que a máfia colombiana percorria para fazer o transporte do pó até a Europa ou os Estados Unidos. Esse Brasil da rota internacional continua a existir, mas o submundo da cocaína produziu uma novidade assustadora. Sem que ninguém se desse conta, o país desenvolveu sua primeira geração de narcotraficantes. Brasileiros que trabalhavam para bandidos colombianos decidiram montar as próprias máfias para comandar uma fatia do negócio mais rentável do planeta. De acordo com a última pesquisa da Organização das Nações Unidas, ONU, o comércio mundial de drogas movimenta 400 bilhões de dólares por ano. No Brasil, fala-se em cerca de 10 bilhões de dólares. A pasta da coca, cotada a 1 000 dólares o quilo nos locais de produção, transformada em cocaína pode ser vendida nas grandes cidades brasileiras a 10 000 dólares. Nos Estados Unidos, por 40 000. E, no Japão, por 100 000. Nenhum outro negócio, lícito ou ilícito, dá uma taxa de retorno de até 10 000%.

"As transformações no tráfico estão ocorrendo muito rapidamente. Precisamos ficar atentos para propor outras formas de combater o problema", diz o general Alberto Cardoso, que tem sob sua direção a Secretaria Nacional Antidrogas, Senad. "As novas organizações são eficientes porque aliam informações adquiridas em anos de convívio com os colombianos ao fato de conhecerem profundamente a realidade brasileira", diz o delegado federal Mauro Spósito, chefe da repressão ao narcotráfico na Região Norte. As máfias 100% nacionais montaram uma estrutura fenomenal. Mantêm policiais, juízes e políticos em suas folhas de pagamento, possuem um arsenal que chega ao cúmulo de contar com mísseis antiaéreos e resolvem seus assuntos naquela base conhecida. Quem abrir a boca, morre. Se, apesar da corrupção, são presos, um parente próximo ou um braço direito continua a tocar os negócios – de forma que a polícia nunca extermina o mal, apenas tira o gângster de circulação.

 

A força dos novos traficantes advém do crescimento das vendas de drogas no país. Como se trata de comércio ilegal, todos os números a seu respeito são obtidos com base em estimativas, muitas delas precárias. Há um estudo aparentemente bem-feito que se destaca dos demais. Ele foi preparado pelo professor Argemiro Procópio, da Universidade de Brasília, que tem dez anos de pesquisa na área e três livros publicados sobre o assunto. Segundo ele, o Brasil já estaria disputando o segundo lugar entre os maiores consumidores de drogas no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Seu levantamento foi apresentado à Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF e ao Gabinete Militar. Os dois departamentos elogiaram a qualidade do trabalho. A quantidade de drogas vendida em solo nacional vem aumentando ano a ano e o grande impulso foi dado pela chegada do crack, uma variação grosseira da cocaína, misturada a produtos químicos mais fortes. O crack, comercializado na forma de pequenas pedras, vende bastante porque é barato. Com 5 reais, compra-se uma pedra suficiente para enlouquecer três crianças, vítimas freqüentes da droga.

Muita gente associa o narcotráfico à figura do inesquecível Pablo Escobar, morto pela polícia em 1993. Ele era o homem mais poderoso da Colômbia e, segundo a revista Forbes, amealhou uma fortuna de 2 bilhões de dólares. Comparados a ele, os traficantes brasileiros chefiam operações limitadas. O fazendeiro goiano Leonardo Dias é acusado de liderar uma organização que controla 24 aeronaves empregadas no transporte de drogas. A esquadrilha seria a responsável pelo grosso da remessa de cocaína entre a Colômbia e o Suriname. Suspeita-se ainda que o grupo fornecia a droga para oito Estados brasileiros. Há um ano, uma mulher acusada de pertencer ao grupo foi presa no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro carregando 2 milhões de dólares em dinheiro. Ninguém é capaz de calcular o faturamento de uma organização desse porte. Mas é possível ter uma idéia. De acordo com a polícia, apenas a droga apreendida com comparsas seus valeria 100 milhões de dólares se entrasse no mercado internacional. Policiais experientes afirmam que, para cada quilo de pó apreendido, outros 9 conseguem passar. Outra maneira de avaliar o tamanho de uma organização criminosa são as empresas montadas para dar um aspecto legal ao negócio. Quando o faturamento é baixo, basta uma pequena firma para esquentar o rendimento ilegal. Quando a operação cresce muito, é preciso abrir várias empresas. Leonardo Dias controla dezessete empresas, entre elas três construtoras de médio porte e uma companhia de táxi aéreo.

O surgimento dos barões do pó no Brasil acontece num momento em que o perfil do comércio da droga está mudando em todo o mundo. A fase em que Escobar e meia dúzia de cartéis comandavam o tráfico internacional está encerrada, afirmam as principais autoridades no assunto. Na Colômbia, a força dos megacartéis acabou após uma série de prisões ocorridas em 1996. No México, as máfias vêm sofrendo golpes sucessivos. O resultado é que os cartéis se dividiram. "O negócio do tráfico trocou as grandes organizações por grupos mais enxutos", afirma o diplomata brasileiro Carlos Milani, que dirige uma pesquisa da ONU sobre a influência das drogas na economia mundial. Onde havia uma máfia grande, surgiram cinqüenta máfias menores. Individualmente, elas têm menos poder. O conjunto, no entanto, continua mais forte do que nunca. O volume de cocaína traficada não diminuiu. Ao contrário, aumentou. A rede de distribuição da droga continua eficiente, lucrativa e ágil, fazendo a miséria de pobres e ricos.

Uma característica dessa nova época é a incrível agilidade com que as máfias se constroem. Preso em outubro, o piloto amazonense Elvis Moreira é apontado como um típico chefão emergente. Como a quadrilha dele, a polícia acredita haver uma ou duas dúzias em atividade. Durante dez anos, Moreira trabalhou para traficantes colombianos, transportando cerca de 1 tonelada de cocaína ao ano. Por baixo, no mercado nacional, essa droga pode ter girado algo em torno de 400 milhões de dólares – algo como um ano inteiro de lucro do Bradesco, o maior banco privado brasileiro. Na condição de empregado, o piloto ganhava em média 15.000 dólares por viagem. Ao se tornar "empresário", um ano atrás, Moreira mudou de vida. Ganhou um contrato para transportar 2 toneladas de pó e pretendia faturar mais de 2 milhões de dólares no negócio. Seu monomotor sofreu uma pane nas primeiras viagens, o contrato foi cumprido parcialmente e Moreira recebeu "apenas" 250.000 dólares. Sua frota aérea foi incrementada com a chegada de um bimotor Carajás, equipado para voar à noite. Munido de um tanque extra e de algumas outras modificações, a aeronave tem autonomia para atravessar o Brasil de leste a oeste, sem fazer escalas. Quando o avião foi detido pela polícia, levava a bordo metade da carga de 849 quilos de cocaína pura que seria exportada.  

Hotel cinco-estrelas – As quadrilhas são sempre muito numerosas, envolvendo pelo menos cinqüenta pessoas, umas trabalhando no tráfico em tempo integral, outras fazendo "bicos". No caso da quadrilha de Moreira, entre as pessoas que faziam bico estavam três comissárias de vôo da empresa aérea colombiana Avianca. Elas eram encarregadas de receber dinheiro na Colômbia e levá-lo até Moreira. Costumavam transportar até meio milhão de dólares por viagem entre Bogotá e o Rio de Janeiro. O dinheiro era entregue a um intermediário do traficante que se hospedava no hotel Sheraton, um dos cinco-estrelas da cidade. Com os dólares na mão, o traficante mantinha seu negócio e esquentava as transações. Quando comprou o bimotor, a empresa que o vendeu emitiu uma nota com valor equivalente a 25% da transação real em nome de um mecânico que morava na periferia de Goiânia. No final de setembro, quando o avião estava pronto para entrar no tráfico, estima-se que os preparativos para a operação tenham custado quase 1,5 milhão de reais. Mal comparando, Moreira gastou numa única compra de avião o equivalente a 3 meses de faturamento de um morro controlado pelo grupo do carioca Fernandinho Beira-Mar, erroneamente apontado como o maior traficante do Brasil.

É impressionante o que a investigação em torno dessas quadrilhas desvenda sobre o nível de organização econômica e o poder atingido pelo narcotráfico no Brasil. Em Rondônia, a prisão de uma traficante revelou a existência de uma quadrilha com mais de 100 integrantes trabalhando no abastecimento de cocaína produzida na Bolívia e vendida no Rio de Janeiro e em São Paulo. Estima-se que trinta representantes da gangue já estejam presos em quatro Estados. Além de grande, o grupo era bem equipado. Só a frota de carros ultrapassava cinqüenta veículos – mais do que possuem no conjunto todas as delegacias especiais de repressão ao narcotráfico no Brasil inteiro. No Pará, a polícia descobriu em junho um laboratório em fase final de instalação. Quando estivesse pronto, teria capacidade de processar até 10 toneladas de cocaína por mês. Para um país recém-chegado ao narcotráfico, é uma quantidade absurda. A título de comparação, se o laboratório funcionasse por um ano, daria conta de metade da demanda dos Estados Unidos, maior consumidor do mundo.

As quadrilhas brasileiras se dedicam basicamente ao transporte da droga, mas a polícia identificou o surgimento de grupos especializados na montagem de laboratórios para a transformação da pasta de coca em cocaína. O domínio sobre as zonas de refino é o que mais enriquece o traficante. Quando esse processo passa a ser comandado também por brasileiros, isso significa que a força do tráfico no país está mudando de patamar. Para refinar a pasta de coca é preciso comprar grandes quantidades de produtos químicos. Duas empresas de São Paulo foram identificadas como fornecedoras desse material, algo como 50.000 litros e 190 toneladas de químicos sólidos. Um dos acusados pela polícia de comandar a operação, Celso Gomes, foi fotografado escoltando uma carga de químicos. Detalhe: ele estava acompanhado da mulher, grávida de oito meses. A polícia descobriu que a quadrilha mantinha encontros freqüentes em vários lugares do Brasil. Os pontos de encontro preferidos eram o luxuoso condomínio Praia Guinle, no Rio de Janeiro, e o hotel Pousada do Rio Quente, em Goiás.

Quando os policiais chegaram ao megalaboratório do Pará ficaram espantados. Na fazenda foram encontradas dez pessoas, entre elas um químico colombiano. O investimento para erguer o negócio chegou a 2 milhões de reais. A polícia descobriu o envolvimento de outras 35, entre colombianos, brasileiros, guianenses, um paraguaio e um canadense. De acordo com a investigação feita pela polícia, os laboratórios vieram para o Brasil porque as guerrilhas colombianas decidiram aumentar o preço dos "pedágios" – o valor cobrado para dar cobertura aos criminosos. A migração dos laboratórios para o país produziu um impacto tremendo na economia das cidades vizinhas. Um trabalho célebre da professora Lia Osório Machado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou há dois anos que a rede bancária das pequenas cidades de fronteira na Região Norte movimentam mais dinheiro do que a de algumas cidades grandes. "O motivo é o tráfico", diz ela. A CPI do Narcotráfico começou a compreender esse mecanismo. Dezenas de casas de câmbio surgem, suspeitas de movimentar milhões, talvez bilhões de dólares. Uma única, nos confins do Rio Grande do Norte, pinçada ao acaso entre os papéis em poder da CPI, movimentou 20 milhões de reais em dois meses.

"Dispostos a tudo" – A nacionalização da máfia do pó é uma notícia ruim porque isso dificulta o trabalho da polícia. Quando os chefes eram só colombianos, a presença deles no Brasil era rastreável. Eles são fisicamente diferentes dos brasileiros, falam outra língua e têm uma dificuldade natural em fazer "amigos" num país estrangeiro. De mais a mais, as autoridades estranham quando gente que fala castelhano começa a fazer fortuna e aparecer nas colunas sociais. Se os marginais são brasileiros, a investigação é mais complexa. Há dois anos, a Polícia Federal vem rastreando os novos chefões, e as primeiras prisões foram feitas nos últimos seis meses. Fora de seus redutos, são rostos completamente desconhecidos.

As famílias dos chefões colombianos têm uma tradição de 100 anos no negócio de contrabando e tráfico. Os barões do pó no Brasil são novos-ricos. Há pecuaristas, comerciantes e pequenos empresários que decidiram abandonar delitos fiscais de pouco valor e fazer fortuna a jato. Há os bandidos com outras "especializações" que resolveram subir ao mais alto ponto da escala social da criminalidade e há também toda sorte de aventureiros que viviam na Região Norte do país nos anos 90 quando o garimpo entrou em decadência. "Centenas de pilotos se alistaram no tráfico porque tinham experiência com o contrabando de cassiterita e ouro e também porque estavam dispostos a tudo", diz o delegado Mauro Spósito, da Polícia Federal. Simples pilotos fizeram fortunas incalculáveis. Antonio Mota Graça é um deles. Aliou-se ao filho de um poderoso chefão colombiano, Vicente Rivera, e acabou preso com 7,5 toneladas de cocaína. Está detido em um presídio de segurança máxima em São Paulo. Graça chegou a controlar empresas de táxi e, segundo a Procuradoria Geral da República, era ligado aos governadores do Acre. Herança do garimpo, restaram ainda milhares de pistas clandestinas na região amazônica. Calcula-se que 200 aeronaves estejam a serviço do transporte de cocaína na região. Não existe nenhum tipo de controle sobre elas. Um dono de avião nem sequer precisa apresentar a aeronave para uma inspeção anual, como acontece com os donos de carro. Nessas condições, perseguir os traficantes aéreos é muito difícil.  

Míssil antitanque – Já se escreveu que o narcotráfico é o negócio mais sólido do mundo. Nunca vai quebrar. A cocaína não se importa com design (alguém já ouviu falar de pó modelo 95?), o bandido não se importa com novas fórmulas gerenciais (as diferenças continuam a ser resolvidas a bala) e existe um mercado consumidor cativo. Para facilitar, há as autoridades corruptas e o pavor dos colegas não corruptos em denunciá-las. Parece incrível, mas da lista dos maiores tubarões do pó já presos todos estiveram atrás das grades antes e conseguiram fugir. (Os cinco chefões cujas fotografias estão no começo desta reportagem permaneciam na cadeia até a sexta-feira da semana passada.) Há histórias interessantíssimas de juízes experientes que, de uma hora para outra, se comportam de forma a impressionar os colegas. Em agosto deste ano, foram presos em flagrante dois homens que pousaram no Pará com um avião carregado de metralhadoras, quilos de munição fabricada na Líbia e dois mísseis – um antiaéreo e um antitanque. A polícia pediu a prisão em flagrante. O juiz Rubens Rollo, de Santarém, entendeu que era um caso de contrabando simples, sem agravantes, exatamente o mesmo daquele mochileiro do Paraguai que traz bugigangas eletrônicas pela Ponte da Amizade. Além disso deu uma lição no advogado dos contrabandistas: "o advogado (dos contrabandistas) requereu a fiança, embora de forma tímida, concedo liberdade provisória que arbitro em 200 reais", sentenciou. Os bandidos pagaram a fiança e voltaram para casa.

Há centenas de casos semelhantes. Em Rondônia, há dois meses foi preso um fazendeiro, Roque Cardoso, suspeito de ter comprado trinta fazendas com dinheiro de cocaína. Um de seus melhores amigos era um delegado de polícia que foi preso transportando 15 quilos de cocaína na viatura oficial. Na Bahia, um desembargador acusou dois colegas também desembargadores e um deputado estadual de pressioná-lo a emitir habeas-corpus em favor de um preso acusado de integrar quadrilhas investigadas pela CPI do Narcotráfico (veja reportagem). No Acre, o esquema do pó teria o envolvimento de dois ex-governadores, dois secretários de Estado e três dos sete desembargadores do Tribunal de Justiça de Rio Branco, conforme um relatório da Procuradoria da República no Estado. No Piauí, a CPI revelou que quarenta prefeituras participam do esquema de lavagem de dinheiro do tráfico. Outras quarenta prefeituras no sul do Pará são suspeitas do mesmo crime em um relatório da Polícia Federal.

Para piorar, além da corrupção existente na polícia e no sistema judiciário, há um grupo de políticos que acoberta o tráfico. É gente que usa o cargo para aprovar projetos de interesse dos bandidos, para pressionar autoridades locais a não investigar os amigos e depois se beneficiar da imunidade parlamentar. Esse era o principal assunto da última reunião de um grupo de trabalho da Organização das Nações Unidas, ONU, sobre as drogas, realizada na Índia. Em todos os lugares do mundo em que já se investigou o narcotráfico em profundidade surgiram os nomes de caciques políticos: na Colômbia, descobriu-se o envolvimento do presidente; no México, o irmão do presidente; na Itália, o líder do partido do governo. No Brasil, essas relações também começam a ser desvendadas. A dúvida é saber se a fatia corrupta se restringe a uma meia dúzia de Hildebrandos ou se a força do pó pode vir a montar uma estrutura maior e mais deletéria ainda para o país.